Análise

Com liderança ameaçada, Globo paga por erros de quem não sabe ousar

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Lázaro Ramos em Os Melhores Anos de Nossas Vidas: no dia errado, programa amarga terceiro lugar - Reprodução/TV Globo

Lázaro Ramos em Os Melhores Anos de Nossas Vidas: no dia errado, programa amarga terceiro lugar

DANIEL CASTRO - Publicado em 25/11/2018, às 14h23 - Atualizado em 26/11/2018, às 05h00

O susto que a Globo levou na última quinta-feira (22), quando nove de seus programas perderam para a Record e/ou para o SBT, é sintomático de uma emissora que se acomodou com a liderança e que não sabe (mais) ousar. Parte dos problemas são com seus produtos, como o Vídeo Show e a novela das seis, Espelho da Vida, mas erros de programação também têm grande responsabilidade no fiasco.

É um equívoco, por exemplo, programar um game show lúdico como Os Melhores Anos de Nossas Vidas após uma série tensa (Carcereiros). É difícil para o telespectador transitar do drama prisional para uma competição alto-astral. São programas para públicos diferentes. O de Carcereiros vai dormir quando a atração de Lázaro Ramos entra no ar. Resultado: Os Melhores Anos de Nossas Vidas em terceiro lugar no Ibope de São Paulo.

Como na TV americana, que não acha exagerado programar dois ou três dramas na sequência numa noite, Carcereiros faria melhor dupla com Sob Pressão, que, às terças, não combina com Amor e Sexo.

O game show educativo de Fernanda Lima sofre boicote da direita nas redes sociais, é verdade, mas teria melhor desempenho se fosse exibido depois de uma série cômica, não de um drama médico. Quanto a Os Melhores Anos de Nossas Vidas, como pontuou Maurício Stycer, crítico, do UOL, caberia melhor nas tardes de domingo.

Isso é erro de programação, inaceitável numa emissora com a estrutura e o nível de profissionalismo da Globo.

Na chamada "Era Boni", encerrada em 1998, a Globo arriscava muito mais. Poucos programas atravessavam décadas na grade, e somente aqueles que eram líderes absolutos. O Vídeo Show, criado sob o crivo de José Bonifácio de Oliveira, o Boni, está no ar há 35 anos. Passou os últimos cinco em crise, sofrendo para superar (ou perdendo mesmo para) um concorrente que não tem videotape, que faz fofoca numa bancada tradicional.

A derrocada do Vídeo Show começou no final de 2013, quando a Globo o transformou num talk show histérico apresentado por Zeca Camargo. Se era para mudar o programa, por que manter o nome?

A Globo pagou por errar na ousadia, por querer ser progressista sem deixar de ser conservadora. O público do Vídeo Show de bancada fugiu e gostou do que viu na Record, pobre no envelopamento, mas diversificado e franco. A emissora tentou voltar atrás. Até funcionou durante algum tempo com Monica Iozzi e Otaviano Costa. Mas, desde a metade deste ano, o Vídeo Show é freguês da Hora da Venenosa.

O Vídeo Show é hoje um dos maiores problemas da Globo. A rejeição ao produto compromete o Jornal Hoje, 47 anos, que vem antes, e os filmes da Sessão da Tarde, 44, que vêm depois. A sessão de filmes verpertinos, por sua vez, vem sendo programada com uma displicência de amadores (ou de arrogantes).

Tanto que a primeira coisa que a Globo mudou na última sexta (23), após assimilar o fracasso histórico da véspera, foi mudar toda a programação de longas desta semana. Ironicamente, agendou para esta segunda (26) uma película protagonizada por Fábio Porchat, contratado da Record até 31 de dezembro.

Um outro erro de programação, ou ousadia meia-boca, foi a inversão de horários, também há cinco anos, da Sessão da Tarde com o Vale a Pena Ver de Novo. Faz muito mais sentido uma transição natural de público entre o Vídeo Show e a reprise de novelas, como era até então, do que do Vídeo Show para comédias românticas ou aventuras para adolescentes, como atualmente.

Com o Vídeo Show enfraquecido, toda a programação que vem a seguir sofre para elevar a audiência para os padrões que a Globo estava acostumada. No final da tarde, mais dois problemas: Malhação e Espelho da Vida, tentativas de inovação que não estão dando certo.

A novelinha teen não agradou ao apostar em tramas que só duram 15 dias. O público estava acostumado a histórias longas, que duravam um ano inteiro. No novo formato, não há envolvimento emocional com os personagens, não há discussões nas escolas, não há casais a shippar.

Já a novela das seis é complexa demais para o horário, cerebral demais para um público que não quer pensar. Não é uma novela de época (que funciona bem às 18h) nem contemporânea. É uma metanovela. A mocinha fica viajando no tempo, e isso confunde o público.

É preciso ousar no conteúdo e na grade, sim, e isso é sempre um alto risco. Quando a inovação não funciona e a programação erra (não por ousadia), pode-se colocar em jogo a liderança. É o que está acontecendo na faixa das 14h às 19h atualmente. Nunca a Globo esteve tão ameaçada.

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