ANÁLISE

Coisa Mais Linda segue encantadora, mas perde o impacto da primeira temporada

REPRODUÇÃO/NETFLIX

Em cena de Coisa Mais Linda, as atrizes Maria Casadevall e Pathy de Jesus estão caracterizadas como as personagens Malu e Adélia

Malu (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy de Jesus) na segunda temporada de Coisa Mais Linda

RAPHAEL SCIRE - Publicado em 28/06/2020, às 07h09

Lançada em meio à quarentena, a segunda temporada de Coisa Mais Linda, da Netflix, é uma ótima opção em um período de quase escassez de novidades à disposição do público. A série de época continua extremamente atual, mas sua continuidade perdeu o impacto e a força da crítica social que deram gás à primeira parte da história. 

[Atenção: este texto contém spoilers]

De certa forma, o retrato da mulher feito em Coisa Mais Linda explica o Brasil de hoje. Racismo, machismo, moralismo, feminicídio são tópicos que ressoam agora da mesma maneira que na época em que a série é ambientada (1960). As premissas que eram o forte de Coisa Mais Linda continuam ali, mas menos impactantes, abrindo espaço para os dramas pessoais das protagonistas.

Aqui, cabe lamentar a saída de Fernanda Vasconcelos (Lígia) do quarteto central. Ainda que a morte da personagem tenha cumprido um papel dramático dentro da história, Lígia era simpática e crível, defendida brilhantemente por Fernanda, que se livrou de vez das mocinhas choronas das novelas.

A crítica social, desta vez, vem em segundo plano, em diálogos bem talhados e em situações sutis, como quando a menina Conceição (Sarah Vitória) ganha uma boneca branca da avó racista. A câmera em close no brinquedo passou o recado, sem necessidade de explicar o óbvio. 

Com um tom menos ácido, houve espaço para ampliar as histórias de Adélia (Pathy Dejesus), Malu (Maria Casadevall) e Thereza (Mel Lisboa). A curta duração --apenas seis episódios-- impossibilita aprofundar os grandes conflitos das três, resolvidos rapidamente demais: a doença de Adélia, a volta do ex-marido de Malu e a crise conjugal de Thereza.

Talvez por que elas passem por menos transformações ao longo da segunda temporada, a sensação que fica é a de que a série evolui pouco quando comparada com seu início, mais arrebatador. Ainda assim, o carisma das protagonistas encanta, bem como a ampliação da história de Ivone (Larissa Nunes).

E, se a direção de arte segue impecável, o mesmo não pode ser dito da preparação do elenco, única falha de Coisa Mais Linda. Faltou, sobretudo, um melhor trabalho de prosódia com os atores, que flertam mais com uma interpretação cinematográfica do que televisiva, embora a maioria seja advinda de novelas

O elenco, de forma geral, mantém o naturalismo, mas a questão do sotaque causa um certo incômodo --nesse quesito, uma boa inspiração pode ser Gustavo Machado, intérprete de Roberto, o personagem masculino mais convincente da história.

Já a estratégia do "quem matou?" final é uma maneira de lembrar a brasilidade da série. O gancho para uma continuidade da narrativa é um recurso fartamente explorado nas nossas telenovelas.

Usá-lo, portanto, poderia ser visto como uma falta de originalidade. Mas, neste caso, talvez tenha sido uma homenagem. Que a volta da série em uma eventual terceira temporada recupere o fôlego crítico do início, ainda mais agora, com o tempo narrativo se aproximando do período militar brasileiro. 


Este texto não reflete necessariamente a opinião do Notícias da TV.

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