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PACTO BRUTAL

Como Daniella Perez foi vítima de machismo mesmo depois de morta

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

A atriz Daniella Perez de blusa vermelha, sorrindo, em cenário da novela De Corpo e Alma, na Globo

Daniella Perez (1970-1992) na novela De Corpo e Alma; atriz foi assassinada por colega de cena

FERNANDA LOPES

fernanda@noticiasdatv.com

Publicado em 22/7/2022 - 6h25

Daniella Perez (1970-1992) foi assassinada na noite de 28 de dezembro de 1992, com 18 punhaladas. Mesmo assim, houve tentativas de culpabilização dela, ou seja, de sugerir que, de alguma forma, ela havia merecido ou pelo menos facilitado a atrocidade que lhe havia acontecido. A série documental Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, que estreou nesta quinta (21) na HBO Max, expõe como a atriz foi vítima de machismo mesmo depois de morta.

O corpo de Daniela foi encontrado num matagal, na zona oeste do Rio de Janeiro. O carro de Guilherme de Pádua, que atuava com Daniela na novela De Corpo e Alma, foi visto no local --que, naquela época, ainda era pouco povoado. Horas depois, o ator já estava na delegacia e confessava a autoria do crime. 

A estratégia que ele usou para se defender foi totalmente de culpabilização da vítima. Pádua disse à polícia que Daniela estava lhe assediando, mas ele não queria nada com ela, pois era casado. Também afirmou que havia sido ela quem o levou para o matagal, e, em legítima defesa, ele deu os golpes mortais. 

"No julgamento, mostram as roupas da Daniella, você tem essa sensação real de 18 punhaladas, é uma coisa muito marcante. Como poderia ser uma legítima defesa e você dá 18 punhaladas numa pessoa?", questionou Guto Barra, diretor de Pacto Brutal, em entrevista ao Notícias da TV.

Luís Guilherme Vieira, advogado de Guilherme de Pádua, chegou a afirmar que Daniella vivia uma crise em seu casamento com o ator Raul Gazolla. "Ela disse que já estava com o casamento terminado, que o marido dela a havia agredido, e pediu a ele [o assassino] que a acompanhasse porque queria ter uma conversa. Isso de uma forma insistente", disse o advogado em depoimento veiculado na série documental.

Pádua não conseguiu manter seu depoimento com convicção --mudou a versão várias vezes-- nem oferecer provas nem convencer o júri do caso, mas a narrativa de culpabilização da vítima já estava criada. 

"Quando a vítima é a mulher, há sempre a história de que ela é ardilosa, levou o homem a fazer isso. Isso realmente é revoltante", falou Arthur Lavigne, advogado contratado pela família de Daniella justamente para defendê-la de acusações do tipo.

"A gente tem que parar de ficar questionando 'a mulher foi encontrada num matagal, o que ela foi fazer ali?'. Se um homem é encontrado num matagal, ninguém quer saber o que ele foi fazer ali. Acham que o pegaram e desovaram ali. A mulher, não", comentou Rodrigo Perez, irmão de Daniella.

"Como é uma mulher, as pessoas se dão o direito de perguntar 'mas o que ela estava fazendo nesse lugar escuro?', como se ela tivesse ido lá pelas próprias pernas, o que não aconteceu. Até nas pequenas coisa você vê essa tinta do patriarcado, do machismo, do julgamento, da impressão de que a mulher sempre tem algo a esconder", complementou Guto Barra.

O machismo além do julgamento

A implicação de Daniella como possível "culpada" de seu assassinato também foi explorada pela imprensa. Ela e Guilherme de Pádua interpretaram personagens que tiveram envolvimento amoroso na novela De Corpo e Alma (1992), e as revistas e jornais da época por muitas vezes insinuaram, após a morte dela, que havia algum envolvimento entre os dois além da trama e que o crime havia sido "passional" --expressão não mais utilizada, hoje substituída por feminicídio. 

"É uma coisa que ficou durante 30 anos. As pessoas ainda perguntavam quando a gente começou a fazer a série: 'Ela teve um caso com ele?'. Como se isso justificasse [o assassinato], que pergunta é essa? Primeiro que não. Fica provadíssimo no documentário, é comprovado nos autos do processo. Claro, era muito mais saboroso para a imprensa na época, que era uma imprensa muito mais sensacionalista, brincar em cima dessa coisa passional, de romance que não houve, porque isso vendia. Mas isso fica na cabeça das pessoas", acusou Tatiana Issa, diretora de Pacto Brutal.

Guilherme de Pádua e sua então mulher, Paula Thomaz, que também teve participação no crime, foram presos em 1993 e julgados. Houve até uma comissão de assuntos da mulher, chefiada pela então deputada estadual pelo Rio de Janeiro Aparecida Boaventura, que atuou para fiscalizar possíveis falhas no caso de Daniella. 

Os assassinos foram condenados por homicídio qualificado, com motivo torpe. A pena dele foi de 19 anos em regime fechado, a dela, de 15 anos. Mas ambos cumpriram bem menos tempo. Pádua saiu da cadeia por bom comportamento em outubro de 1999, assim como Paula.

Mesmo assim, os diretores do documentário acreditam que ainda hoje há batalhas na sociedade relativas ao crime sofrido por Daniella. Com o retrato da história dela, eles pretendem atentar para a cobertura danosa de parte da imprensa em relação às mulheres e para o machismo de forma geral na sociedade, problema que em casos extremos resulta em feminicídio.

"Acho que a gente tá amadurecendo, evoluindo. Há um longo caminho a percorrer, e é importante que a gente faça essa crítica [ao machismo] sem medo. A gente tem que alertar, tem que dizer, tem que mostrar. Essa história também passa por tudo isso. É muito duro para a gente constatar, e ao mesmo tempo é importante que a gente toque nessas feridas", disse Tatiana Issa. 

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez tem cinco episódios e está disponível para assinantes da HBO Max. 


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