MEMÓRIA DA TV

Falta de recursos e canais fora do ar: Como a pandemia afetaria a TV no passado

MOACYR DOS SANTOS/SBT

Gugu Liberato (1959-2019) e Silvio Santos durante o programa Roletrando em 1982

Gugu Liberato (1959-2019) e Silvio Santos em 1982; programas de auditório ficariam vazios com pandemia

THELL DE CASTRO - Publicado em 17/05/2020, às 05h24

Apesar de sofrerem consequências econômicas com a pandemia do novo coronavírus, que causam apreensão quanto ao futuro, as emissoras de televisão estão conseguindo manter suas programações no ar graças ao uso da internet e também lançando mão de reprises. Mas como seria o efeito se o surto ocorresse em outras décadas?

Nos anos 1950, quando surgiu a televisão no Brasil, provavelmente os poucos canais existentes, como TV Tupi, TV Paulista e TV Record, sairiam do ar. A programação era completamente feita ao vivo, já que ainda não existia o videoteipe; não havia abundância de filmes, séries e desenhos para exibição, e as condições técnicas para qualquer transmissão eram bastante precárias.

As grades, que já duravam poucas horas diariamente, fatalmente seriam paralisadas. Com os canais fora do ar, o desenvolvimento do veículo no país seria duramente afetado. 

Na década seguinte, já com a presença de canais como Globo, Excelsior e Band, o cenário mudaria um pouco, mas ainda sem grandes perspectivas. O videoteipe revolucionou a televisão --o primeiro programa brasileiro a contar com o recurso foi o humorístico Chico Anysio Show, mas ainda era muito caro e de difícil operação.

Sem imagens via satélite, que começaram a chegar ao Brasil apenas no final da década, e a um custo altíssimo, os noticiários sofreriam para manter a população informada. As reportagens, rodadas em filmes, eram complicadíssimas de serem feitas. As novelas, assim como agora, sairiam do ar, só que não existiriam opções para reprise. O jeito seria apelar para filmes, séries e desenhos importados. Haja Bonanza e Pica-Pau.

Nos anos 1970, já com a televisão em cores, uma pandemia poderia abreviar o fim da Tupi, que passava por grave crise financeira e foi extinta pelo governo em 1980. Com bala na agulha, a Globo provavelmente passaria ilesa, mas não existiriam as facilidades atuais, com transmissões de qualquer lugar.

Programas de auditório, como aqueles apresentados por Silvio Santos e Chacrinha, continuariam no ar através de reprises ou sem plateia, como o SBT vai fazer agora com o Programa do Ratinho, por exemplo. As novelas como Selva de Pedra e Pecado Capital seriam afetadas --isso aconteceria em qualquer década.

Nos anos 1980, a situação tecnológica das emissoras melhorou bastante. Sem Tupi e com a chegada do SBT e da Manchete, que poderiam ter suas estreias adiadas dependendo da época que acontecesse o surto, as condições de transmissões remotas ainda eram inexistentes.

Um mar de reprises assolaria a programação, mas os canais teriam diversas opções, com a Globo, por exemplo, já contando com um bom estoque de novelas e programas para exibir --a preservação de seu acervo, prejudicado por reutilização de fitas e incêndios, começou para valer a partir da metade da década anterior.

Na segunda metade dos anos 1990, o grande marco foi a chegada da internet. Mas ainda não existia a menor possibilidade de se transmitir de qualquer lugar, como fazemos hoje.

A Globo ensaiou colocar alguns vídeos em seu site no final da década, mas as conexões discadas eram extremamente lentas, e qualquer coisa que tivesse maior peso levava uma eternidade para ser carregada. Era necessário ter o kit multimídia nos computadores --aqueles conjuntos pré-históricos com caixas de som e microfone.

A situação das emissoras mudaria a partir da virada do século, quando as transmissões via internet foram popularizadas, principalmente após o advento dos smartphones, em 2007.

Mesmo assim, é curioso ver em uma produção de apenas nove anos atrás, como Fina Estampa, como eram os computadores utilizados e sites acessados para navegar na internet. O celular ainda tinha como prioridade as ligações, e qualquer coisa feita na internet era uma novidade --vide as obsoletas transmissões feitas por Vilma (Arlete Salles) e seu "modem express", o que chega a ser surreal nos dias atuais.


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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