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CADÊ NETFLIX?

Oscar supera barreira da língua com Parasita, mas não quebra a do streaming

Fotos: Divulgação/Netflix

Montagem com os atores Jonathan Pryce, em cena de Dois Papas, e Robert De Niro, em O Irlandês, filmes da Netflix

Jonathan Pryce em Dois Papas (à esq.) e Robert De Niro em O Irlandês: filmes saíram sem prêmios

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 10/02/2020, às 13h37

Grande vencedor do Oscar deste ano, o sul-coreano Parasita fez história ao se tornar o primeiro longa a ganhar as estatuetas de melhor filme e filme internacional. O apelo do diretor Bong Joon-ho no Globo de Ouro, quando pediu para o público americano superar "a barreira de dois centímetros da legenda", parece ter dado resultado. É um passo e tanto para os votantes, que agora se deparam com uma nova trincheira na guerra contra o conservadorismo: premiar produções do streaming.

Em 13 de janeiro, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou seus indicados, a Netflix estava no topo do mundo: com 24 nomeações, ela liderava a corrida para o maior prêmio da sétima arte. Seria uma prova de que se autodenominar "a nova casa do cinema" não era demonstração de arrogância. No domingo (9), a plataforma caiu de seu cavalo.

De suas duas dúzias de indicações, a gigante do streaming voltou para casa apenas com duas estatuetas: atriz coadjuvante para Laura Dern (de História de Um Casamento) e documentário para Indústria Americana.

O épico O Irlandês, com suas 3 horas e meia de duração e orçamento de US$ 159 milhões (R$ 686 milhões), conseguiu perder em todas as categorias nas quais concorria. Dois Papas, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, também não levou nenhum dos três prêmios para os quais foi lembrado.

Com menos indicações, estúdios tradicionais ultrapassaram a Netflix na hora de contar troféus: Sony Pictures e Disney (agora com a Fox no seu guarda-chuva) levaram quatro cada; a Universal ficou com três. A gigante do streaming empatou com a Warner Bros., que também venceu duas categorias com Coringa.

Para se firmar como uma potência cinematográfica, a novata terá de superar a desconfiança dos críticos mais conservadores. Ela já abortou a estratégia de colocar seus filmes no cinema (uma exigência para concorrer ao prêmio) no mesmo dia em que eles chegam aos seus assinantes: agora, as produções chegam uma ou duas semanas antes às telonas, para não irritar exibidores e ganhar moral com votantes.

A janela exclusiva para o cinema rendeu pontos, mas ainda falta o principal: o grande prêmio. No ano passado, ela concorreu com Roma, longa poético (e lento) de Alfonso Cuarón. Levou melhor diretor, mas perdeu a estatueta de filme para o controverso Green Book: O Guia. Em categorias de atuação, já emplacou dez indicados, mas só foi vencer agora, com a coadjuvante Laura Dern. Os seis roteiros lembrados pela Academia nas últimas três cerimônias também perderam.

A frustração do serviço de streaming com o Oscar em seu braço cinematográfico é similar ao que as produções televisivas enfrentam no Emmy: apesar de emplacar indicados na premiação desde 2013, ela ainda não venceu os troféus de melhor série de drama ou de melhor comédia. Até hoje, seu prêmio mais expressivo foi o de atriz para Claire Foy, a rainha Elizabeth nas duas primeiras temporadas de The Crown.

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