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QUEBROU O TABU

O jogo virou? Mulheres no comando deixam homens pelados e objetificados na TV

Reprodução/HBO

Jacob Elordi tem expressão de tédio em meio a um monte de rapazes nus no vestiário da série Euphoria

Jacob Elordi em cena de Euphoria com mais de 30 pênis à mostra; nu frontal deixou de ser tabu?

LUCIANO GUARALDO

luciano@noticiasdatv.com

Publicado em 8/5/2022 - 7h00

A novela Pantanal chocou (e empolgou) telespectadores ao exibir na terça (3) uma cena em que Jove (Jesuita Barbosa) ficou peladão diante de Juma (Alanis Guillen). A sequência durou poucos segundos e mostrou apenas o bumbum do ator de 30 anos. Mas, depois de décadas de objetificação do corpo feminino, o jogo virou e a nudez frontal masculina tem deixado de ser tabu na TV --que o digam séries como Euphoria e Minx: Uma Para Elas.

A segunda, disponível na HBO Max e renovada para uma segunda temporada na última quinta-feira (5), conta a história da jornalista Joyce Prigger (Ophelia Lovebond), que deseja editar uma revista feminina nos anos 1970 e, para tirar a ideia do papel, precisa se aliar a Doug Renetti (Jake Johnson) e lançar uma publicação com conteúdo erótico.

Logo no primeiro episódio, Joyce tem de fazer a seleção dos modelos que estamparão a capa e o recheio da nova revista --a cena exibe pênis de todos os tipos, tamanhos, etnias e idades. O ator Jake Jensen, que apareceu como um dos peladões, encara a cena com naturalidade.

"É uma tendência positiva. Se mostram os seios, por que não o pênis? A nudez é o que é, e acho que não podemos focar só nas mulheres. É bom ter representatividade masculina nesse aspecto", conta ele ao Notícias da TV. "Como eu também sou modelo e já fiz sessões de foto nu, estou mais confortável com o meu corpo. Nem sempre ser modelo ajuda na atuação, mas nesse caso acho que contribuiu bastante, eu já estava acostumado."

Outro ponto positivo nos bastidores de Minx? Boa parte da equipe é formada por mulheres: da criadora, Ellen Rapoport, à diretora do episódio, Rachel Lee Goldenberg. "Como modelo, costumo trabalhar com fotógrafos homens. Foi bom ter essa visão feminina, elas fizeram um ótimo trabalho", valoriza Jensen.

O médico psiquiatra Jairo Bouer, especialista em sexualidade, concorda que a ascensão das mulheres na indústria ajuda na mudança de paradigmas sobre a nudez no audiovisual. "Classicamente, a gente tem uma questão muito mais do nu feminino nas séries, na TV e no cinema. Isso é reflexo de uma cultura machista: o corpo da mulher está mais dentro dessa misoginia, ele é muito mais para a apreciação do público do que o contrário", aponta.

Recém-criado em produções de Hollywood, o posto de coordenador de intimidade também era ocupado por uma mulher, Liz LaMura, em Minx. "Nós discutimos todas as tomadas, ela perguntou o meu nível de conforto em mostrar tudo, se estava de acordo. Ajudou todo mundo a ficar mais à vontade. Na hora de gravar, a equipe era reduzida, e eu não fiquei pelado na frente dos outros atores", explica Jensen.

Apesar de ver progresso na representação do corpo masculino na mídia, Jake torce para que a nudez se torne tão comum que deixe de ser uma questão. "Eu espero que o público americano se libere, na Europa aceitam muito mais que os corpos são coisas naturais. Se você fica tenso, retraído, torna aquilo algo maior do que de fato é", justifica. 

reprodução/channel 4 e hbo max

Conor Watt no Naked Attraction e Jake Jensen em Minx

Conor no Naked Attraction e Jake em Minx

"Na Europa, o nu é mais comum. Temos séries como Merlí [2015-2018], Sapere Aude [2019-2021], Elite... Elas mostram um pouco mais. Os filmes franceses e os espanhóis também têm mais nudez. São coisas presentes há mais tempo no audiovisual de lá. Nos Estados Unidos, no Brasil, na América Latina, a cultura é machista. Aqui somos liberais só até a página 2", ressalta Bouer.

Nascido e criado nos Estados Unidos, mas vivendo na Escócia desde que se mudou para cursar a faculdade, Conor Watt sabe bem a diferença entre as culturas. Depois de tirar a roupa em seu perfil no Onlyfans (cuja renda é usada na construção de um santuário animal), ele participou do Naked Attraction, um reality show de namoro em que os participantes tentam encontrar sua alma gêmea --completamente nus e sem censura.

"Eu não acho que os britânicos aceitem mais a nudez, mas é algo que está na TV daqui desde sempre. Não é uma questão de aceitação, sempre foi assim, eles não editam esse tipo de coisa. Mas, sempre que alguém aparece nu no programa, por exemplo, todos falam: 'Eu não me imagino fazendo o mesmo, essas pessoas são loucas'", explica ele à reportagem. "Acho que as pessoas nos EUA aceitariam melhor a nudez na TV se ela fosse exibida há mais tempo."

"Mas eu acredito que a nudez frontal masculina vai se tornar mais normalizada. Em Game of Thrones, quando mostraram um pênis, virou notícia. Agora, cada vez mais séries e programas estão fazendo isso, então não causa tanta repercussão", ressalta Watt, que completa:

Enquanto sociedade, estamos aceitando mais todo tipo de nudez. Não é mais uma questão de objetificar as mulheres, é de refletir se o nu cabe naquele contexto. Séries como Euphoria, por retratarem o sexo entre adolescentes, acabam virando notícia, mas espero que estejamos caminhando para um lugar em que a nudez masculina e a feminina sejam somente uma representação do corpo humano, e não algo para sexualizarmos.

reprodução/channel 4

Sam Morris peladão no documentário Me and My Penis

Sam Morris mostrou pênis ereto na TV

Pudicos, mas nem tanto

Apesar de estarem mais avançados em relação à nudez, os europeus ainda se chocam quando novos passos são dados. Em agosto de 2020, por exemplo, a Channel 4 britânico exibiu um pênis ereto no horário nobre pela primeira vez na história da TV do país. A cena foi ao ar no documentário Me and My Penis, e o membro em questão pertencia a Sam Morris, que já produzia conteúdo de erotismo na internet.

"Quando fui contatado pela equipe, fiquei hesitante em um primeiro momento. Mas a diretora [Jenny Ash] era mulher e já tinha trabalhado em outro documentário, sobre o corpo feminino, que eu achei de muito bom gosto", lembra ele em conversa com a reportagem.

Ser o primeiro pênis ereto na TV britânica foi um grande passo, mas a maneira em que eu estava posando e me exibindo fez com que eu me sentisse mais confortável. Era um documentário tocante, que mostrava um lado vulnerável e muito bonito dos homens e da masculinidade.

Morris especula que os britânicos são bastante pudicos em suas vidas pessoais, mas não se importam em ver o corpo nu na TV. "Temos várias séries e programas com nu frontal, e eu recebi um retorno muito positivo do público. Norte-americanos sempre foram mais puritanos", alfineta. 

E o Brasil, como fica?

No Brasil, o nu frontal masculino na TV ainda engatinha. A Globo produziu sua primeira cena do tipo em Verdades Secretas 2, na sequência em que o modelo Tadeu (Gabriel Vieira) caminha por uma casa sem roupa. A cena, no entanto, não deve ser exibida quando a novela chegar à TV aberta e ficará restrita à versão mais picante, exclusiva do Globoplay.

"Aqui é uma coisa muito marcada, essa questão do patriarcalismo, da cultura mais machista, ainda é algo muito arraigado no nosso país. Talvez menos nos grandes centros urbanos, mas se você for para o interior, essa cultura está muito impregnada", indica Jairo Bouer. "Dentro desse viés, ver o corpo masculino choca mais do que o feminino. Nas novelas a gente até tinha os descamisados, às vezes as nádegas, mas o pênis sempre foi raro."

"De uns tempos para cá a gente vê uma flexibilização maior, ainda não no mesmo nível do corpo feminino, mas começa a ver um pouco mais. Em séries, em filmes. Temos o Boi Neon [2015], com o Juliano Cazarré", cita o psiquiatra.

Bouer também explica que a arte, muitas vezes, tem função contestadora, que fica mais explícita em contraste a regimes conservadores, como o de Jair Bolsonaro no Brasil ou o de Donald Trump nos Estados Unidos --foi no mandato do empresário que a HBO aprovou a produção de Euphoria e Minx.

"Com governos conservadores, a arte é um mecanismo de escape. Tem um avanço nesse sentido. A gente aos poucos vai trazendo o empoderamento da mulher, uma flexibilização de costumes... E temos o fenômeno das redes sociais, a gente vê os atores se expondo cada vez mais na internet", indica.

Para o especialista em sexualidade, a tendência é que a nudez se torne cada vez mais comum com a evolução da sociedade. "Mesmo para o adolescente, que tem uma cabeça mais refrescada, o que chocaria gerações anteriores não choca mais os jovens de hoje. O personagem da série beija uma mulher, depois um homem, e está tudo bem."


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