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PACIÊNCIA DE JÓ

Mais perdida que barata tonta, nem Record sabe explicar por que Gênesis deu certo

FOTOS: REPRODUÇÃO/TV GLOBO

O ator Zécarlos Machado caracterizado como Abraão em cena de Gênesis

Abraão (Zécarlos Machado) em Gênesis; novela bíblica chega ao fim com mais erros do que acertos

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 22/11/2021 - 6h35

Depois de 220 episódios e nove meses de exibição, Gênesis chega ao fim nesta segunda (22) como um sucesso acidental. A própria Record não é capaz de dizer com exatidão o porquê de a novela bíblica ter dado tão certo, a ponto de colocar tudo a perder ao derrapar feio no planejamento --e terminar tapando buraco no horário nobre com mais uma reprise.

Os bons índices de audiência, na verdade, são fruto de uma tempestade perfeita que possibilitou à emissora estrear um produto inédito no meio da pandemia de Covid-19. Ela foi capaz até mesmo de driblar a Globo e fazer gol, colocando a trama no ar à frente da segunda parte de Amor de Mãe (2019).

Além do tropeço da líder de audiência, a TV de Edir Macedo igualmente contou com uma "forcinha" do SBT, que só agora se mobiliza com as gravações iniciais de Poliana Moça. No fim das contas, o folhetim de Camilo Pellegrini, Stephanie Ribeiro e Raphaela Castro não teve concorrência durante praticamente três meses ininterruptos.

A Record ainda se beneficiou da própria desorganização, uma vez que produzia Gênesis há pelo menos dois anos. A adaptação do primeiro livro da Bíblia Cristã deveria substituir originalmente Jesus (2019), mas novamente interferências da Igreja Universal atrapalharam o departamento de Dramaturgia da casa.

Emilio Boechat deixou o projeto insatisfeito com as intervenções de Cristiane Cardoso em seu texto, assim como Gustavo Reis. Camilo Pellegrini então assumiria como autor titular ao lado de duas estreantes --Stephanie Ribeiro e Raphaela Castro, ligadas à filha de Macedo e à instituição religiosa.

O ator Zécarlos Machado como Abraão apoia a testa na testa de Adriana Garambone, a Sara, em cena de Gênesis

Abraão e Sara na novela bíblica da Record

Dramas do sucesso

Um dos poucos méritos próprios de Gênesis foi o cuidado estético, bastante questionável, e os efeitos especiais de suas três primeiras fases. O jardim do Éden, o dilúvio e a destruição da torre de Babel chamaram a atenção do público, que rendeu à emissora então alguns dos principais recordes de audiência --17,4 pontos na Grande São Paulo com a arca de Noé (Oscar Magrini), por exemplo.

A produção começou a perder público justamente quando deixou a pegada de série para se firmar como telenovela em Ur dos Caldeus. A história de Terá (Ângelo Paes Leme) não agradou, mas Abraão (Zécarlos Machado) compensou em seguida com o "mozão" Sara (Adriana Garambone).

A quinta fase, que acompanhou a trajetória do patriarca, teve um cuidado especial de Camilo Pellegrini, que conseguiu criar tipos que caíram no gosto popular, como o casal Adália (Carla Marins) e Massá (Marcos Winter), além da antagonista Agar (Hylka Maria).

O roteirista, curiosamente, foi demitido junto com Paula Richard apesar de ter transformado uma das partes mais complexas, confusas e repetitivas do Velho Testamento em uma narrativa clara e simples, ainda que o tom de teleculto continuasse presente.

Pellegrini teve mais êxito do que Stephanie, que foi rechaçada por fãs de novelas bíblicas por conta de sua Raquel (Thaís Melchior). Ela ganhou o perfil de vilã, foi usada por Lúcifer (Igor Rickli) e em nada lembrou a sua contraparte na minissérie Lia (2018).

O ator Igor Rickli caracterizado como Lúcifer em cena de Gênesis

Lúcifer (Igor Rickli) no folhetim 

Show de horrores

Gênesis coleciona algumas derrapadas no decorrer das sete fases, principalmente ao tentar falar de temas polêmicos. O machismo foi apontado como fruto de um desentendimento entre os filhos de Eva (Juliana Boller), e Zeno (Leonardo Medeiros) deturpou um dos principais lemas de resistência à Ditadura Militar (1964-1985).

A narrativa ainda reduziu conflitos políticos no Oriente Médio à briga entre Isaque (Henri Pagnoncelli) e Ismael (Anselmo Vasconcellos), além de ter amenizado inúmeras cenas de violência doméstica e de incesto --como no caso de Ló (Emilio Orciollo Netto).

Há também uma quantidade absurda de sequências absolutamente constrangedoras, que não figurariam nem nos livros de anedotas de Ary Toledo nos anos 1980. Sheshi (Fernando Pavão) chegou a se borrar na frente de súditos, e ameaças de cortar "aquilo maravilhoso" foram constantes.

A novela foi absolutamente descuidada não só no texto, mas ainda nos bastidores. A Record ficou a um triz de perder a frente de capítulos que lhe deu vantagem sobre concorrência ao não se planejar diante da segunda onda de Covid-19. Os atores protestaram, mas a emissora se arriscou para não precisar interromper a história no meio.


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