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ENTREVISTA EXCLUSIVA

'Não adianta esconder', diz Sérgio Mamberti após revelar bissexualidade aos 82 anos

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Sérgio Mamberti com seu livro Senhor do Meu Tempo

Sérgio Mamberti com seu livro Senhor do Meu Tempo; biografia narra trajetória artística e vida pessoal

ELBA KRISS

elba@noticiasdatv.com

Publicado em 11/7/2021 - 7h00

Há alguns anos, Sérgio Mamberti decidiu escrever sua biografia para comemorar a chegada dos 80. Com trajetória artística e pessoal memorável, o trabalho foi além do planejado. Precisou de mais tempo e auxílio. Então, em abril, quando o veterano completou 82 anos, o livro Sérgio Mamberti: Senhor do Meu Tempo, chegou às lojas pela Edições Sesc. Na obra, entre narrações da carreira, ele registrou uma declaração de amor a Vivian Mehr, sua mulher, e Ednaldo Torquato, seu parceiro. "Não adianta esconder", resume ele sobre a bissexualidade.

A biografia de Mamberti se inicia na infância do ator com lembranças da família em Santos, litoral de São Paulo. Dos pais, ele herdou a cultura e a sede pelo trabalho. Aos 15 anos, para aprimorar sua habilidade em línguas --ele fala cinco idiomas--, se matriculou na Aliança Francesa.

Lá, integrou um grupo de teatro com os amigos adolescentes. E de uma despretensiosa apresentação de 20 minutos, saiu do palco certo de que havia encontrado sua vocação. Desde então, ele se aprimorou na dramaturgia.

Sérgio Mamberti posa em sua casa, na Bela Vista, em São Paulo (Foto: Reprodução/Instagram)

A carreira, aliás, é o norte de toda a narrativa em suas memórias. Pode-se dizer que o título conta a história da cena teatral de São Paulo pelos olhos e experiências do escritor. Entre os relatos, muitos nomes consagrados da televisão, como Fernanda Montenegro, que assina o prólogo do livro, e Gilberto Gil, que escreveu a orelha.

Entre suas memórias, há a vez em que acolheu José Wilker (1944-2014) em sua casa. Ele estava dormindo na areia da praia, no Rio de Janeiro. Há também a ocasião em que se aventurou como sacoleiro com roupas de grife trazidas da Europa. Hebe Camargo (1929-2012) era sua melhor compradora. As vivências de Mamberti seriam um prato cheio para o Que História É Essa, Porchat?, do GNT.

No teatro, se realizou com montagens como O Balcão, do francês Jean Genet (1910-1986) --em uma releitura feita em 1968 que remetia aos desmandos da Ditadura Militar (1964-1985)-- e Réveillon, que lhe rendeu o Prêmio Molière de melhor ator em 1975. Claro, há muitos outros. "Tenho uma longa carreira recheada de alguns personagens que fizeram muito sucesso", comenta.

Na televisão, se consagrou com o mordomo Eugênio em Vale Tudo (1988). Na reta final da novela, era apontado nas ruas por sua fama e por ser um dos suspeitos de matar Odete Roitman, personagem de Beatriz Segall (1926-2018).

Mas o trabalho mais marcante é, sem dúvidas, o doutor Victor, do Castelo Rá-Tim-Bum (1994-1997). O bordão "raios e trovões" do tio de Nino (Cassio Scapin) é requisitado até hoje por onde ele passa. "Digo que é minha obra-prima porque une educação, cultura e comunicação", declara.

Entre as narrações de uma vida nos palcos, televisão, cinema, e uma longa passagem pelo Ministério da Cultura --a militância no PT também está na biografia--, Mamberti confidencia ao leitor momentos íntimos. Aqueles que desenham a personalidade da pessoa além do ator.

Sérgio Mamberti e Fernanda Montenegro: atriz assina prólogo do amigo (Foto: Reprodução/Instagram)

Vivian, sua melhor amiga que virou um grande amor, figura em cada capítulo. Pelas palavras do intérprete, é possível captar como a atriz foi o motivo do brilho em seus olhos. Com ela, o veterano teve três filhos -- Eduardo, Carlos e Fabrício-- nos 18 anos de união, entre namoro e casamento. Lamentavelmente, ela morreu em 1980 muito jovem, aos 37 anos.

Viúvo, o artista confessa que padeceu no luto. Levou anos para sentir que estava renascendo. A dedicação à política e aos palcos o tiraram da sensação de vazio. Quando viajava pelo Brasil com uma peça de teatro, algo não planejado aconteceu. Ele, que conversava sobre bissexualidade com a mulher, encontrou um parceiro quando menos esperava.

Mamberti viveu uma vida com Ednaldo Torquato. Foram 37 anos juntos em uma relação de cumplicidade, respeito e carinho. Para a família e amigos, não havia segredo. Ed, como era chamado, não era um amigo. A ele, sempre foi dado o devido título.

"Como é que eu ia esconder dos meus filhos que eu estava com um companheiro, sendo que ele morava comigo?", explica ele. Com o parceiro, o ator adotou Daniele, sua única filha mulher. Ed morreu em 2019, aos 62 anos, outra grande tristeza do ator.

"Sei que nunca vou me recuperar dessas duas perdas, mas a vida exige coragem e esperança para seguir em frente", escreve ele em seu livro a respeito do luto por Vivian e Ed.

De fato, ainda há muito a viver. Depois do lançamento da biografia, ele tem mais projetos. Entre eles, um longa-metragem e um documentário sobre sua carreira e, talvez, o principal anúncio: uma série para a internet com seu personagem mais famoso, o doutor Victor, do Castelo Rá-Tim-Bum.

Em entrevista para o Notícias da TV, Mamberti compartilha as novidades que estão por vir e fala abertamente sobre seus casamentos, como um convite para o público mergulhar nas quase 400 páginas de Sérgio Mamberti: Senhor do Meu Tempo, da Edições Sesc.

Leia a entrevista especial e exclusiva com Sérgio Mamberti:

Notícias da TV - Ao revisitar todas as suas memórias depois de tantos anos de carreira, em algum momento você se impressionou com tudo o que fez?
Sérgio Mamberti - Eu tinha resolvido fazer esse livro, mas não consegui avançar. Porque cada vez era uma nova memória. Não estava conseguindo uma sistemática porque tenho um turbilhão de memórias. Tomei como base essa linha do tempo da minha carreira teatral e convidei o Dirceu [Alves Jr.], que tinha acabado de ser demitido da Folha de S.Paulo, onde ele era crítico. Eu falei: 'Tenho um emprego para você'. Ofereci um trabalho (risos). Ele adorou, porque conseguiu me sistematizar. Começamos [o trabalho] em 2018, e [o livro] foi lançado em 22 de abril deste ano, que é o meu aniversário.

Notícias da TV - Você lamentou não poder ter feito uma noite de autógrafos por causa da pandemia?
Sérgio Mamberti - Lamentei. Eu queria poder encontrar as pessoas, pois estão me pedindo muito o livro com dedicatória. Fiquei um pouco frustrado, porque era para ter sido lançado na Festa Literária Internacional de Paraty do ano passado. Mas a pandemia está mais comprida do que a gente imaginava.

Notícias da TV - Você tem um documentário sobre sua carreira a caminho. Ele já tem título e previsão de lançamento?
Sérgio Mamberti - O título ainda não tenho. Mas são documentários dirigidos por Evaldo Mocarzel. São três histórias que já estão praticamente montadas -- de 50 a 60 minutos cada -- para serem exibidas na SescTV. Depois, tem um longa. Mas isso já é uma coisa muito mais completa. Vai muito além da carreira, tem os fatos pessoais e tudo mais. Será para concorrer em festivais.

Notícias da TV - Alguma previsão de lançamento para esses quatro projetos?
Sérgio Mamberti - São três para a TV e um para o cinema. Acho que o para a TV já está ficando pronto. No começo do ano [que vem] já está pronto. O longa vai demorar mais um pouquinho, porque tem muita pesquisa de filmes e matérias.

divulgação/TV Cultura

Elenco de Castelo Rá-Tim-Bum (1994-1997)

Notícias da TV - Você também tem uma série para a TV Cultura como o doutor Victor, seu personagem do Castelo Rá-Tim-Bum. Será o retorno da série?
Sérgio Mamberti - Só que esse é para a internet. Vai chamar Tempos do Doutor Victor. Será feito interagindo com a TV Cultura. [A história] será uma sobrinha do futuro e um sobrinho do passado, que, certamente, vão dialogar com o Cassio [Scapin]. Ele volta [para a nova série] ocasionalmente, não fixo. Não é por não querer. Eu o queria fixo. Mas tem questões orçamentárias (risos). O doutor Abobrinha [Pascoal da Conceição] também volta. Eu não li a última versão, mas tem alguns outros [personagens] que vão voltar.

Notícias da TV - Sendo para internet, será para o YouTube ou alguma plataforma de streaming?
Sérgio Mamberti - Eu tenho a impressão de que vai ser num dos dois. Não tenho participado das reuniões, porque eu tenho estado muito ocupado. Quem está fazendo todo esse tipo de combinação é o Carlos [Mamberti], meu filho, que é o produtor.

Notícias da TV - Alguma previsão de isso ir para a TV em algum momento?
Sérgio Mamberti - Estava previsto para o segundo semestre. Mas como a pandemia não acabou, deu uma pequena atrasada. Teve uns probleminhas de dramaturgia também para fazer esses personagens se encontrarem e ter uma lógica. Já tinha sido organizado um plot [enredo] original, mas se percebeu que tinha algumas incongruências. Então, eles passaram a reescrever outra vez. Mas é bem interessante. Serão capítulos de 12 minutos. Não tem um limite [de episódios]. É um contrato mais ou menos grande.

Notícias da TV - Então, além de conquistar toda uma geração com a frase 'raios e trovões', você vai conquistar outra nova era com seu personagem do Castelo Rá-Tim-Bum?
Sérgio Mamberti - (risos) Eu estou tomando umas injeções de antibióticos, e quem vem me aplicar é um enfermeiro que tem uma filha de seis anos. Eu tenho que falar todo dia com ela, mandar mensagens para a Sofia, porque ela sabe que o pai está trabalhando para o doutor Victor (risos).

Notícias da TV - Quando você fez Réveillon e Balcão, você imaginava que seria um ídolo infantil?
Sérgio Mamberti - Pois é, não imaginava. Porque tenho uma longa carreira recheada de alguns personagens que fizeram muito sucesso. Mas o doutor Victor está em cartaz há mais de 27 anos. Então, formou gerações. E isso tudo está gravado na memória das crianças. Tem uma profundidade de influência. Uma coisa linda.

Notícias da TV - Na televisão, além do doutor Victor, você tem outro personagem famoso, que é o Eugênio de Vale Tudo [1988]. Ele foi o personagem que te deu status de celebridade?
Sérgio Mamberti - Sim, Vale Tudo foi considerado por muitos a melhor novela de todos os tempos. Está entre as melhores, eu diria. O que aconteceu foi que um personagem que não tinha fala se transformou em um dos mais importantes da novela (risos). O Gilberto Braga estava me devendo isso (risos).

Porque em Brilhante [1981], ele tinha me convidado e fiz muito sucesso no começo [da novela]. Mas depois, ele não conseguia escrever para mim, e falou: 'É tão difícil escrever para personagens de classe média, personagens pobres. Eu escrevo bem para esses de famílias ricas' (risos). Mas o Gilberto é um gênio. Disse: 'Vou ficar te devendo essa'. Mesmo assim, nos últimos capítulos, ele me escreveu cenas lindas e fiquei um pouco consolado de ter participado [da novela].

Passou um tempo e ele me convidou para fazer Vale Tudo. E, de novo, eu estava fazendo um texto dele, [trabalhando] com a Beatriz Segall [1926-2018] e Nathalia Timberg. Foi uma experiência maravilhosa. E aí, eu fui para Cuba…

Notícias da TV - Em Cuba você viu como a novela ultrapassa fronteiras…
Sérgio Mamberti - Sim, cheguei lá e tinha um monte de fotógrafos. Pensei: 'Quem será essa pessoa importante que eles estão esperando? Não estou vendo ninguém aqui'. Era eu! (risos) Todo lugar que eu andava em Cuba, as pessoas diziam: '¿Cómo le vá, señor Eugênio?' (risos). As pessoas saíam de casa para me cumprimentar (risos). 

reprodução/tv globo

Mamberti e Nathalia Timberg em Vale Tudo 

Notícias da TV - Depois de conseguir fama com Vale Tudo, o doutor Victor te deu outra realização como ator?
Sérgio Mamberti - Todos os personagens me deram muitas referências positivas. Mas o doutor Victor tem 27 anos em cartaz. Bate o pessoal aqui na porta para me trazer correspondência ou qualquer coisa, e diz: 'Doutor Victor, grita raios e trovões para nós'. Olha, uma coisa emocionante!

Notícias da TV - Trouxe muita coisa, mas não deu muito dinheiro, como você narra no livro. O que aconteceu?
Sérgio Mamberti - Nenhum de nós ganhou dinheiro, a não ser o Cassio [Scapin]. Ele fez alguns espetáculos, em que ganhou um pouco de dinheiro. Mas a TV Cultura não se preocupou em fazer com que os atores pudessem usufruir dessa fama. Na verdade, eu diria que ela não conseguiu outra produção. Eles fizeram a Ilha Rá-Tim-Bum [2002], mas não acreditaram que o Castelo tivesse essa vitalidade. Eu sempre digo que minha obra-prima é o Castelo Rá-Tim-Bum, porque ele une educação, cultura e comunicação.

Notícias da TV - No seu livro, você cita muito que a vaidade e o ego caminham juntos no ofício do ator. Em Flor do Caribe [2013], você atuou com a Grazi Massafera, que saiu do Big Brother Brasil 5 e sofria muito preconceito na área. Como você vê a questão do ego e vaidade nisso?
Sérgio Mamberti - Olha, vou dizer para você: por isso que é bom a gente não ter preconceito. Porque a Grazi demonstrou o talento dela justamente em Flor do Caribe. Foi uma convivência maravilhosa, fizemos cenas maravilhosas juntos. Ela é extremamente estudiosa. Linda, linda, linda. Uma pessoa muito carinhosa.

Tive uma ótima oportunidade, porque convivi com outros atores novos além da Grazi e fiz um grande protagonista. Meu filho, o Duda Mamberti, fazia eu mais novo. Foi uma experiência muito rica graças ao Jayme Monjardim, que teve essa inspiração de me convidar. E isso me fez sair do Ministério da Cultura. Foi um prazer fazer Flor do Caribe, e foi um grande sucesso.

reprodução/tv globo

Igor Rickli, Grazi e Mamberti em Flor do Caribe

Notícias da TV - Na Globo, seu contrato era sempre por obra? Em algum momento chegou a ter contrato fixo?
Sérgio Mamberti - Sempre trabalhei por obra, porque eu fazia muito teatro. Então, estava sempre comprometido. Eu tinha medo de estar preso no contrato da Globo e não conseguir liberação para fazer esses trabalhos que adorava fazer. Agora, depois de Flor do Caribe, houve uma tentativa de eles me tratarem como contratado fixo. Mas entrou esse processo de crise da emissora.

Notícias da TV - Como você vê a demissão de veteranos da Globo?
Sérgio Mamberti - A Globo dominou esse mercado durante anos. Agora, com os problemas políticos, essa relação difícil com o governo de Jair Bolsonaro, passaram a ter dificuldades. Mas eles estavam mudando também o paradigma da empresa, queriam trabalhar mais em coproduções, pelo que consegui deduzir. Eles têm aqueles grandes estúdios, e queriam trazer atores para fazer trabalhos aqui, mas com produção de fora. A Globo, neste momento, se encontra numa certa crise, porque perdeu muitos de seus atores emblemáticos. Então, os nomes se repetem nos elencos. É uma pena.

Notícias da TV - Seu livro relata muito da sua história à frente do teatro de São Paulo, mas tem momentos dedicados à Vivian, sua mulher. Você fala muito dela. É também uma dedicatória a ela por ter acompanhado você em toda essa trajetória, correto?
Sérgio Mamberti - A Vivian e eu ficamos 18 anos juntos, até a morte dela. Ela me deu três filhos. Eu tinha uma parceria extraordinária com ela. Eu via que a vida dela seria curta por causa desse processo da asma dela. Acredito até hoje que o que ela tinha, talvez, fosse fibrose cística. Para mim, sempre foi misterioso esse diagnóstico da asma. Nós tínhamos uma sincronia de pensamentos e de criatividade, embora fossemos bem diferentes. Acompanhei a Vivian até os últimos momentos dela, foi um dos momentos mais difíceis que passei na minha vida. Fiquei quase dois anos me recuperando.

reprodução/edições sesc

O ator com Vivian (à esq.), os filhos e a sogra

Notícias da TV - Dois anos depois, você teve outro grande encontro, outra grande história, que é o Ed...
Sérgio Mamberti - O Ed foi uma coisa mais fortuita. A Vivian foi uma escolha e também teve um lado místico nesse encontro. Mas dois anos depois (da morte da mulher), fui fazer uma peça que viajava pelo Brasil e conheci o Ed, com quem estabeleci uma grande relação de amizade. Depois, ele precisou fazer uma operação e veio para São Paulo. Ele teve que ficar seis meses aqui. E pronto, nunca mais saiu daqui (risos).

Notícias da TV - Foram 37 anos juntos?
Sérgio Mamberti - Isso. Ele participou de 37 anos da minha vida. É uma outra relação. Uma relação também de muito carinho e de participação. O Ed era bem mais jovem que eu, mas o final da vida dele também foi complicado. Ele entrou num processo depressivo e não conseguia, profissionalmente, se estabelecer. Então, ele teve uma síndrome que se chama Wernicke-Korsakoff. Ele perdeu a mobilidade das pernas, depois o domínio da memória. Era um pouco parecido com o Alzheimer. Foram três meses que a gente lutou pela vida dele. Ele melhorou, mas estava com sequela. Sabíamos que não seria fácil, mas ele teve uma infecção urinária e acabou morrendo com 62 anos.

Notícias da TV - Ele te ajudou a criar os meninos depois da morte de Vivian e da sua mãe, verdade?
Sérgio Mamberti - Ele me ajudou bastante. Particularmente, a menina que eu criei, a Daniele. Ele foi muito pai dela. Eu viajava muito, os meninos já eram adolescentes, e ele foi o pai dela. Mas ele me ajudava também nessa administração da casa. Um parceiro de vida. Eu viajava muito e sempre podia contar com ele. Se eu tinha um jantar para fazer, ele gostava de cozinhar. Para as celebrações de Natal e Ano-Novo, ele também gostava de preparar os pratos. Ele era muito alegre. Depois, foi ficando um pouco triste, pois começou bebendo cerveja e vinho. Depois passou a beber vodca, e ela tem um processo destrutivo muito rápido.

Notícias da TV - Vocês chegaram a fazer a declaração de união estável?
Sérgio Mamberti - Não, nunca pensamos. Chegamos a conversar sobre isso. O Ed falou assim: 'Não quero nada oficial'. E tinha uma irmã dele que reclamou de a gente não ter feito os papéis, mas o Ed nunca quis.

Notícias da TV - Achei interessante o jeito que você abordou o tema no livro. Você narra que, com a Vivian, você já falava sobre bissexualidade. Era tudo muito às claras. Em algum momento, na hora de escrever, você pensou em tomar cuidado ao falar disso?
Sérgio Mamberti - Eu sempre falo com muita delicadeza desses temas. Mas num livro como esse, que é tão pessoal, eu não posso deixar de falar disso. Foram experiências muito profundas. Tanto que ouvi por parte da imprensa, comentários dizendo: 'Olha, o Mamberti é bissexual'. Não me sinto bem com esses rótulos para mim. Na verdade, são encontros. Eu prefiro chamar de encontros, não importa qual é o gênero.

Notícias da TV - Te preocupa esse assunto ainda ser tão discutido hoje em dia?
Sérgio Mamberti - Acho que ainda vai ser discutido durante um bom tempo. Eu estava vendo o Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul. É preciso muito mais coragem para ele abrir o jogo e colocar como é do que eu, que já tenho toda uma vida vivida. Acho que politicamente muita gente vai tentar usar isso contra ele. Eu não o conheço. Politicamente nós estamos em outro campo, mas fiquei muito contente de ele ter feito essa declaração, porque mostra que também é uma pessoa sincera e que não quis esconder isso.

Não adianta querer esconder, porque a qualquer hora isso pode vir à tona. E se você já não assumiu antes, fica numa situação muito complicada. Eu, particularmente, com relação aos meus filhos, falei logo de cara. Muitos amigos meus, na época, falaram: 'Você não pode fazer isso'. Mas como é que eu ia esconder dos meus filhos que eu estava com um companheiro, sendo que ele morava comigo? Talvez, a gente tenha tido, em alguns momentos, que enfrentar determinados problemas, mas muito menores do que se eu estivesse tentando esconder.

reprodução/Edições sesc

Sérgio Mamberti e Ed, seu parceiro

Notícias da TV - Em algum momento você pensou em fazer como Leite e falar publicamente? Ir à televisão ou a algum jornal falar sobre isso?
Sérgio Mamberti - Na época que eu estava convivendo não, porque acaba virando um case. A Marília Gabriela, que era muito amiga minha, falou: 'Sérgio, você tem uma integração fantástica do Ed e com seus filhos. Eu quero te entrevistar'. Falei: 'Marília, tenho a maior admiração por você. Tenho certeza que você faria um belo trabalho de jornalismo, mas quero ter liberdade para sair e não estar com um rótulo pendurado'. Ainda mais que era numa fase em que os meninos já eram um pouco mais que adolescentes. Fiquei pensando que, talvez, fosse complicado para eles. Eu perguntei para eles, que falaram: 'O que você decidir, está decidido'. Mas resolvi nunca abordar, e o Ed compartilhava dessa mesma visão.

Notícias da TV - Como está sua saúde, Sérgio? Você disse que toma injeções de antibióticos. Ainda é em relação ao problema na coluna que teve no passado?
Sérgio Mamberti - Eu tive um problema de próstata, que resolvi rapidamente. Usei sonda e tal. De repente, comecei a ter dores nas costas e a minha barriga ficou distendida. Eu estava com uma hérnia umbilical, ela cresceu muito e encarcerou uma parte do meu intestino delgado. Fui para o centro cirúrgico. Foi uma grande operação, de quase quatro horas. Foi agora no começo do ano. Ainda estou em recuperação.

Notícias da TV - Você está em recuperação de uma energia recente, trabalhando no documentário, na série com a TV Cultura, acabou de lançar o livro. Tudo isso aos 82 anos. Pensa em aposentadoria?
Sérgio Mamberti - Cada vez eu tenho mais trabalho (risos). Eu trabalhei o tempo inteiro [na pandemia]. Isso me mantém muito vivo, porque estou sempre escrevendo coisas, estou participando de lives, tenho participado de espetáculos streaming. Nossa, o que eu fiz durante esse tempo todo foi maravilhoso.

Veja publicação de Sérgio Mamberti sobre o livro Senhor do Meu Tempo:

Confira os destaques da entrevista exclusiva de Sérgio Mamberti ao Notícias da TV:


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