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COLUNA DE MÍDIA

Silvio Santos coloca SBT à venda por valor bilionário; saiba quanto

Reprodução/SBT

O apresentador Silvio Santos, do SBT

Venda do SBT sem a presença de Silvio Santos é difícil; já a Globo tem vários interessados

Guilherme Ravache

gravache@gmail.com

Publicado em 16/12/2021 - 6h20
Atualizado em 23/12/2021 - 6h20

O cenário eleitoral brasileiro é incerto, mas alguns bancos se movimentam em busca de negócios no setor de mídia no país. Já os grupos nacionais nunca estiveram tão abertos a encontrar investidores e até novos donos.

Segundo um executivo de TV, neste momento as duas maiores barreiras para a entrada de capital estrangeiro são o ambiente político incerto e a Constituição, que limita a 30% a propriedade estrangeira em grupos de mídia no Brasil.

"O cenário eleitoral será definido no próximo ano. Mesmo que Jair Bolsonaro se reeleja, há chances de a lei mudar para permitir a entrada de capital estrangeiro na mídia. É o que a maioria dos grupos de comunicação busca", diz o executivo.

Globo, Band, SBT e RedeTV! seriam favoráveis à abertura para o capital estrangeiro de empresas de mídia.

Mudança quase aconteceu, mas Bolsonaro barrou

A mudança na Constituição para permitir capital estrangeiro por pouco não aconteceu neste ano. Segundo reportagem do jornalista Julio Wiziack, na Folha de S.Paulo, o presidente Jair Bolsonaro cedeu à pressão do bispo Edir Macedo, dono da Record, e barrou uma PEC (proposta de emenda à Constituição) do Ministério das Comunicações, que previa reforma na radiodifusão e a abertura da mídia ao capital estrangeiro.

Macedo, por meio de sua assessoria de imprensa, negou que tenha conversado com Bolsonaro para barrar a PEC. De todo modo, transita no Congresso projeto similar ao da PEC barrada.

Além disso, permitir a propriedade estrangeira na mídia é um pedido da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e facilitaria a entrada do Brasil no grupo.

Juntar-se à OCDE é uma das prioridades do governo Bolsonaro, que inclusive fez diversas concessões ao governo norte-americano no passado, em vista da promessa do ex-presidente Donald Trump de ajudar o Brasil no processo.

Posição ideológica ou eleitoral?

Bolsonaro barrou a PEC e, neste momento, o governo afirma ser contrário à entrada de estrangeiros como donos de grupos de mídia no Brasil. Mas o histórico de mudanças faz com que alguns especialistas apostem que uma nova posição em favor dos estrangeiros não seria difícil se Bolsonaro e seus aliados percebessem vantagens. 

O governo se opor à mudança é mais uma decisão contextual, não perder um poderoso aliado como o bispo Edir Macedo e a Record durante as eleições de 2022, do que propriamente ideológica. Ironicamente, Bolsonaro e o ex-presidente Lula estão alinhados quando defendem a manutenção da restrição ao capital estrangeiro.

Uma vitória de Lula parece ser o cenário mais difícil para uma mudança da lei da mídia. O PT é contra a entrada de estrangeiros e, inclusive, propõe aumentar a regulamentação dos grupos de comunicação. Mas Lula pode até ser mais pragmático do que Bolsonaro e aceitar a mudança para buscar uma reconciliação geral, caminhando mais ao centro.

Uma terceira via, como a eleição do governador João Doria (PSDB) ou do ex-juiz Sergio Moro, seria o caminho mais favorável à abertura completa.

Globo é alvo de investidores

A Globo é o principal alvo no mercado brasileiro. Além da liderança e da força da marca, o duro processo de reestruturação com corte de custos e venda de ativos, que ocorreu na empresa nos últimos anos, facilitaria a entrada de um investidor estrangeiro. A empresa está mais rentável, voltou a dar lucro e cresce no digital.

A Globo também teria a direção mais profissionalizada e menos familiar das grandes TVs, uma vantagem do ponto de vista de quem compra. 

Outro diferencial da emissora é o Globoplay e a gigantesca presença digital da empresa no país. O serviço de streaming, seus sites e demais propriedades digitais reúnem mais de 100 milhões de contas. A plataforma também cresce consistentemente, com taxas de dois dígitos tanto em receita quanto em faturamento.

A Globo é bem capitalizada, com mais de R$ 12,5 bilhões em caixa e uma dívida, que mesmo em dólar, está sob controle.

Estrutura de capital da Globo

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Globo afirmou à coluna que "está em pleno processo de transformação para preparar a empresa para o futuro". "Esse futuro, permeado pelos desafios da era digital, passa pela exploração de novas fontes de receita, pela eficiente gestão de custos, por uma empresa mais leve e com uma estrutura de despesas fixas e variáveis mais equilibrada, e com geração de valor em tudo o que faz."

Ainda segundo a emissora, este processo "passa também pela busca contínua do desenvolvimento de nossas capacidades core e ainda pela aquisição de competências que são requeridas para suportar a estratégia D2C (direct to consumer). É nesse contexto que revimos todos os nossos modelos de gestão, inclusive de talentos, sem que nada disso tenha a ver com a estrutura de capital da empresa".

Mesmo que a Globo não queira mudar a estrutura de capital neste momento, adicionando novos sócios, a realidade é que quanto mais eficiente a empresa se torna e mais lucro e crescimento gera, mais atrativa fica para investidores.

No início do ano, a fusão da Televisa com a Univision teve o Google como um dos investidores. O SoftBank Latin America Fund e The Raine Group, juntamente com o Google, investiram US$ 1 bilhão na nova empresa que se chamará Televisa-Univision. No Brasil, o Google fechou neste ano um grande acordo com a Globo. 

Manuel Belmar, diretor-geral de finanças da Globo, disse mês passado à coluna que conversa com grandes bancos toda semana. "Temos feito inúmeras associações e sempre exploramos parcerias. A TV é muito vertical, e temos a necessidade de explorar as adjacências. Também temos de considerar opções possíveis no longo prazo."

SBT busca novo dono, mas está difícil

Enquanto bancos e grupos de mídia conversam nos bastidores e aguardam a mudança na legislação para priorizar parceiros internacionais, o SBT não quer esperar. Sílvio Santos teria autorizado ao menos dois representantes a vender sua emissora.

Na avaliação de uma pessoa que ouviu a proposta, o problema é a falta de um plano de sucessão. "O SBT é o Silvio Santos. O Silvio quer R$ 1 bilhão para vender a TV. Mas quanto vale o SBT sem o Silvio e sem as empresas do grupo que anunciam no canal? O modelo de negócios foi montado para vender os produtos de Silvio."

Para um ex-presidente de uma TV, o problema do SBT e de boa parte dos grupos de comunicação é a falta de um plano de negócios claro. "O problema não é o preço. A dificuldade é mostrar que R$ 1 bilhão vai ser recuperado e vai virar ainda mais dinheiro no futuro."

TV e o problema de imagem no país 

Um representante de Silvio Santos, acompanhado de um apresentador do SBT, levou a proposta a um conglomerado brasileiro que já possui investimentos em mídia. Mas o grupo não demonstrou interesse por avaliar que teria mais "dor de cabeça do que oportunidade" comprando uma TV.

Neste caso, o problema nem foi o preço. Mesmo que o valor pedido por Silvio Santos fosse menor, grandes grupos brasileiros com capital suficiente para adquirir ou se associar a grandes TVs afirmam que a compra de emissoras seria um processo complexo, com mais riscos de imagem do que benefícios neste momento.

O cenário político é complexo, e a influência das TVs neste contexto, que a grosso modo se divide entre as emissoras a favor e contra o governo Bolsonaro, pode atrapalhar outros negócios.

Procurado, o SBT afirmou por meio de sua assessoria que não comentaria.

Os demais candidatos e a oposição

Embora não dependam de uma única marca como Silvio Santos, Band e RedeTV! possuem estruturas menos profissionalizadas em comparação à Globo, avalia um executivo ouvido pela coluna.

Outro problema seria a presença incipiente da Band e da Rede TV! no streaming e a alta dependência do YouTube e Facebook no caso da RedeTV!. As novelas infantis do SBT estão entre as atrações mais vistas da Netflix e fazem sucesso no YouTube. Mas a monetização de conteúdo infantil é menor em relação a conteúdos para adultos, por exemplo.

A Record se opõe ao capital estrangeiro e sequer quer sócios. Mas dinheiro não parece ser um problema na empresa. De acordo com balanço publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em um ano o patrimônio da Record deu um salto de R$ 3,2 bilhões, crescimento de 176,6%.

O patrimônio líquido consolidado, que era de R$ 1,826 bilhão em 31 de dezembro de 2019, saltou para R$ 5,050 bilhões em 2020. O valor adicional veio do banco Digimais, comprado pelo bispo Edir Macedo.

Como ser mídia sem ser mídia

Existe ainda a possibilidade de grupos estrangeiros entrarem no país investindo em meios digitais, em que a legislação é menos rígida. Eles poderiam ser donos de portais ou redes sociais, produzir conteúdo e não seguir o limite de capital estrangeiro.

A Netflix é um grupo estrangeiro de mídia que opera no Brasil e também oferece em sua plataforma documentários e conteúdos de viés jornalístico, como a recém-anunciada produção sobre o jogador Neymar.

Existem ainda sites com propriedade 100% estrangeira e que produzem conteúdo jornalístico no país. Essa brecha desvaloriza as demais propriedades tradicionais de mídia no Brasil, que gradualmente se tornam obsoletas em tempos que os consumidores mudam rapidamente para o digital. Agora, é o streaming gratuito que começa a despontar

Fusões e aquisições são tendência 

A saída de Donald Trump da presidência dos Estados Unidos teve diversos impactos na mídia americana. Além de manchetes menos espetaculares, a mudança de governo deu início a uma onda de fusões e aquisições de grupos de TV e notícias em geral.

"Fusões e aquisições são um jogo de confiança. Com a certeza política, o fim da pandemia à vista e mercados de capitais fortes, os níveis de confiança no topo das empresas e nas salas de diretoria estão altos. Isso é um bom presságio para fusões e aquisições", afirmou Anu Aiyengar, co-chefe global de Fusões e Aquisições do J. P. Morgan em relatório do banco.

Relatório da empresa de consultoria e auditoria PwC mostra que mais de 410 fusões e aquisições foram negociadas no mercado americano, movimentando mais de US$ 83 bilhões, apenas nos primeiros seis meses de 2021.

"À medida que a guerra do streaming aumenta, algumas empresas de mídia voltam sua atenção para a aquisição de conteúdo", afirma a PwC, acrescentando que "a dinâmica cada vez mais competitiva no 5G e streaming estão acelerando as fusões e aquisições em 2021 e devem continuar nos próximos anos".

Com a crescente competição com as empresas de tecnologia, como Google, Meta (ex-Facebook) e Amazon, os grupos de mídia tradicionais têm-se unido para resistir ao rápido processo de digitalização, que tem levado a audiência e verbas publicitárias da TV aberta e a cabo para o streaming e redes sociais.

Por outro lado, as empresas de tecnologia têm adquirido produtores de conteúdo para aumentar a oferta de conteúdo. A compra dos estúdios MGM pela Amazon por US$ 8,45 bilhões é um exemplo. 

Estrangeiros vão precisar de opções

Em 2021, o número de fusões e aquisições nos Estados Unidos alcançou um recorde histórico. Segundo dados da Refinitiv, o volume de negócios ultrapassou US$ 4,3 trilhões, quase o dobro do período do ano até a data de 2020. É 34,4% mais do que em 2007, recorde anterior.

Um dos maiores negócios foi a fusão da WarnerMedia com a Discovery, criando um gigante de US$ 150 bilhões. A HBO Max, parte do grupo, tem no Brasil seu maior mercado fora dos Estados Unidos. Ninguém descarta que, após a aprovação final do acordo, a empresa seja novamente vendida ou prossiga com novas aquisições.

A ViacomCBS e a NBCUniversal se uniram para trabalhar juntas fora dos Estados Unidos para acelerar o crescimento no streaming. O acordo aumentou os comentários de que deve ocorrer uma fusão total das duas empresas.

A Meredith, um dos maiores grupos de mídia do mundo, vendeu suas emissoras de TV local para a Gray Television neste ano. Depois, o restante da operação foi adquirido pela Dotdash. O alto endividamento da empresa era visto como um problema. 

Na Europa e Ásia ocorrem movimentos semelhantes.

À medida que esses mercados maduros se tornam saturados, o natural é que os investidores busquem novos mercados como o Brasil. Mas se esse dinheiro chegará ao país, vai depender dos nossos políticos e se vão ou não alterar a Constituição para permitir a entrada dos estrangeiros na mídia local.


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