Audiências

DUELO DE REPRISES

Jesus humilha Satanás? Coisa-ruim faz messias de freguês na audiência da Record

REPRODUÇÃO/RECORD

O ator Dudu Azevedo caracterizado como Jesus ao lado de Mayana Moura, de Satanás, em cena de Jesus

O messias (Dudu Azevedo) é tentado por Satanás (Mayana Moura) no deserto em Jesus

DANIEL FARAD - Publicado em 29/06/2020, às 05h26

Anunciada há séculos pelas escrituras cristãs, a vitória do filho de Deus sobre o demônio aparentemente está longe de acontecer no horário nobre da Record. Um dos programas menos assistidos na faixa noturna, a reprise de Jesus (2018) se tornou dor de cabeça para a emissora e, frequentemente, dá menos audiência do que Apocalipse (2017).

Os problemas com o público eram esperados pelo canal, dado que as produções afugentaram até mesmo os telespectadores mais cativos das novelas bíblicas em suas exibições originais. Apesar dos números desanimadores, as tramas foram escolhidas para tapar o buraco deixado pela paralisação de Amor Sem Igual e o adiamento de Gênesis, atingidas pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

A história do messias interpretado por Dudu Azevedo voltou ao ar em 14 de abril e, uma semana depois, foi a vez do anticristo vivido por Sergio Marone dar as caras mais uma vez. Desde então, o coisa-ruim impõe uma série de derrotas ao seu principal adversário em quantidade de televisores ligados.

Os 15 capítulos mais recentes da saga do armagedom alcançaram, em média, 1 ponto a mais do que a narrativa assinada por Paula Richard. Ao total, são 14 vitórias e apenas um empate a favor de Satanás --na média geral, Jesus também leva a pior: 4,7 pontos contra 5,8 de Apocalipse.

Uma das maiores preocupações com Jesus, aliás, é que o folhetim derruba os índices assim que entra no ar na programação --logo na sequência de Apocalipse. Ou seja, os espectadores não são dispersos por um programa exibido no meio tempo, mas deliberadamente desligam o televisor ou trocam de canal. A explicação para o fenômeno, aliás, nem de perto é religiosa.

REPRODUÇÃO/RECORD

O falso profeta Stefânio (Flávio Galvão) e o anticristo Ricardo (Sergio Marone) em Apocalipse


Culpa dos jesuítas

Os mais fervorosos podem se atrapalhar ao creditar a diferença a mais um sinal dos tempos, em razão de o Anticristor desperta maior curiosidade nas pessoas do que o messias. A premissa não é verdadeira. As duas novelas são voltadas para o público cristão e ambas foram produzidas já com Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo, no comando da diretoria de Dramaturgia.

A pastora supervisiona não só os roteiros, figurinos e outros pequenos detalhes, como também direciona o andamento da trama para que sigam à risca os preceitos teológicos da Igreja Universal do Reino de Deus. Apesar de o diabo ser uma figura central, Apocalipse não pode ser tachada de "satânica" nem no mais mirabolante exercício de escolástica.

O principal problema é rompimento com a estrutura folhetinesca, já que o protagonista não possui um interesse amoroso. Canonicamente, Jesus não manteve qualquer tipo de relacionamento, e a novela desconsidera quaisquer textos apócrifos que apontam uma possível relação com Maria Madalena --a personagem de Day Mesquita, inclusive, se envolve com Petronius (Fernando Pavão).

A vida de Cristo também foi contada à exaustão por filmes, séries e especiais em diversas emissoras de TV, além de ser de amplo conhecimento da população brasileira --até mesmo de quem não segue uma religião cristã, já que a educação do país passou séculos nas mãos de clérigos jesuítas.

Nesse sentido, Apocalipse desperta a curiosidade das pessoas por ser baseado em um dos livros mais herméticos da Bíblia, pouco retratado pela televisão. O desconhecimento fica claro, por exemplo, diante da nuvem de gafanhotos que se aproximou do país nos últimos dias --o evento foi ligado erroneamente ao fim do mundo quando, na verdade, está mais próximo de um trecho do livro de Êxodo.

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