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COLUNA DE MÍDIA

Netflix encara polêmica LGBTQIA+ e o risco de criar 'algoritmo amoral'

Divulgação/Netflix

O comediante Dave Chappelle faz careta com o microfone na mão no especial de stand-up Encerramento, da Netflix

O comediante Dave Chappelle no especial de stand-up Encerramento, o último de sua carreira

GUILHERME RAVACHE

gravache@gmail.com

Publicado em 15/10/2021 - 20h21

As últimas semanas deveriam ser um marco positivo para a Netflix. A série sul-coreana Round 6 se tornou a produção mais assistida da história da plataforma, a empresa ganhou 44 Emmys, e a volta de sucessos como La Casa de Papel e The Witcher (em breve) prometem resultados financeiros ainda melhores.

O que ninguém esperava é que Ted Sarandos, co-CEO da Netflix desde o ano passado, quando passou a dividir a posição com Reed Hastings --o fundador da empresa-- se metesse em uma confusão tão grande.

Tudo começou em 5 de outubro, com o lançamento de especial de stand-up Encerramento, do comediante Dave Chappelle. O show era um dos mais aguardados do ano pela audiência norte-americana. Chappelle é uma figura polêmica e polarizadora. É seguido de perto por milhões de fãs e detratores. 

O especial é basicamente 72 minutos de ataques machistas contra a comunidade LGBTQIA+, particularmente pessoas trans. Logo após a estreia, as críticas começaram a crescer, e organizações e figuras públicas cobraram uma posição da Netflix.

Funcionários veem discurso de ódio

Jaclyn Moore, produtora executiva da série Cara Gente Branca, disse que não trabalharia mais com a Netflix "enquanto a plataforma continuasse a lançar e lucrar com conteúdo descaradamente e perigosamente transfóbico".

Três funcionários da Netflix, um deles uma mulher trans, também teriam "invadido" uma reunião virtual de executivos da empresa para protestar. Eles exigiam a saída de Encerramento da plataforma e alegavam que o conteúdo poderia causar danos reais. Os três foram suspensos brevemente, depois de a Netflix afirmar que não houve má-fé dos funcionários. Mas, para muitos, reverter a suspensão foi só mais uma tentativa de diminuir o dano à imagem.

Em resposta às críticas e pedidos para retirada do conteúdo da plataforma, Sarandos divulgou um comunicado em que defendia Chappelle. Em sua primeira resposta, o executivo enfatizou que, mesmo que "algumas pessoas achem a arte do stand-up algo mesquinho, nossos membros gostam dela". Para muitos, a declaração evidenciou que para Sarandos (e para a Netflix), os lucros vêm antes do respeito às minorias. Então, a polêmica esquentou.

Para tentar deixar mais clara sua posição, Sarandos divulgou um segundo comunicado, ampliando a defesa da decisão da Netflix e novamente afirmando o direito de Chappelle à "liberdade artística". Em ambos os textos, o executivo destaca que nem ele nem ninguém com poder de aprovação na Netflix acredita que o conteúdo do comediante sobre pessoas trans é "projetado para incitar o ódio ou a violência" --e mesmo que o fizesse, a violência na TV não necessariamente "se traduz em danos no mundo real". 

Segundo Caroline Framke, da Variety, "os memorandos de Sarandos fazem pouco para abordar a crítica real a Encerramento. Eles fornecem, no entanto, uma janela extraordinariamente direta de como o executivo que lidera uma das redes mais poderosas do mundo parece não entender o básico de como as pessoas podem ser influenciadas pela mídia".

Em uma rara repreensão pública, a comediante australiana Hannah Gadsby criticou Sarandos por ter usado seu nome para defender Chappelle. Hannah, que em 2017 lançou Nanette na Netflix e ganhou um Emmy, atacou Sarandos e a Netflix, à qual ela se referiu em uma postagem do Instagram como um "culto de algoritmo amoral".

Especial é ruim, mas as pessoas gostam

De acordo com o New York Times, uma discussão nesta semana em um quadro de mensagens interno da Netflix entre Reed Hastings, co-CEO e fundador da empresa, e funcionários sugere que há uma grande divisão interna na questão do especial de Chappelle. O chefão expressou suas opiniões sobre a liberdade de expressão e argumentou firmemente contra os detratores do comediante.

Ainda segundo o Times, um funcionário questionou se a Netflix estava "fazendo a escolha histórica errada em relação ao discurso de ódio". Em resposta, Hastings escreveu: "Para sua questão macro sobre estar do lado certo da história, sempre continuaremos a refletir sobre as tensões entre liberdade e segurança. Eu acredito que nosso compromisso com a expressão artística e agradar nossos membros é a escolha certa de longo prazo para a Netflix, e que estamos do lado certo, mas só o tempo dirá".

Aparentemente, a Netflix corre o risco de repetir o erro de outras gigantes de tecnologia. Munida de milhares de dados, ao priorizar a performance do algoritmo entregando o que os usuários querem ver, sem interferir no conteúdo, a empresa pode, mesmo que indiretamente, estimular o discurso de ódio e desinformação.

Lucro é a prioridade da empresa

À medida que a Netflix cresce e se torna um gigante de mídia (e cada vez mais tradicional), também mudam suas prioridades. A empresa agora prometeu que daria lucro aos acionistas, após uma década de prejuízos. Os filmes artísticos dão espaço para blockbusters de fórmulas repetidas amados pelo público, e os conteúdos mais polarizadores encontram uma audiência ávida por consumi-los.

Hastings acrescentou que Chappelle era muito popular entre os assinantes da Netflix, e citou a "aderência" de Encerramento com os usuários que fizeram uma boa avaliação no site de classificação de entretenimento Rotten Tomatoes. "A estratégia central", escreveu Hastings aos funcionários, "é agradar aos nossos membros".

Ou seja, a exemplo das redes sociais, a Netflix vive o dilema de "escolher" o que priorizar para atrair a audiência sem estimular o que há de pior em cada usuário, gerando mais polarização. 

Por pior que seja o show de Chappelle, agora que você leu este texto, aumentam as chances de você ficar curioso e ir assistir a Encerramento, o que gera um círculo vicioso. E se você falar mal dele nas redes sociais, ainda mais pessoas irão vê-lo. Do ponto de vista do algoritmo, o especial será um grande sucesso.

Comunicação ruim

Apesar dos méritos artísticos e tecnológicos da Netflix, a empresa não raramente tem dificuldades de se comunicar. Em sua ótima autobiografia, Hastings lembra que o maior erro da empresa foi lançar a Qwikster, separando o negócio de vídeo e DVDs: a Netflix seguiria com streaming, e a Qwikster com DVDs. Quem quisesse receber DVDs e também assistir ao streaming teria de pagar US$ 8 por cada serviço, um aumento expressivo de preço.

Nos meses seguintes, a Netflix perdeu milhões de assinantes, e as ações da empresa caíram mais de 75% na bolsa "Tudo o que construímos estava desabando por causa da minha má decisão", escreveu Hasting no livro. Meses depois, ele reverteu a decisão e fez um vídeo no YouTube se desculpando. No centro daquele problema, estava uma falha de comunicação com os consumidores. O streaming era o futuro, mas ninguém avisou os usuários.

Vale notar que diversos jornalistas reclamam da postura arrogante de equipes de comunicação da Netflix e do acesso limitado aos executivos da companhia. É como se a plataforma estivesse em um Olimpo, onde os demais mortais apenas observam seu brilhantismo. Em um recente vídeo, Sarandos afirmou que "não se preocupa com a concorrência". Aparentemente, no Olimpo do streaming, só existe a Netflix.

Mas a Netflix é uma potência e já se reinventou muitas vezes. Quando muitos diziam que a empresa estava perdendo a capacidade de produzir conteúdo engajador porque o crescimento de novos assinantes estagnou no segundo trimestre, veio Round 6. Apostar contra a Netflix significa que você tem boas chances de perder. Mas o futuro sucesso financeiro da plataforma, infelizmente, pode significar muitos novos produtos como Encerramento.

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