MEMÓRIA DA TV | COPA

Cachorrada e Silvio Santos na Globo: Como era a TV brasileira em anos de título?

Reprodução/TV Globo

Os cachorros da TV Colosso roubavam a cena na grade da Globo em 1994, ano do tetracampeonato - Reprodução/TV Globo

Os cachorros da TV Colosso roubavam a cena na grade da Globo em 1994, ano do tetracampeonato

THELL DE CASTRO - Publicado em 09/07/2018, às 05h43

Desde 1958, quando o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo, muita coisa mudou na TV. Para começar, a Globo só surgiria em 1965, quando a seleção já era bicampeã. E o Mundial passou a ser transmitido ao vivo apenas em 1970, ano do tricampeonato. Naquela época, Silvio Santos reinava na Globo, com um programa de mais de oito horas. Já em 1994, o sucesso estava nas mãos (ou patas) dos cachorros da TV Colosso.

Nas transmissões de 1958 e 1962, época em que a TV ainda era incipiente no Brasil, com poucos recursos técnicos e muitos programas ao vivo, era o rádio que mobilizava multidões com suas coberturas.

A Copa do Mundo de 1970, no México, foi a primeira a ser transmitida pela TV, ao vivo, via satélite, para praticamente todo o Brasil: 54 milhões de brasileiros puderam acompanhar as partidas. E, apesar de o Brasil ter recebido as imagens do Mundial coloridas, a TV da época ainda era em preto e branco e só poucos afortunados puderam ver a seleção se sagrar tricampeã em versão colorida.

De lá para cá, muita coisa evoluiu, a ponto de termos em 2018 uma transmissão dos jogos em 4K ou mesmo uma cobertura com olhar feminino do torneio. Para mostrar a evolução, o Notícias da TV relembra como era a programação de TV na época dos títulos brasileiros de 1970, 1994 e 2002. Infelizmente, a transmissão deste ano não entra na lista. Talvez no Qatar, em 2022? 

reprodução/memória globo

Silvio Santos comandava um programa de mais de oito horas em pleno domingo da Globo

1970: Silvio era rei e Jornal Nacional engatinhava
Poucos canais estavam no ar: em São Paulo, por exemplo, eram apenas Cultura, Tupi, Globo, Record, Excelsior, Gazeta e Bandeirantes. Durante a semana, a programação começava por volta das 12h e seguia até o início da madrugada.

Na Globo, o Jornal Nacional ainda não tinha nem um ano de vida _ele foi criado em setembro de 1969, e começava às 19h45, tendo apenas 15 minutos de duração. Estavam no ar as novelas Pigmalião 70 (19h), Véu de Noiva (20h) e Verão Vermelho (22h). Na época, não existia uma trama das seis.

A Tupi exibia A Gordinha, As Bruxas e E Nós Aonde Vamos, além de uma reprise de Nino, o Italianinho. Já a Record tinha As Pupilas do Senhor Reitor, enquanto a Excelsior, em seus últimos suspiros, exibia Mais Forte que o Ódio. Ou seja, todas investiam fortemente em folhetins, que até hoje dominam o horário nobre.

Naquela época, os domingos já tinham dono: o Programa Silvio Santos era exibido pela Globo, ao vivo, e durava mais de oito horas, começando pouco antes do meio-dia e seguindo até as 20h.

Consegue imaginar um fim de semana sem Fantástico? Pois é, a revista eletrônica semanal da Globo surgiria apenas em 1973. Durante a Copa de 1970, o horário era ocupado pela Buzina do Chacrinha, também com exibição ao vivo.

Os canais abusavam de séries enlatadas, a exemplo de Jeannie É um Gênio (Record), Agente 86 (Band) e Tarzan (Excelsior), além de filmes antigos. Quase todos recheavam o domingo com compactos de futebol no período noturno.

divulgação/tv globo

Giulia Gam e Edson Celulari em Fera Ferida, que teve o último capítulo reprisado no domingo

1994: reta final de novela foi atrapalhada pela Copa
A variedade de canais já era maior, principalmente por causa do UHF e da TV por assinatura, que ainda engatinhava, mas dava os primeiros grandes investimentos no Mundial _o Sportv, por exemplo, já tinha os direitos de transmissão da Copa. Entre as opções abertas, SBT e Manchete substituíram Tupi e Excelsior nos televisores.

Durante a Copa, a Globo exibia Tropicaliente (18h), A Viagem (19h) e a reta final de Fera Ferida (20h). O decisão do torneio, inclusive, prejudicou a novela com Edson Celulari e Giulia Gam, que teve seu último capítulo exibido excepcionalmente no sábado, 16 de julho, com reprise no domingo, após o Fantástico.

Além das novelas, a emissora contava com destaques como TV Colosso e Escolinha do Professor Raimundo, além do Vídeo Show, que já era diário. Aos domingos, Domingão do Faustão e Os Trapalhões faziam sucesso.

O SBT tinha pilares como Chaves, Chapolin e Programa Livre, com Serginho Groisman; a Casa da Angélica no período da tarde, e o Aqui Agora, pai dos atuais programas policiais, no início da noite. Durante a Copa, o Jô Soares Onze e Meia se mudou para os Estados Unidos, virando Jô na Copa. Silvio Santos ainda mandava no domingo, mas já o dividia com Gugu Liberato, dono do então novato Domingo Legal.

A Band era o canal do esporte e ficou quase que totalmente voltada para a Copa entre junho e julho, mas também exibia atrações que fugiam do futebol, como o Programa Silvia Poppovic e o game Supermarket.

A Record estava reconstruindo sua grade e não tinha grandes destaques. Já a Manchete vivia mais uma de suas crises financeiras e estava com a grade recheada de programas enlatados, de televendas e religiosos.

divulgação/tv globo

Pedro Bial apresentava o Big Brother Brasil, que teve duas temporadas exibidas em 2002

2002: Bial comandava a 'nave louca' do BBB
Além dos canais abertos já conhecidos (a RedeTV! entrou no lugar da Manchete em 1999), a TV paga cresceu absurdamente em relação a 1994 e contava com dezenas de canais, boa parte deles no ar até hoje.

A Globo exibiu a Copa com exclusividade na TV aberta, mas sua grade diária não foi prejudicada, já que o torneio aconteceu no Japão e na Coreia do Sul, com jogos nos períodos da madrugada e da manhã.

A programação da emissora mantém praticamente a mesma estrutura até hoje _uma exceção é a grade infantil na parte da manhã, extinta com a chegada de Fátima Bernardes. Mas Ana Maria Braga já abria as manhãs com o seu Mais Você.

As novelas da época eram Coração de Estudante (18h), Desejos de Mulher (19h) e Esperança (20h). Durante a Copa, estava no ar a segunda edição do Big Brother Brasil, com Pedro Bial, que havia exibido sua primeira temporada em janeiro.

O SBT também tinha seu reality, a Casa dos Artistas, que estava em sua terceira edição. O canal de Silvio Santos exibia ainda novelas como Salomé, Amigas e Rivais, Cúmplices de um Resgate e Marisol.

Ratinho comandava seu programa noturno diário e o De Frente com Gabi também era exibido todos os dias. O canal tinha um excelente pacote de filmes na época, além dos direitos de exibição de Os Simpsons.

Na Record, Eliana ainda fazia um programa voltado para crianças, o Eliana e Alegria. A novela Joana, a Virgem, o Jornal da Record (com Boris Casoy), o Cidade Alerta e o Programa Raul Gil eram os pilares da programação na época da Copa.

Sem o Mundial, a Band já não era mais chamada de canal do esporte. Na grade, além do Brasil Urgente, que havia surgido um ano antes, estavam no ar a primeira versão do Melhor da Tarde e o Sobcontrole, com Marcos Mion. A RedeTV!, por sua vez, exibia Betty, a Feia e tinha o Repórter Cidadão, entre outros programas.


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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