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30 Anos de Seinfeld

De racismo a homofobia: Como Seinfeld foi além do rótulo de comédia sobre nada

Imagens: Reprodução/NBC

Jerry Seinfeld e Jason Alexander em episódio de Seinfeld sobre homofobia; eles não formam um lindo casal? - Imagens: Reprodução/NBC

Jerry Seinfeld e Jason Alexander em episódio de Seinfeld sobre homofobia; eles não formam um lindo casal?

JOÃO DA PAZ

Publicado em 5/7/2019 - 5h08

Considerada a melhor comédia de todos os tempos, Seinfeld (1989-1998) ganhou a fama de dedicar episódios inteiros ao nada, eventos cotidianos como escolher qual é o melhor remédio para gripe ou uma saga para lembrar em qual vaga o carro de Kramer (Michael Richards) estava estacionado em um shopping center. Porém, entre os 180 episódios da série, espalhados em nove temporadas, temas como racismo e homofobia foram abordados --sempre de uma maneira peculiar.

Por ser uma comédia, Seinfeld não mergulhava muito a fundo em assuntos polêmicos e os tratava com sarcasmo e acidez, sem didatismo. De um jeito próprio, a atração conseguiu transmitir sua mensagem ao propor episódios com conteúdo espinhoso. Tanto que ganhou reconhecimento acadêmico e prêmios.

No aniversário de 30 anos da série, completados nesta sexta-feira (5), relembre cinco episódios nos quais Seinfeld foi além do rótulo de comédia sobre o nada. A série está disponível no Prime Video, o serviço de streaming da Amazon:

Lá atrás, a repórter Sharon (Paula Marshall) ouve papo e suspeita que Jerry e George são gays


Homofobia (17º episódio da quarta temporada)

Em 1993, a representação homossexual era escassa na TV e o tema era tabu --só quatro anos depois Ellen DeGeneres se assumiria lésbica em entrevista para Oprah Winfrey. Os roteiristas de Seinfeld queriam um episódio sobre gays, mas o comediante Jerry Seinfeld, protagonista e cocriador da atração, não aprovou a ideia original, que traria seu personagem discutindo com uma repórter e negando ser gay.

Jerry encontrou uma solução ao notar que um dos roteiristas falava constantemente "não há nada errado [em ser gay]". O humorista viu aí uma oportunidade para suavizar o tema, o episódio, intitulado de The Outing (que pode ser traduzido como A Saída do Armário) ganhou vida e a tal frase virou um bordão.

Sharon (Paula Marshall), a jornalista em questão, achava que Jerry e George Constanza (James Alexander) eram um casal. Eles negaram que eram homossexuais e a todo instante soltavam a frase "não há nada errado [em ser gay]", seguida por "eu tenho vários amigos gays".

A organização Glaad (sigla em iglês para Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação), que luta pelos direitos da sociedade LGBTQ+, deu um prêmio a esse episódio de Seinfeld.

Atenção: Por uma diferença de numeração dos episódios da quarta temporada no Prime Video, o capítulo aparece como o 16º no serviço de streaming.

Olha aí uma vaga livre livre dentro de um shopping center: estacionar ou não, eis a questão?


Vaga para deficientes (22º episódio da quarta temporada)

Seinfeld jogou luz em uma situação ardilosa, daquelas protagonizadas por gente que tenta bancar espertinha e estaciona o carro em uma vaga destinada a deficientes. Jerry e seus amigos foram até um shopping e entraram em um debate sobre onde parar o carro, no episódio chamado The Handicap Spot (A Vaga para Deficientes).

A conversa dos amigos representou o que ocorre com boa parte das pessoas ao se depararem com algo parecido. Elaine Benes (Julia Louis-Dreyfus), sempre politizada, foi contra a ideia de estacionar. Kramer argumentou a favor ao soltar uma pérola: "Os deficientes nem querem essas vagas, [eles] querem ser tratados como os outros".

Elaine foi voto vencido e o carro foi estacionado no lugar reservado. Acabou que uma deficiente precisou usar o espaço, teve de ir atrás de outro mais distante e se acidentou. Uma multidão cercou o carro do pai de George, pronta para linchar quem estacionou na vaga reservada para deficientes. Esse grupo, revoltado e consciente, se contrapôs a George e a Kramer, que não pensaram no próximo.

Atenção: Pela mesma diferença de numeração dos episódios da temporada no Prime Video, o capítulo aparece como o 21º no serviço de streaming.

Elaine (Julia Louis-Dreyfus) chora ao ouvir da boca do crush bonitão que ele é contra o aborto


Aborto (quinto episódio da sexta temporada)

Personagem que mudou a narrativa feminina nas séries de TV, Elaine foi um bastião do feminismo. Ela não media palavras para defender causas em prol das mulheres, e a série Seinfeld brincou com a atitude feroz da personagem em outro episódio meticulosamente bem trabalhado, chamado de The Couch (O Sofá).

Elaine defendia causas feministas com fervor, a ponto de causar um barraco e sair de um restaurante ao discutir com o chef, defensor do aborto. Na mesma semana, ela conheceu um cara lindo e encantador, uma paixão fulminante. Elaine adorou o novo crush e Jerry, ao ver tanta empolgação, lançou uma provocação para a amiga: "Você já perguntou se ele é a favor do aborto?".

Ela quis acreditar que sim, por motivos fúteis. "Ele é muito lindo", disse a Jerry. No próximo momento em que ficou a sós com o paquera, Elaine o instigou e caiu em prantos ao ouvir da boca do namoradinho que ele também era contra o aborto.

Após doparem uma mulher, Elaine, Jerry e George abusam dos brinquedos antigos da moça


Abuso contra mulher (sexto episódio da nona temporada)

Um dos episódios mais arriscados de Seinfeld foi o The Merv Griffin Show (O Show de Merv Griffin). A série fez uma analogia ousada com o date rape, termo em inglês usado para definir quando uma mulher é dopada para ser abusada sexualmente.

A saída pela tangente de Seinfeld foi falar desse assunto sem usar palavras específicas, como estupro. E o sexo foi trocado por brinquedos antigos, relíquias. Jerry namorava uma mulher que colecionava esses brinquedos, mas não deixava ninguém tocá-los. Para tanto, Jerry usou medicamentos para forçar a namorada a dormir. Dessa forma, ele ficou livre para brincar com os bonecos.

Nessa onda, embarcaram George e até a feminista Elaine, ironicamente, para brincar de cozinha. Os diálogos são bem sutis e provocaram um debate que infelizmente é comum até nos dias de hoje. Uma fala específica deixou claro o humor mordaz de Seinfeld: "Quer dizer que você drogou uma mulher para se aproveitar dos seus brinquedos?", perguntou Kramer para Jerry. Para bom entendedor...

Esse é Darryl (Samuel Bliss Cooper), com apê decorado por objetos vindos diretos da África


Racismo (15º episódio da nona temporada)

Assim como Friends (1994-2004), Seinfeld sofria críticas por não escalar atores negros para contracenarem com os protagonistas, em uma cidade cosmopolita como Nova York. Os roteiristas de Seinfeld acharam uma ideia genial, e a série expôs o desconforto de pessoas brancas da classe média ao lidarem com negros.

Em The Wizard (O Feiticeiro), Elaine namorava Darryl Nelson (Samuel Bliss Cooper), que era branco, mas ouvia hip-hop, tinha um nome comum na comunidade negra e um apartamento cheio de objetos decorativos oriundos da África. Ela adorava a ideia de estar em um relacionamento inter-racial, mas seus amigos sempre ficavam incomodados quando o namorado virava assunto em conversas.

A ironia do episódio é brilhante. Elaine e Darryl se gabavam que estavam em um relacionamento inter-racial. Mas tudo ruiu assim que ambos descobriram a verdade. Elaine ficou sabendo que Darryl era branco e Darryl ficou frustrado ao saber que Elaine não era de origem latina. Foi o fim do namoro, pois uma relação "normal" entre brancos não era suficientemente atraente para eles.

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