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CANDOMBLÉ E UMBANDA

Nos Tempos do Imperador 'redime' Globo ao retratar religiões africanas

FOTOS: REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Dani Ornellas, caracterizada como Cândida, usa "pano de cabeça" e uma dezena de colares de contas em cena de Nos Tempos do Imperador

Cândida (Dani Ornellas) é a principal representante das religiões de matriz africana na novela

SABRINA CASTRO

sabrina@noticiasdatv.com

Publicado em 3/2/2022 - 6h45

Depois de cenas polêmicas em Da Cor do Pecado (2004) e Segundo Sol (2018), Nos Tempos do Imperador "redimiu" a Globo na hora de retratar as religiões de matriz africana. Os autores Alessandro Marson e Thereza Falcão consultaram especialistas para não alimentar violências contra o candomblé e a umbanda na novela das seis da Globo.

Com o auxílio dos líderes religiosos, os roteiristas puderam retratar bênçãos e rituais importantes na religião. Um exemplo é o axexê, quando os praticantes cantam e tocam os atabaques para que os ancestrais recebam os novos espíritos --caso de Abena (Mary Sheyla) e Baltazar (Alan Rocha) na novela.

"Eles [os roteiristas] foram muito felizes nesta cena. As pessoas do candomblé ficaram orgulhosas de ver aquele ritual, que é muito sério, em rede nacional", conta Rodney William, doutor em Ciências Sociais, babalorixá ("pai de santo") e um dos líderes religiosos consultados durante a escrita da trama.

reprodução/tv globo

Em cena noturna, moradores da Pequena África, vestidos de branco, batem em atabaques e cantam em Nos Tempos do Imperador

Ritual do axexê em Nos Tempos do Imperador 

Os elogios não se estendem a outras produções da emissora. Da Cor do Pecado, por exemplo, tratou a cultura religiosa como piada. Na trama, Tancinha (Vanessa Gerbelli) se oferecia para Helinho (Matheus Nachtergaele) quando era "possuída" pela pomba-gira. A felicidade do pai de santo ao lidar com a mulher sob a influência da entidade era a base do núcleo cômico.

Para William, zombar de uma religião de origem negra se enquadraria no conceito de "racismo recreativo". Nesse caso, o "humor" seria uma ferramenta para propagar ideais e termos racistas.

Já em Segundo Sol (2018), a vilã Laureta (Adriana Esteves) reforçou a "demonização" da religião ao bradar para que os orixás a ajudassem em uma de suas maldades. O doutor em Ciências Sociais critica a abordagem:

As religiões de matriz africanas são perseguidas, ainda hoje, porque são de origem negra. Eu digo que a demonização de Exu na verdade é a demonização das pessoas negras, que faz com que as políticas de encarceramento e morte sejam implementadas. Não só isso, mas também a falta de acesso de pessoas negras a instâncias de poder em uma sociedade que é fundada e estruturada na desigualdade.

Com a consultoria, os autores conseguiram construir Cândida (Dani Ornellas), líder espiritual da Pequena África, de maneira bem-sucedida. Na trama, para citar alguns exemplos, a ialorixá teve diversas visões, usou folhas para cuidar de feridos e consultou os orixás no casamento de Guebo (Maicon Rodrigues) e Justina (Cinnara Leal).

Confira alguns destes momentos sob a ótica de líderes da religião.

Visões certeiras

A intuição é parte importante tanto do candomblé, quando da umbanda. Sensações e sinais são considerados um saber e devem ser levados a sério.

Segundo Caroline Modolo, presidente da Associação Nacional das Religiões Afro-brasileiras, as visões podem se manifestar de duas maneiras: na vidência, as pessoas podem se comunicar com guias espirituais; na clarividência, acontecimentos no mundo material podem ser anunciados pelo médium.

A personagem Cândida se enquadraria no segundo conceito. Porém, mais do que isso, há uma representação histórica na mãe de santo. "As previsões que ela faz são parte da história de muitas ialorixás antigas que, com o olhar, já conseguiam definir o problema da pessoa e dar um encaminhamento", explica Rodney William.

Dentro das "premonições", há o jogo de búzios, também retratado na trama. Ele é o "grande oráculo" que orienta os praticantes da fé em todas as questões importantes, como caminhos profissionais, escolhas complicadas e resoluções pessoais.

Tratamentos com ervas

A maneira como Cândida usa as ervas com fins terapêuticos é outro ponto alto do folhetim. Primeiro, porque as folhas são parte fundamental das religiões de matriz africana. Segundo, pelo contexto histórico da época, em que a maioria das pessoas negras não tinha médicos à disposição. Assim, elas só podiam recorrer a seus líderes religiosos.

"Kò sí ewé, kò sí òrìsà", ditado iorubá de origem desconhecida, deixa claro: sem folha, não há orixá. As ervas são a base das religiões, promovendo, além dos efeitos terapêuticos, limpeza espiritual e equilíbrio energético. 

As folhas ainda ultrapassam religiões específicas. "Recorrer às ervas, aos chás, às folhas, para curar todos os males, não só do corpo, mas também do espírito, é algo que faz parte do povo brasileiro", ressalta o babalorixá.

Os povos indígenas são os principais responsáveis por essa herança. Mesmo historicamente, foram eles que mostraram as propriedades da vegetação nativa para os escravizados recém-chegados ao país.

Noz-de-cola antes do casamento

No casamento de Justina e Guebo, Cândida quebrou uma noz-de-cola ao meio para saber qual a opinião dos orixás sobre a união. Para isso, ela observaria o estado da parte interna do grão.

reprodução/tv globo

Maicon Rodrigues e Cinnara Leal, sorridentes, em cena de casamento em Nos Tempos do Imperador

Casamento de Guebo e Justina

O ritual é verdadeiro, mas sua interpretação não é tão simples. Os praticantes têm o costume de consultar energias e forças espirituais quando estão com dúvidas sobre alguma escolha. Porém, as entidades não interferem na vontade dos homens.

"Quando falamos sobre uma união de casamento, estamos falando de sentimentos terrenos. Estas são escolhas humanas, e não espirituais. Nesses casos, como em todas as outras religiões, existe a cerimônia religiosa, para que os orixás e as forças da natureza abençoem a união, mas nunca influenciar na decisão", explica Caroline.

Auxílio à princesa Isabel

Na ficção e na vida real, Isabel (1846-1921) --Giulia Gayoso na novela-- sofreu para dar um neto a dom Pedro 2º (1825-1891), personagem de Selton Mello. Ela recorreu a uma série de simpatias --inclusive obrigar o marido, Gastão (1842-1922), interpretado por Daniel Torres, a lambuzar o pênis com sebo de bode-- para tentar engravidar.

As "táticas" da princesa são reveladas no livro O Príncipe Maldito, da historiadora Mary del Priore. O título faz alusão a Pedro Augusto (1866-1934), primogênito de Leopoldina (1847-1871) --Bruna Griphao na novela--, que sonhava em um dia ocupar o trono do Brasil diante da falta de herdeiros da tia.

A monarca também recorreu ao chá de diversas plantas que ajudariam mulheres a engravidar --como erva de carrapato, figueira-do-inferno ou a sugestiva pombinha.

Por isso, não é difícil imaginar que ela tenha se consultado com alguma mãe ou pai de santo, embora não exista nenhum registro histórico. No folhetim, ela recorreu a Cândida mais de uma vez.

reprodução/tv globo

Giulia Gayoso, caracterizada como princesa Isabel, e Dani Ornellas, a Cândida, sentadas uma de frente para outra em cena de Nos Tempos do Imperador

Isabel se consulta com Cândida

A prática, afinal, é comum entre os poderosos. Um exemplo bastante conhecido é o de Hilária Batista de Almeida, a tia Ciata (1854-1924), que conseguiu para o marido um emprego público depois de curar o presidente Venceslau Brás (1868-1966) de uma ferida na perna.

O caso é famoso porque o tratamento favoreceu a criação do samba. Protegida do presidente, seu terreiro era o ambiente perfeito para que os primeiros nomes do gênero musical fugissem da prisão por vadiagem.

Rodney William ainda ressalta Getúlio Vargas (1882-1954), que tinha uma relação próxima com alguns terreiros da Bahia, e Juscelino Kubitschek (1902-1976), íntimo do babalorixá Joãozinho da Goméia (1914-1971). Para o pesquisador e outros estudiosos, até a decisão de onde seria a nova capital do país pode ter sido feita após uma consulta no jogo de búzios.

Liderança feminina

Dom Olu (Rogério Brito) pode até ser o rei da Pequena África, mas a liderança espiritual é, indiscutivelmente, de Cândida. O monarca faz alusão a dom Obá (1845-1890), ex-escravizado que se declarava neto legítimo do poderoso rei do Império de Oyó e, por isso, era reconhecido como príncipe. Já a ialorixá tem as próprias referências históricas, porque, na época, a mulher era a figura central nas religiões de matriz africana.

Na escravidão, o homem negro era a peça fundamental. Eles eram mais explorados em lavouras e trabalhos pesados. As mulheres, em sua maioria, trabalhavam na casa grande.

Para Rodney William, isso pode ter contribuído para que elas conseguissem a alforria mais rápido e em maior número que os homens. Assim, elas conseguiam empreender alguma atividade econômica e, a partir disso, comprar mais alforrias.

Quem tinha lembranças do estilo de vida africano formou comunidades para as alforriadas. Juntas, elas remontaram a religião, os costumes e a organização social de onde vieram seus ancestrais. Líderes das tradições, é natural que o sacerdócio tenha passado para as mãos femininas.

JOÃO MIGUEL júnior/tv GLOBO

Dani Ornellas, caracterizada como Cândida, sorri com longo vestido azul em ensaio fotográfico oficial de Nos Tempos do Imperador

Cândida é líder espiritual da Pequena África

Além disso, muitas das culturas africanas eram organizadas a partir da matrilinearidade --ou seja, com foco nas mães, e não nos pais. Na própria religião, as "grandes mães" --como Iemanjá e Oxum, principalmente-- têm papel fundamental nos cultos. Como afirma o estudioso:

O candomblé reproduz esse papel [de protagonismo] das mulheres porque reconhece o quanto elas são importantes na manutenção da vida, sobretudo das vidas negras, que foram ceifadas não só pela escravidão, mas que ainda seguem sendo exterminadas pelo racismo e pelas políticas de morte.

Mas e a intolerância religiosa?

O folhetim só se lembrou da existência da perseguição contra as religiões de matriz africana na última semana de exibição. Na cena em questão, Borges (Danilo Dal Farra) invade a casa de Cândida e apreende objetos religiosos --erro real das autoridades policiais do Rio de Janeiro, que perseguiram o culto nos séculos 19 e 20. A solução que os fiéis encontraram, na época, foi esconder suas práticas atrás dos santos e rituais católicos.

Até então, porém, não havia nenhuma menção à intolerância religiosa na novela. De certa forma, a escolha de tratar o tema sem grandes dramas pode ter sido estratégica. Em vez de abordar a religião como um conflito na história, aqui ela se trata apenas da fé dos praticantes, tão naturalizada quanto o catolicismo de Teresa Cristina (Leticia Sabatella).

Nesta abordagem, a novela serve como um balde de representatividade para os fiéis. "As cenas fazem com que tenhamos elementos para ilustrar de uma maneira mais bela e positiva toda a nossa tradição e nossa fé. Sobretudo mostrar que o nosso universo religioso sempre esteve presente na vida do povo preto, mesmo no período da escravidão", destaca o estudioso.

Ambientado entre 1856 e 1870, o folhetim de Alessandro Marson e Thereza Falcão ainda resgata o papel das religiões de matriz africana na preservação não só da cultura, mas das vidas negras.

"O candomblé, antes de tudo, é um quilombo. Foi uma forma de se aquilombar, de se organizar para sobreviver, e a ancestralidade fortalece a gente para nossa luta", finaliza William.

Nos Tempos do Imperador se debruça sobre parte do reinado de dom Pedro 2º, com ênfase na Guerra do Paraguai (1864-1870). A novela terminará no próximo sábado (5), dando lugar à exibição de Além da Ilusão.

Além de spoilers, o Notícias da TV também diariamente publica os resumos da novela das seis da Globo.


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