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Segunda temporada de Sex Education é ainda mais comovente e sem-vergonha

DIVULGAÇÃO/NETFLIX

Imagem de Asa Butterfield e Gillian Anderson em cena de Sex Education

Otis (Asa Butterfield) e sua mãe Jean (Gillian Anderson) em cena da segunda temporada de Sex Education, série da Netflix

HENRIQUE HADDEFINIR - Publicado em 21/01/2020, às 05h12

A vida do jovem Otis (Asa Butterfield) é cercada de sexo e é daí que vem a sua nova fonte de renda. Ele dá conselhos aos alunos em troca de dinheiro, usando o que aprendeu a vida toda vendo a mãe clinicar. O problema é que protagonista tem 16 anos e essa idade é tomada de ebulição sexual, o que é suficiente para deixar tudo a um passo do caos.

Essa é a premissa de Sex Education, que chegou na Netflix no último dia 17 com uma segunda temporada que finalmente colocou os personagens no limite esperado para o calor de suas idades. Se no primeiro ano Otis conseguiu manter o controle da situação, dessa vez as coisas começam a enlouquecer, o que deixa a nova leva de episódios num ritmo alucinado de ações e reações.

Criada por Laurie Nunn, a série adolescente alcançou o posto de produção mais imprevisível e ousada dos últimos anos. Desde o término de Glee (2009-2015), o mundo teen voltou para a normatividade do gênero, com a Netflix, inclusive, lançando consecutivamente uma série de produções que numa análise atenciosa são inofensivas.

Se nos anos 1990 e início dos anos 2000 produções como Dawson’s Creek (1998-2003), The OC (2003-2007) e One Three Hill (2003-2012) ousavam em gotas homeopáticas para não assustarem as redes que as produziam, Glee foi a pioneira em falar de adolescência num nível de atrevimento quase inapropriado para a sociedade americana. A receita parecia exagerada, mas tinha a dinâmica de fantasia e realidade apropriada para provocar a audiência.

Sex Education vem das terras inglesas, onde My Mad Fat Diary (2013), por exemplo, já tinha provado ser possível falar de juventude sem alienismos. Enquanto a base de Glee estava apoiada num senso de surrealismo e absurdo --impulsionado pelos musicais, Sex Education troca isso pela metáfora do sexo. O resultado é tão divertido quanto realista.

Novidades

Depois de estabelecer os objetivos no primeiro ano, a criadora da série avança um pouco na destruição do auto-controle dos personagens. Há três narrativas centrais muito bem estabelecidas, mas as vidas de Eric (Ncuti Gatwa) e Maeve (Emma Mackey) já fazem parte de uma controvérsia social pré-estabelecida. Era natural que fosse o momento de revirar o mundo de Otis.

Namorando Ola (Patricia Allison), apaixonado por Maeve, com o pai da namorada se relacionando com sua própria mãe e a escola no meio de um surto histérico de falsa clamídia. É assim que Otis começa a temporada, mas é só o início da sucessão impressionante de erros e loucuras que ele comete, até que o último episódio chegue ao fim.

O amadurecimento do protagonista é um ponto-chave para a série, que avança nos questionamentos sobre sexualidade à medida que vai alcançando novos limites. Temos pouco do Otis terapeuta na temporada, já que Jean (Gillian Anderson) acaba ampliando o alcance de seus serviços.

Mas seus conselhos ainda abrangem todas as frentes, incluindo uma ótima visão do que é o fetiche e uma surpreendente aula de como fazer a "chuca" (o ato de lavar o reto antes do sexo). Para uma série adolescente, isso é um marco.

Tramas paralelas

Além de sua saudável abordagem sexual, os roteiros seguem tão divertidos e espertos que praticamente todas as interações funcionam. Aimee (Aimee Lou Wood) promove sequências difíceis e ao mesmo tempo comoventes, Jackson (Kedar Williams) se foca numa jornada pessoal e encontra em Viv (Chinenye Ezeudu) um incrível apoio. Isso sem falar em Lily (Tanya Reynolds), que se redescobre e ainda dirige a adaptação mais insana e imperdível de Romeu e Julieta.

Aproveitando que Glee foi citada, é impossível não relembrar a trajetória do valentão David Karofsky (Max Adler) impressa na história de Adam (Connor Swindells), que de uma maneira muito delicada e paciente foi reencontrando uma luz em meio a escuridão da própria personalidade.

Vale ressaltar, inclusive, que Connor fez um trabalho incrível ao construir as imensas emoções do personagem, sem que nenhuma delas pudesse emergir em abundância. Uma intepretação contida e hesitante, impecável. Foi muito bom também ver Gillian Anderson saindo da zona de conforto e tendo mais espaço com Jean. A parceria com a mãe de Adam foi uma grata surpresa.

Além de tudo, a chegada de George Robinson como o novo vizinho de Maeve representa uma outra porção de Glee que ficou como legado para as séries do futuro. Atores com deficiências podem e devem trabalhar, podendo contribuir muito para a visão artística de uma produção.

Com um movimento de conservadorismo crônico ameaçando as nações do planeta, produções como Sex Education provam que muitos dos nossos tabus precisam de naturalização. Esse é o objetivo da série: o sexo é natural e a sexualidade é um assunto que merece estudo livre e sensibilidade. Nesse processo, ela nos faz rir, chorar, desafiar e refletir. É uma segunda temporada para não esquecer nunca mais.


Este texto não reflete necessariamente a opinião do Notícias da TV

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