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QUIBI

Fracasso bilionário, 'Netflix dos celulares' vira o grande mico do ano

Divulgação/Quibi

Dentro do que vem a ser um avião destroçado após a queda, a atriz Sophie Turner se desespera em cena da série Survive

A atriz Sophie Turner em cena do drama Survive, atração do Quibi duramente criticada pela imprensa

JOÃO DA PAZ - Publicado em 20/06/2020, às 06h01

Com um investimento de US$ 1,75 bilhão (R$ 9,29 bilhões), o streaming Quibi foi lançado em 6 de abril. Dois meses depois, a "Netflix dos celulares" é o grande mico do ano em Hollywood. A plataforma acumula fracassos, do baixo número de assinantes ao próprio uso do serviço. Há desentendimentos nos bastidores e rola até um processo na Justiça.

Quem investe, quer resultado. E o Quibi (pronuncia-se "cuibi") contou com gigantes no aporte, como Disney, WarnerMedia e NBCUniversal. Para satisfazer esses financiadores, é preciso mostrar números positivos, principalmente nos quesitos assinantes e engajamento. Eis o ponto fraco do novo streaming.

De acordo com reportagem do Wall Street Journal, o Quibi deve ficar muito abaixo da meta de assinantes estipulada para o seu primeiro ano. Os executivos projetaram a marca de 7,4 milhões de usuários, a ser atingida em abril de 2021. Pelo andar da carruagem, se esse número chegar a 2 milhões já será um bom negócio. O erro na projeção seria de mais de 5 milhões de assinantes.

Além da chegada de novos clientes ser pequena, o uso do aplicativo é irrisório. Lá em abril, uma pessoa com um celular que abriu a loja do seu sistema operacional e baixou o Quibi ganhou um um teste de três meses (um período bem mais longo do que o usual, registre-se). Agora isso foi corrigido, são só duas semanas grátis.

O problema é que dos 4 milhões de usuários que fizeram o download do app nos Estados Unidos até agora, somente 30%, pouco mais de 1 milhão, seguem ativos. Ou seja, usam o Quibi com frequência.

Na semana do lançamento, os executivos estavam animados. Na Apple Store, o Quibi figurava entre os 50 aplicativos mais populares. Efeito da novidade, pois o público queria ver estrelas de Hollywood, de Sophie Turner a Queen Latifah, em projetos inovadores, séries curtas com episódios que não passam dos dez minutos e que podem ser vistos com o celular em pé (vertical) ou deitado (horizontal). A poeira baixou, e o Quibi não está nem no top 100 na Apple Store, amarga a 125ª posição.

divulgação/quibi

Vencedora do Emmy, Rachel Brosnahan olha para um espelho quebrado em 50 States of Fright


Ficha corrida

Por que o Quibi se tornou um fracasso tão retumbante nas primeiras semanas de vida? Para começar, há a questão do lançamento feito fora de tempo. O streaming diferentão nasceu para ser consumido na rua, durante a rotina diária. O usuário teria na palma da mão uma opção de entretenimento para ver em poucos minutos, seja no intervalo do trabalho ou na espera de um serviço qualquer, por exemplo.

Mas o Quibi chegou no meio da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), com a população mundial isolada em suas casas. E há um agravante: a plataforma não permitia que o assinante pudesse "espelhar" os vídeos na TV. Havia um bloqueio no próprio aplicativo. A reclamação demorou a ser consertada, e essa falha foi corrigida tarde demais. Somente dois meses depois, em junho, é que foi habilitada a permissão para jogar o vídeo na TV via Chromecast.

Existe também a questão do modelo de assinatura. São duas versões pagas, uma com anúncio e outra sem. Por que uma pessoa vai pagar um streaming para ver propagandas? Se o objetivo é ver vídeos curtos como passatempo, melhor usar o YouTube e clicar no "pular anúncio" a cada comercial que aparecer na tela.

reprodução/Bloomberg

Meg Whitman e Jeffrey Katzenberg, executivos do Quibi, na feira CES 2020, em Las Vegas


Culpa de quem?

Todos esses problemas têm uma origem. Jeffrey Katzenberg, executivo experiente de 69 anos, com passagens decisivas e revolucionárias na Disney e na DreamWorks, é o fundador do Quibi. Em entrevista para o jornal The New York Times, ele escolheu o culpado: "Eu responsabilizo o coronavírus por tudo o que deu errado. Tudo!".

O bastidor da empresa também não é nada bom. Segundo a reportagem do Wall Street Journal, Katzenberg gosta de microanalisar cada decisão da sua companhia, o que causou vários atritos com Meg Whitman, a diretora-executiva (CEO) do Quibi. Ela chegou a ameaçar largar o emprego em 2018, um ano após o início dos trabalhos.

Duas semanas após o lançamento do serviço, a chefe de marketing da empresa, Megan Imbres (ex-diretora da Netflix), pediu demissão. Ela seria a responsável por cuidar da marca em publicidades. Em um período de nove meses, quatro executivos pediram as contas a abandonaram o barco da empresa

E corre na Justiça um processo de quebra de patente e roubo da tecnologia que o Quibi usa, essa de girar o celular durante a exibição de um programa e a cena em questão continuar normalmente, em um corte diferente que se adapta à tela.

No ano passado, durante o festival South by Southwest, Katzenberg comparou seu projeto inovador ao lançamento da HBO, no começo década de 1970. "Eles ofereceram oportunidades para criadores de conteúdo que eram únicas, diferentes da TV aberta", falou o executivo. "Tudo o que eles fizeram para se diferenciar da TV convencional é o que o Quibi está fazendo para se diferenciar do YouTube, Facebook, Snapchat e Instagram."

O jogo ainda pode virar para o Quibi. Mas neste momento, o aplicativo está longe de fazer o que a HBO fez na TV paga décadas atrás. O Quibi está mais próximo de YouTube, Facebook e Snapchat, com suas investidas flopadas no mundo das séries.

Mesmo sem legendas em português ou dublagens, o Quibi está disponível no Brasil. A versão sem anúncios sai por R$ 32,90 por mês.

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