ERA WALCYR CARRASCO

Amor de Mãe precisa mudar, ou só estamos sendo idiotizados pelo horário nobre?

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Imagem de Adriana Esteves em cena de Amor de Mãe como Thelma

Adriana Esteves vive Thelma, uma mãe super protetora e uma das protagonistas de Amor de Mãe, o drama das nove

HENRIQUE HADDEFINIR - Publicado em 23/12/2019, às 05h16

Direção fria, densidade visual, escuridão, tragédias... Esses são alguns dos  apontamentos críticos feitos a Amor de Mãe, parte da campanha de rejeição à novela desde que ela estreou. A audiência em queda vai ao encontro do discurso pronto, transmitido no boca a boca e que faz parecer que a novela precisa se reajustar para "conquistar" a audiência.

Mas que audiência é essa? Vamos segregar, por um instante, esse conceito. Uma parte dela é a chamada "audiência esclarecida", aquela que lê artigos como esse na internet e acompanha tudo pelo Twitter. A outra parte é aquela que a própria audiência esclarecida chama de "povo do sofá", a maior parcela do público, formada por pessoas que julgam a novela simplesmente pelo que veem.

Em uníssono, a audiência esclarecida diz que o "povo do sofá" é que está rejeitando a trama de Manuela Dias, exigindo que ela se posicione em um outro tipo de norte, um que conhecemos muito bem, fortalecido por expressões como "alívio cômico" e "leveza". Ambas as parcelas de audiência só parecem concordar em um único ponto crítico perigoso: o critério.

Os dois últimos grandes sucessos do horário nobre foram O Outro Lado do Paraíso (2017) e A Dona do Pedaço (2019), ambas de Walcyr Carrasco, movidas por narrativas simplórias e didáticas. E não vamos esquecer: ambas extremamente violentas. Se tentarmos, por exemplo, esvaziar os dois títulos de seus "alívios cômicos", o que sobra?

Em O Outro Lado do Paraíso, a história passou pano para um homem que espancava mulheres e, entre outras coisas, a personagem de Marieta Severo tesourava pessoas à vontade. Os filtros de imagem eram escuros, para que o conceito da abertura da novela fosse respeitado e também porque falava da exploração de minas.

Já em A Dona do Pedaço, pistoleiros e outros tipos de assassinos comandavam a trama. A filha humilhava a mãe, transava com o padrasto e tentava matar com um picador de gelo. As imagens também eram escuras. O núcleo do Bixiga, por exemplo, era abafado e seco. Isso sem falar nas sequências de lutas de boxe, ou nas que correspondiam às torturas promovidas pelo ex-noivo da influenciadora digital.

E os alívios cômicos? Afinal, não eram eles que faziam o eficiente contraste? Na "Era Walcyr Carrasco" da televisão, os núcleos humorísticos ressuscitavam o velho humor de esquetes, típicos de programas ultrapassados como A Praça É Nossa e Zorra Total, em que uma mulher trai o marido com o entregador, o português é burro e enganado por todos à sua volta, ou uma anã e uma trans servem para não significar nada que não seja uma mera contemplação circense.

O humor, nesses tempos em que Carrasco virou referência, não é "alívio", é programação. O autor usa as esquetes idiotizadas como ferramenta, e o conteúdo violento é transmitido com eficiência, chegando inclusive ao perigo de ser naturalizado. De repente, bater, humilhar, roubar, trair ou fetichizar não é mais tão grave assim. Quem sabe não pode ser até engraçado?

Em Amor de Mãe, o que é violento é violento, o que é hediondo é hediondo e não temos um quadro pastelão no meio do contexto para tentar nos enganar com falsos estados de dormência. Os recursos de iluminação se correlacionam com as posições dos personagens nas decisões criativas. São Cristóvão é um bairro escuro, feio, abafado. E por que é menos digno de ser retratado com realismo?

A história é complexa? Sim. Ao contrário das obviedades vistas nos últimos anos, a novela acessa a teoria dos degraus de separação, revelada para o famoso mundo da dramaturgia por causa da série Lost (2004-2010). Segundo a teoria, todos estamos a seis graus de ligação com qualquer outra pessoa do planeta.

Os personagens e as histórias se cruzam, e é preciso ter atenção para montar o quebra-cabeça. Que ótimo, não estão subestimando o público. A boa sequência do jantar de Thelma (Adriana Esteves) com Lurdes (Regina Casé) é um exemplo de inteligência que não víamos mais no horário.

As duas marcam para os filhos se conhecerem, mas Danilo (Chay Suede) foge antes das convidadas chegarem. Quando Camila (Jéssica Ellen) percebe, também se recusa a ficar e vai embora. Ela e Danilo acabam se encontrando, por acaso, na balada. A teoria de que Danilo é filho de Lurdes, entretanto, não se altera, já que ele se envolve com a única filha dela que é adotada.

Apesar da direção cinematográfica, pouco usual para o horário, o que se vê ainda é uma novela. E ela se estrutura com coincidências, casais e vilanices como qualquer outra. Ainda há o otimismo dos novos encontros (o encontro de Lurdes e Raul no karaokê foi mágico), o humor involuntário das viradas da rotina e a expectativa das grandes transformações.

É difícil entender esse clamor por mudanças. É a esse tipo de recurso inteligente que deveríamos estar acostumados. Deveríamos cobrar que as novelas fossem como Amor de Mãe, e não que a fileira de comicidade imbecil continuasse em seu looping oportunista. Deveríamos clamar por humor natural, às vezes gargalhado e às vezes sutil, não por esquetes diárias baseadas em preconceito e humilhação.

Existem carrascos tentando nos reprogramar para nos conformarmos com o péssimo. No sofá ou na web, somos capazes de reconhecer e defender o melhor. No ar de segunda a sábado no horário das nove, Amor de Mãe é um produto que deveria ser festejado. Deveríamos lutar para que os grupos de discussão da Globo não mudem tudo. Deveríamos subir hashtags de celebração. #PreservemAmorDeMãe.

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