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ENTREVISTA EXCLUSIVA

Atriz por acaso, brasileira Fernanda Andrade faz história na TV americana

Divulgação/Fox

Fernanda Andrade tem expressão de pesar. Ela é observada por John Slattery. Os dois estão em cena da série neXt

Fernanda Andrade é a protagonista da série de suspense neXt, disponível no Brasil pelo Star+

LUCIANO GUARALDO

luciano@noticiasdatv.com

Publicado em 17/10/2021 - 6h35

Nascida em São José dos Campos e criada em Campinas, no interior de São Paulo, Fernanda Andrade tem feito história na televisão norte-americana. Estrela de neXt (2020), suspense exibido pela rede Fox nos Estados Unidos, a atriz de 37 anos se tornou a primeira brasileira a protagonizar uma série na TV aberta no país em mais de 20 anos --o último tinha sido Daniel Benzali, astro de Murder One (1995-1997). Curiosamente, a atuação surgiu na vida da paulista por acaso --ela queria ser bailarina e só fez aulas de teatro para se expressar melhor durante as danças.

"Quando a professora de balé falou para a gente fazer essas aulas, achei um absurdo. Pensei: 'Que é isso? Falar no palco? Não se fala no palco, se dança! Não precisa falar, que coisa mais ordinária", conta Fernanda, aos risos, em bate-papo exclusivo com o Notícias da TV.

Logo no primeiro contato com a atuação, porém, a brasileira descobriu uma nova paixão. A bailarina saiu de cena para dar lugar a uma atriz que cravou seu espaço em Hollywood e engatou produções tanto no cinema, com o terror Filha do Mal (2012), quanto na TV --caso das séries Anjos Caídos (2006-2007), Here and Now (2018) e Narcos: México.

Em neXt, que chegou ao Brasil no fim de setembro como parte do catálogo do Star+, Fernanda interpreta Shea Salazar, uma agente do FBI que coordena um departamento de crimes cibernéticos. Além de enfrentar momentos difíceis na vida pessoal, ela também encara uma ameaça profissional: uma inteligência artificial capaz de se autoevoluir e que coloca em risco toda a humanidade.

A relação com a tecnologia na ficção fez a atriz repensar suas atitudes longe das câmeras também. "Eu nunca usei Siri [assistente virtual da Apple] nem Alexa [da Amazon], nunca gostei muito. Queria falar com alguém e sentia que era um relacionamento meio esquisito (risos)", diverte-se.

"Mas uso redes sociais, Instagram, telefone, como todo mundo... Essa dependência que a gente tem está em uma linha muito tênue entre conveniência e escravidão. [A tecnologia] Está ajudando mesmo? Ou está piorando a situação? Acho que neXt explora isso. A gente gravou tudo antes da pandemia e, quando assiste agora, vê uns paralelos que dão até arrepio." 

divulgação/abc family

Com Paul Wesley na série Anjos Caídos

Ao longo da conversa, Fernanda abre o jogo sobre o mercado para brasileiros em Hollywood, a relação dela com o país onde nasceu (pão de queijo é uma comida que não pode faltar em sua cozinha) e como a pandemia de Covid-19 a transformou por acaso em cantora de hardcore.

Ela também admite o sonho de atuar em projetos no Brasil, algo que não conseguiu conciliar com a carreira internacional até o momento. "Como meu pai fala, 'ainda não deu samba'. Mas tenho esperança, cheguei perto várias vezes, mas não rolou. Atuar em português seria uma experiência muito forte para mim, poder buscar minhas lembranças mais antigas e usar isso."

Em breve, Fernanda voltará aos cinemas com Die Like Lovers (Morram Como Amantes, em tradução literal), filme em que contracena com Bruce Willis e Nomzamo Mbatha (a Mirembe de Um Príncipe em Nova York 2). Ela também está envolvida em projeto supersecreto para o streaming, sobre o qual não pode dar mais detalhes: "Acho que me matariam", brinca.

Confira a entrevista com Fernanda Andrade:

Notícias da TV - Você se mudou para os Estados Unidos aos 11 anos, por causa do seu pai, que foi transferido para Miami. Quando a atuação surgiu na sua vida? Quando você falou: "Ok, acho que eu levo jeito, quero ser atriz"?
Fernanda Andrade - Ah, ainda estou vendo se levo jeito, né? (risos) Quando a gente chegou nos Estados Unidos, era uma época da minha vida em que eu estava muito apaixonada pelo balé. Eu cresci dançando balé, desde os quatro anos, e continuei quando a gente chegou na Flórida. Aí uma professora de balé falou para a gente fazer uma aula de teatro, para expressão, e eu achei um absurdo (risos). Pensei: "Que é isso? Falar no palco? Não se fala no palco, se dança. Não precisa falar, que coisa mais ordinária" (risos). Eu achei a ideia ridícula. Só que fui fazer uma aula e me apaixonei.

Sem querer, querendo, fiz uma aula de câmera, simplesmente escolhi uma aula, não sabia se era de teatro ou o que era, fiz a que coube nos meus horários que não estavam ocupados pelo balé. E era uma aula de atuação para a câmera. Fiquei apaixonada, na época, com meu cérebro de 11 anos, eu lembro que cheguei em casa e falei: "Pai, mãe, é como se fosse uma máquina da verdade", porque na câmera dava pra ver se a pessoa estava falando a verdade ou mentindo. Dali pra frente mudei o meu foco e fui tentar ser atriz. Não sabia nada, né? Balé era um pouco mais fácil, porque você faz aula, vai pro conservatório, faz os testes. Mas a atuação ninguém da família sabia como seria, foi uma aventura tentar e conseguir fazer alguma coisa.

Atuação tem muito disso, né? Você tem que conhecer as pessoas certas para que as portas se abram de alguma maneira. Ou você tem que procurar as pessoas certas para fazer contatos.
É uma coisa muito esquisita. Todo ator tem um mapa diferente. Eu sei que a vida de todo mundo é diferente em qualquer ramo, uma história única. Mas realmente vai ser difícil dar um mapa, "faz assim, faz assado". Porque umas coisas loucas acontecem, às vezes a gente ouve histórias do tipo: "Ah, eu estava comendo uma pizza e fui descoberta". E tem gente que fica fazendo teste durante 20 anos até conseguir algum trabalho. Tem todo tipo de história.

Eu comecei do zero, meu pai é engenheiro, minha mãe é professora, eles meio que me olharam torto quando eu disse que queria ser atriz. E falaram: "Não sei como a gente vai fazer isso". Mas a minha mãe procurou bastante, encontrou aulas, meu pai me apoiou no processo todo. Eu fui fuçando e fui continuando. Tem muitos momentos que você pensa: "Putz, como eu vou fazer isso? Será que eu continuo tentando?". Esses momentos acho que nunca acabam, mas eu pelo menos tenho que focar na confiança e na fé de que estou fazendo a coisa certa para mim.

Como neXt surgiu na sua vida? Foram muitos testes, um processo longo?
Aqui nos Estados Unidos eles têm uma coisa chamada pilot season, que é uma época que todas as grandes redes de TV fazem a seleção de elenco dos pilotos, as séries que talvez vão conseguir uma temporada na televisão. Normalmente eu me preparo bem porque é uma época meio intensa.

Nesse período, eu estava fazendo a pilot season mas também gravando Narcos: México, da Netflix, estava fazendo uns episódios dela. Então eu ia para a Cidade do México gravar e voltava para fazer teste... E eu lembro que recebi o roteiro do neXt e tinha acabado de fazer um teste final para outra série, que era de ficção científica e tinha elementos parecidos. Você faz as audições normais e depois tem o que eles chamam de teste final, aí você assina contrato. Eu estava numa situação em que eu queria fazer audição pra neXt, mas eu tinha feito o teste final pro outro projeto, então não podia. Fiquei pensando: "Putz, perdi a minha chance, será que vou fazer essa outra série?".

Aí a outra série não deu certo, minha equipe avisou os produtores que eu estava livre para fazer o teste, mas falaram: "Ah, não, agora a gente está vendo um pessoal mais velho". Pensei: "Putz, não vai funcionar isso". Voltei pro México, quando eu estava lá perguntaram se podiam fazer o teste comigo. Eles foram muito pacientes e gentis, esperaram um pouquinho até eu voltar e aí eu conheci todo mundo, o Manny [Soto], o John [Requa], o Glenn [Ficarra], o Charlie [Gogolak, todos produtores], e foi ótimo. Foi o único teste que eu fiz, e depois a gente gravou o piloto.

A série, para quem ainda não assistiu, fala de uma inteligência artificial que meio que se rebela e se torna uma ameaça para a humanidade. Como foi contracenar com um "inimigo invisível", vamos colocar assim?
Achei interessante, porque a maioria dos filmes e programas de TV que eu tinha visto de ficção científica era sempre em um futuro bem lá na frente. O roteiro era bem pé no chão, de coisas que acontecem ao meu redor agora. Eu abro o Instagram e aparece um anúncio de uma coisa que acabei de falar. Você vê que realmente está tudo integrado e que estão realmente usando a inteligência artificial, todos esses grandes nomes da tecnologia falam muito disso, que só falta tempo para ver quem vai fazer isso primeiro.

Então, o conceito foi legal, mas pessoalmente foi uma coisa muito interessante porque, de um jeito existencial e filosófico, todos os nossos monstros são meio que inventados, e os maiores monstros da minha vida foram invisíveis. Foi uma viagem bem pessoal para mim também, viver nessa história. E ao mesmo tempo tinha essa realidade de "poxa, será que isso vai mesmo acontecer?". A gente gravou tudo antes da pandemia, e quando você assiste agora, vê vários paralelos que dão uns arrepios mesmo, que a gente não sabia que ia rolar.

Gravar neXt fez você mudar sua relação com a tecnologia de alguma forma? A gente teve recentemente a pane no Facebook, WhatsApp, Instagram, e eu percebi o quanto eu sou dependentes dessas tecnologias. Passei o dia pensando: "O que eu vou fazer?".
Pois é (risos). Realmente me fez refletir bastante nessa época, porque eu estava lendo o que podia sobre o assunto, e estava mais atenta. Eu nunca tive nem Siri nem Alexa, nunca gostei muito, não sei por quê. Eu queria falar com alguém (risos), eu me sentia em um relacionamento meio esquisito, então para mim sempre foi meio distante. Mas essas coisas de Instagram, redes sociais, computador, telefone, eu sou que nem todo mundo. Quando caiu, eu estava com o meu marido e outras duas pessoas e, de repente, bateu um pânico instantâneo: "O que está acontecendo? O que a gente vai fazer?".

Essa dependência que a gente tem é uma linha tênue em que a gente balança de dependência e escravidão, ou de conveniência e escravidão. Está ajudando mesmo? Ou está piorando a situação? E acho que neXt explora isso. Tem uma realidade sobre esse tipo de tecnologia que é milagrosa, realmente ajuda muito os seres humanos, a questão da facilidade em todos os tipos de coisas. Mas também tem o outro lado, a gente vai ficando dependente... E aí? Será que a gente consegue andar sem? É uma coisa importante para perceber. Para mim, no começo, eu até coloquei um pedaço de papel para cobrir minha câmera do computador, mas depois tirei. Esse é o problema, a gente esquece, já está acostumado, vira um terceiro braço, a gente nem percebe a diferença. É uma evolução natural.

Antes de neXt você já tinha feito papéis de destaque em outras séries, outros filmes, como Filha do Mal (2012), Anjos Caídos (2006-2007). Mas protagonista tem um peso diferente. Mudou muito sua rotina de gravação? Era mais puxado, tinha muito mais cenas? Você percebeu esse peso?
Foi. Eu já sabia que ia ser assim. Mas estava muito animada para fazer. Eu já estava preparada, me sentia pronta para isso. Estava em quase todas as cenas, então foi uma coisa bem pesada, mas estava superfeliz. Foi engraçado porque a Shea está passando por uma fase muito difícil da vida dela, obviamente, quando você assiste à série você percebe. Ela já tem um trabalho que é desgastante emocionalmente, psicologicamente, de todos os jeitos. Ela tem essa vida profissional que escolheu para ela e é complicada, mas ela gosta, tem orgulho. Só que ela nunca poderia imaginar o que ia cair no colo dela, essa coisa do neXt.

Para mim, eu sabia que estava entrando não só numa agenda puxada de trabalho, mas também na mente dela, que era uma coisa bem mais séria e pesada. Para mim foi um sonho, eu queria e gostei, mas foi uma das primeiras vezes que cheguei em casa, tirei a maquiagem e fiquei feliz de não ter que passar por isso na minha vida real. Teve um dia que a gente fez uma leitura do roteiro, quando todo o elenco senta e lê o próximo episódio junto, e foi o único dia dos seis meses de trabalho que eu não gravava. Cheguei com minha roupa normal, meu cabelo normal, sentei para fazer a leitura, e o primeiro assistente de direção, que estava lá com a gente todo dia, ficava olhando, procurando alguém. Finalmente ele me olhou e falou: "Fernanda!". "Sou eu". "Nossa, eu nem te reconheci, você está tão feliz" (risos). "Pois é, eu estou muito feliz de viver a Shea, mas ela realmente não está numa época fácil da vida". Então deu para perceber a diferença.

Eu fiz uma pesquisa aqui e descobri que você é a primeira brasileira a protagonizar uma série de TV aberta nos Estados Unidos desde 1996, há mais de 20 anos não tinha ninguém nessa posição.
Nossa, eu não sabia disso. Obrigada por me contar!

A gente tem a Alice Braga, mas aí é TV paga, temos casos de streaming, como o Wagner Moura, mas na TV aberta você é a primeira protagonista. Tem coadjuvantes, claro, Bruno Campos, Sonia Braga... Como é essa responsabilidade de representar o seu país dessa maneira?
Eu fico sempre feliz. Dá aquele coisa de você se ver de fora do próprio corpo, né? Porque estou todo dia na mesma, faço teste, tento melhorar, crescer, evoluir como atriz. Quando pode dar um passo para trás e ter esse tipo de informação, penso: "Nossa, que legal!". O meu orgulho de ser brasileira é constante e eterno. Ao mesmo tempo que vem o meu carinho pelo Brasil, me dá uma saudade intensa, então qualquer chance que tenho de me sentir um pouco mais perto, de sentir que contribuí de alguma maneira, fico superfeliz.

Como é a sua relação com o Brasil? Quando a gente pode viajar e não tem uma pandemia, você vem visitar de vez em quando? Ou não dá nem tempo?
Não, eu vou. E é consciente, eu tento não ficar muito tempo sem ir. Quando eu cheguei nos Estados Unidos, a gente teve que esperar um pouquinho, não podia voltar porque estava no processo de pegar o visto de residência. Aí, quando a gente conseguiu, voltava todo ano pro Natal, para passar com os meus avós, com o resto da família. Quando eu terminei o colégio e fui para a faculdade, ficou mais difícil, mas eu sempre tentei não deixar passar três anos sem viajar. Tento visitar de dois em dois anos. Mas agora a última que eu fui foi 2018, faz tanto tempo. Eu estou esperando para voltar.

Eu nasci em São José dos Campos, mas cresci em Campinas, então durante muitos anos depois que me mudei pros Estados Unidos, a gente voltava todo ano e ficava em Campinas. E era uma delícia, eu via minha família, meus amigos... Mas aí comecei a perceber, quanto mais tempo passava nos Estados Unidos, que eu não conhecia o resto do Brasil, só aquele cantinho. Aí fiz uma promessa que, toda vez que visito o Brasil, vejo a minha família e depois faço uma aventura para algum canto do Brasil que eu não conheço ainda. Porque não tem igual. E cada canto é tão diferente.

Nessa última vez, em 2018, eu voltei para que meu marido conhecesse o resto da família, aí a gente foi pra Jericoacoara [no Ceará], porque eu queria que ele fosse pro Nordeste, e perguntei onde mais ele queria conhecer. "Quero ir pro Amazonas", aí fomos pra lá também. Foi muito especial para nós dois. Ele é músico, viaja o mundo inteiro, achei que fosse ser legal, interessante, mas normal para ele. Mas a gente estava no aeroporto voltando, e ele falou: "Esse é o primeiro lugar que eu visito e não quero ir embora".

Você está em Hollywood já tem um tempo, fez seu primeiro filme com 16 anos, com o Andy Garcia. Dá para perceber uma evolução em relação à aceitação de brasileiros na indústria? Tem um espaço hoje que não existia 20 anos atrás?
Eu vejo isso. Não só que está abrindo portas, mas que o pessoal está vendo a diferença pela primeira vez. Acho que a maioria das pessoas olha para mim e vê meu nome, Fernanda Andrade. Qualquer brasileiro sabe que Fernanda Andrade é um nome brasileiro, mas o resto do mundo fala "Ah, ela é latina". Que legal, eu também tenho orgulho de fazer parte dessa comunidade, mas pouca gente sabe qual é a diferença. O pessoal agora está mais alerta, entende as diferenças e também as semelhanças.

Eu vejo que as portas estão mais abertas, que o mundo está mudando, que as pessoas estão mais atentas a essas coisas, mas também não dá para não dar crédito para as pessoas que foram e abriram essas portas. Eu comecei criança, mas tenho muita admiração por Alice Braga, Wagner Moura, essas pessoas que vieram do Brasil já com uma carreira inteira que eles não tinham que deixar para trás, mas foram começar de novo porque queriam mais. Isso também colocou o brasileiro no mapa e abriu a mente das pessoas para terem interesse, perceberem a diferença. Fico feliz que tenha uma comunidade, mas continua sendo bem raro. E é tão gostoso quando a gente encontra alguém do Brasil e pode conversar em português.

Atuar no Brasil é uma vontade sua? Você gostaria de fazer coisas aqui, em português?
É um sonho. Estou sempre procurando, de vez em quando bate alguma coisa na porta, mas até hoje não deu para conciliar. Vamos ver. Como meu pai fala, "ainda não deu samba". Mas tenho esperança, tenho chegado perto várias vezes, mas não rolou. Estou sempre esperando a coisa certa, porque tem uma diferença também, atuar em português seria uma experiência muito forte.

O trabalho de atuação tem ligação com lembranças, coisas antigas, sentimentos profundos que estão guardados há muito tempo. Poder tirar de lá, do jeito certo, em português... Porque essas partes mais antigas e poderosas que a gente acumula quando é criança eu tenho que traduzir para atuar em inglês, seria uma coisa legal ver elas feitas do jeito que foram criadas.

Em Los Angeles você tem acesso fácil a coisas brasileiras? Filmes, séries? Chegam coisas aí que dê para assistir? Imagino que novela não tem como...
Tem lugares que você pode comprar a Globo Internacional. Eu não tenho em casa, mas meus pais tiveram durante muito tempo, e aí eu via quando ia visitá-los. Séries brasileiras? Só aquelas que chegam na HBO, na Netflix, mas é pouco ainda. Eu é que procuro, pergunto para minha família no Brasil, tenho que ficar de olho. Na parte cultural, tem uma área de Los Angeles em Culver City que tem um mercado brasileiro, aí você pode comprar pão de queijo, ovo de Páscoa. Nenhum outro país faz ovo de Páscoa enorme igual o Brasil (risos). Então eu vou até lá para comprar essas coisas.

A pandemia atrapalhou muito? Teve algum projeto que foi adiado ou que acabou cancelado de vez?
Eu não trabalhei durante quase um ano. Mas eu tive muita sorte porque a gente terminou de gravar neXt em março de 2020. Então voltei para casa, comemorei meu aniversário, eu lembro que o Josh [James], meu marido, me levou para Santa Barbara, para um lugar que não tinha nem wi-fi, a gente estava relaxando, quando voltamos para a cidade chegou um monte de notificações, de mensagens, de que o mundo estava acabando.

Foi um choque grande, mas tivemos a gratidão de ter finalizado a série, porque não foi assim para todo mundo, muita gente teve que parar a produção. E foi uma coisa boa, entre toda a tragédia, ter essa expectativa pela estreia da série, foi o que me carregou durante aqueles meses, me animar para ver como ficou o resultado. Isso foi positivo.

Depois de todo o tempo que ficou parado mesmo, voltou agora em um esquema bem diferente, antes os testes eram presenciais, agora é tudo aqui da minha casa, tenho até um cenário para fazer os testes (risos). O meu marido virou ator sem querer, faz todos os testes comigo. Eu tenho que me acostumar com esse novo ritmo, que o trabalho e o meu espaço privado agora se misturam, como separar depois de um jeito saudável?

Você falou que está usando o Josh como ator, mas ele também te usou para gravar um projeto musical juntos, né?
A gente fez um álbum demo, o Sorry Fern. Para quem não sabe, meu marido está numa banda chamada Stick To Your Guns, que é hardcore punk. Ele faz isso há 20 anos... E no meio da pandemia, quando a gente estava no lockdown, ele falou: "Fernanda, vem aqui". Ele estava no banheiro. Achei estranho, perguntei se estava tudo bem. "Pisa aqui dentro da banheira e grita essas coisas pra mim". "Mas eu não sei gritar". "Sabe sim, grita aí".

A gente fez para se divertir mesmo, porque estava sem nada para fazer. E acabou que essa primeira música ficou legal, a gente gravou mais cinco, ele decidiu colocar à venda. A gente fez umas camisetas, uns cassetes, vendeu tudo e doou, porque tem muita gente passando dificuldade até hoje em Los Angeles, então o dinheiro do Sorry Fern foi doado para entidades que estavam precisando, para ajudar o pessoal local numa situação mais difícil.

Isso foi bem legal também, nesses momentos de pandemia, em que todos nós queremos ajudar e não sabemos como, querendo participar mas estando tão isolados, esse foi o nosso jeito de participar. E foi bem bonito mesmo, não sabia se iam gostar ou comprar, mas esgotou no primeiro dia. Foi legal ver como a comunidade quer ajudar. E além de ajudar o pessoal gostou, o que foi uma surpresa pra mim.

Descobriu um lado cantora? Podemos ter mais Sorry Fern no futuro?
Não sei se pode me chamar de cantora, mas descobri um lado de berro (risos). Foi uma coisa boa para mim também, porque era um momento de frustração geral. Deu um alívio poder gritar e soltar isso de algum jeito... Sentimentos, frustrações e raivas reais que eu estava sentindo. Eu estava escrevendo de manhã, depois da minha meditação, eu escrevo às vezes. E o Josh perguntou: "Posso usar isso que você escreveu?". Deu certo e encapsulou aquele momento e aquele sentimento de frustração. Para mim, não foi tão diferente de atuar, no final.

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