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PELA TANGENTE

Gênesis surfa na onda das 'empoderadas' e varre machismo para baixo do tapete

EDU MORAES/RECORD

A atriz Ana Terra olha para a direita com expressão enfezada e está caracterizada como Renah em cena de Gênesis

Renah (Ana Terra) desafia o machismo do pai em Gênesis; emissora limpa a barra após tramas criticadas

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 21/1/2021 - 12h50

Gênesis tentou surfar na onda do empoderamento feminino no capítulo da última quarta (20) de olho em um público mais jovem, amplo e progressista. O conflito entre Adão (Carlo Porto) e a filha Renah (Ana Terra) até movimentou as redes sociais, mas a Record deu um passo para trás ao explicar a origem do machismo de forma simplista --a falta de proximidade entre o homem e Deus.

O folhetim bíblico se mostra menos engessado do que os anteriores, a ponto de fazer concessões que podem até mesmo afugentar um público mais conservador e mais interessado no tom confessional de suas produções. Apesar de não dar nome aos bois, e evitar o termo "feminista", a trama traz críticas --ainda que rasas-- à relação de poder entre homens e mulheres.

Durante a estreia, o personagem de Carlo Porto foi repreendido por agredir Eva (Juliana Boller) após comer o fruto proibido, num sinal de afastamento entre criatura e criador. O pai de Caim (Eduardo Speroni) voltou a ser criticado no segundo episódio por passar a mão na cabeça dos filhos enquanto repreende e explora as filhas.

A jovem interpretada por Ana Terra decidiu dar um basta nos mandos e desmandos do "primeiro homem" ao levar as irmãs para longe da terra de Nod. "E assim nasceu a primeira feminista, Renah", escreveu um perfil identificado apenas como Darla no Twitter.

Em um movimento que se intensificou a partir de Amor Sem Igual (2019), a Record passou a unir mais abertamente o rumo de sua dramaturgia aos interesses da Igreja Universal do Reino de Deus. Renato Cardoso, genro de Edir Macedo e o número dois da instituição, passou a comentar Gênesis nas redes sociais --sempre apontando o teor edificante da narrativa. 

reprodução/tv globo

Eva (Juliana Boller) e Adão (Carlo Porto)

O R7 também dedica espaço para textos que expliquem as parábolas de suas tramas, a exemplo do blog da jornalista Ana Carolina Cury. Ao analisar os conflitos de Adão e Eva, ela segue com esse processo ao afirmar que o machismo é, em tese, "uma ideia de homens que estão longe de Deus".

A questão é que professar uma fé e acompanhá-la como manda o figurino não torna um indivíduo menos misógino, até porque o Brasil acompanhou nos últimos meses gestos em direção contrária vindo de movimentos ligados a religiões neopentecostais --tentar impedir o aborto de uma criança de 11 anos que foi estuprada é um gesto machista por excelência.

Gênesis, claro, pode apontar uma direção em que a dramaturgia da Record passa a tratar os direitos das mulheres de uma forma mais ampla e antenada, ainda que o retrospecto da emissora não seja dos melhores. Essa concessão, porém, pode significar também que tramas problemáticas anteriores sejam apenas varridas para baixo do tapete.

Um dos exemplos mais claros é o caráter punitivista com que a interrupção da gravidez de Jandira (Brenda Sabryna) foi tratado em Topíssima (2019). A busca por um culpado e a alusão a um duplo assassinato, de mãe e bebê, tentou desviar a atenção de que o aborto é, antes de uma questão moral, um problema de saúde pública.

Já em Amor Sem Igual, Maria Antônia (Michelle Batista) passou por uma transformação completa -- e para melhor -- depois de ter sido abusada por Leandro (Gabriel Gracindo). Esse arquétipo da mulher que tira um "lado bom" de uma situação de violência vem sendo cada vez mais questionado, até mesmo em produções de Hollywood.


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