PRINCÍPIOS EDITORIAIS

Com Globo na 'oposição', jornalistas quebram código e criticam Bolsonaro na web

FOTOS: REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Imagem aberta da Redação da Globo durante início do Jornal Nacional, com William Bonner e Renata Vasconcellos

Jornal Nacional adotou tom crítico ao governo durante a pandemia, e protocolo da Globo foi quebrado na web

VINÍCIUS ANDRADE - Publicado em 18/06/2020, às 05h25 - Atualizado às 13h50

Com tom crítico ao governo Jair Bolsonaro durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a Globo se colocou como uma "oposição" às ações do presidente e de integrantes de sua equipe nos últimos meses. Essa linha editorial tem feito com que jornalistas da empresa quebrem algumas regras em relação ao comportamento em redes sociais, que constam nos Princípios Editoriais do Grupo Globo.

Editado em 2018, pouco antes das últimas eleições presidenciais, o manual proíbe que o profissional contratado pela emissora defenda ideologias e tome partido em "questões controversas e polêmicas que estão sendo cobertas jornalisticamente pelo Grupo Globo". 

Âncora que está afastado do Bom Dia Brasil por ter 67 anos e fazer parte do grupo de risco da Covid-19, Chico Pinheiro foi um dos jornalistas que fez posts contra o atual governo. Em 16 de maio, ele se referiu à sigla PF, de Polícia Federal, como Polícia dos Filhos. Dois dias antes, havia mencionado a reunião ministerial de Bolsonaro como "gabinete do ódio".

Em 12 de maio, ao compartilhar uma publicação do historiador Luiz Antonio Simas, que afirmou que "o presidente já defendeu assassinatos e é eugenista. Paremos de dizer que ele não sabe o que é a Covid-19", Pinheiro escreveu na legenda "necropolítica", que significa política da morte.

As normas sobre uso de redes sociais no Jornalismo da Globo receberam o apelido de "Lei Chico Pinheiro" nos corredores da emissora, conforme o Notícias da TV revelou em 2018. Em abril daquele ano, o âncora foi advertido pela direção após o vazamento de um áudio em que ele lamentava, em um grupo no WhatsApp, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No entanto, o comandante do Bom Dia Brasil não é o único que tem criticado o governo Bolsonaro nas redes sociais. Repórter do Fantástico, Sônia Bridi escreveu na quarta (17) que o presidente "não consegue governar porque não se dedica a isso".

Em 6 de junho, quando o Ministério da Saúde mudou a divulgação dos números sobre a Covid-19, a jornalista retuitou a publicação em que o cientista Stevens Rehen escreveu na legenda: "De [Adolf] Hitler a [Benito] Mussolini, os líderes fascistas sempre capitalizaram na mentira como base de seu poder e soberania popular". 

Chico Pinheiro e Sônia Bridi se manifestaram contra o governo Bolsonaro nas redes sociais

Após o governo começar a atrasar a divulgação de dados sobre a pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro ironizou durante uma coletiva de imprensa em 5 de junho: "Acabou matéria do Jornal Nacional". A Globo, então, passou a colocar plantões durante Fina Estampa para atualizar os números e soltou uma nota.

"O público saberá julgar se o governo agia certo antes ou se age certo agora. Saberá se age por motivação técnica, como alega, ou se age movido por propósitos que não pode confessar mais claramente. Os espectadores da Globo podem ter certeza de uma coisa: serão informados sobre os números tão logo sejam anunciados, porque o jornalismo da Globo corre sempre para atender o seu público", leu William Bonner no Jornal Nacional.

A linha editorial da Globo durante a pandemia fez com que Bolsonaro usasse redes sociais e coletivas de imprensa para atacar a emissora e seus jornalistas, principalmente Bonner e Renata Vasconcellos. O JN chegou até a ser apelidado de Jantar Nacional por críticos do presidente nas redes sociais, em referência às "lições de moral" que o político tem recebido no horário nobre.

Até por conta desse tom crítico do Grupo Globo em relação às ações do governo, os jornalistas da empresa estão mais à vontade na web para se posicionarem. Assim como Chico Pinheiro e Sônia Bridi, o repórter, comentarista, apresentador e recentemente alçado ao posto de âncora plantonista do JN, André Trigueiro, também já criticou o governo na web.

Em nota à reportagem, a emissora ressalta que não faz nenhum tipo de oposição, apenas jornalismo. Leia na íntegra: "A Globo não faz oposição a ninguém. Faz jornalismo, cobre os fatos. Demonstra isso na sua cobertura dos governos Lula, Dilma, Temer e, agora, Bolsonaro. O compromisso do jornalismo da Globo é com a notícia. E com seu público."

Princípios Editorias do Grupo Globo

O código, que tem como intenção evitar que determinados posicionamentos comprometam "a percepção de que o Grupo Globo é isento", vale para todos os jornalistas que trabalham na empresa, seja em TV, veículos impressos ou rádios.

Os comentaristas, analistas ou colunistas de opinião podem manifestar suas posições nas redes sociais, mas sem permitir "a percepção de que são militantes de causas e que fazem parte da luta político-partidária ou de ideias". Âncoras e repórteres "não devem nunca se pôr como parte do debate político e ideológico".

O manual não menciona punições, mas diz que a chefia direta na Redação é a responsável pela implementação das regras. "O Grupo Globo tem a compreensão de que, muitas vezes, o jornalista pode se sentir em dúvida sobre se um texto seu nas redes sociais resvala na tomada de posição, ferindo o princípio da isenção. A única solução é consultar a chefia."

Procurada, a Globo não se manifestou sobre o posicionamento dos funcionários. Leia aqui o trecho dos Princípios Editoriais que trata sobre as redes sociais. Confira abaixo os posts dos jornalistas:

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