A FORÇA DO QUERER

Para psicólogo, solução 'mágica' para drama de Ivana não faz jus à realidade

Bella Pinheiro/Gshow

Ivana (Carol Duarte) vai descobrir que é transgênero depois de conhecer Te (Tarso Brant) - Bella Pinheiro/Gshow

Ivana (Carol Duarte) vai descobrir que é transgênero depois de conhecer Te (Tarso Brant)

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 29/07/2017, às 08h14

Desde sua primeira aparição em A Força do Querer, Ivana (Carol Duarte) tem sofrido por não se identificar com o próprio corpo. O drama da jogadora de vôlei finalmente chegou ao fim no capítulo 100, exibido na quinta-feira (27). A filha de Joyce (Maria Fernanda Cândido) conheceu o transgênero Tereza (Tarso Brant, modelo que inspirou Gloria Perez a criar a personagem) e, ao ouvir sua história, entendeu que passa pela mesma situação.

A solução "mágica" para todo o conflito construído ao longo de quatro meses divide os profissionais que trabalham com pacientes transgêneros. Para o médico e psicólogo Roberto Debski, por exemplo, a percepção rápida proposta pela novela foi fácil demais para fazer jus à realidade.

"O processo de autoaceitação é muito mais complexo. Os transgêneros não se posicionaram socialmente, têm muita dificuldade de se aceitarem. E, mesmo depois que isso ocorre, ainda há muita dor", diz ele, que faz uma ressalva ao apontar o bom trabalho feito pela autora Gloria Perez com Ivana. "A negação, a rejeição e a inadequação que o trans sente em seu corpo estão muito bem representadas."

Já a psicóloga e pedagoga Melcina Moreno, que atendeu mais de 50 pacientes transgêneros ao longo da carreira, defende que, embora a assimilação de Ivana tenha sido mesmo rápida, segue uma liberdade artística adequada para uma novela, o que não compromete o tratamento do assunto até o momento.

"A Gloria tem sido absolutamente cautelosa e didática em sua abordagem. É claro que a virada dessa 'chavinha' não é tão mágica assim. O cérebro é todo codificado e, no momento que faz a sinapse adequada, ocorre uma explosão pirotécnica, a pessoa pensa: 'Caramba, é isso!'. Mas, para isso acontecer, ela precisa de uma série de informações prévias, que a Ivana ainda não tem", explica.

Depois de conhecer Tereza e saber mais sobre sua história, Ivana passa a buscar mais informações sobre transgêneros na internet e finalmente consegue entender os motivos pelos quais não aceita o próprio corpo. Segundo Melcina, não há uma idade certa para que esse entendimento aconteça.

A psicóloga Melcina Moreno, que já atendeu mais de 50 pacientes transgêneros (Foto: Divulgação)

"Eu recentemente tive uma cliente de 54 anos que se descobriu transgênero. Ela achava que era homossexual, mas não era, tinha nascido no corpo errado. Mas também já cuidei de crianças, adolescentes, jovens adultos... O certo é que, quanto mais cedo ocorre essa percepção, menor será o sofrimento", conta a psicóloga.

Com a experiência de quem já atendeu muitas pessoas que passaram pelo reposicionamento de gênero, Melcina diz que é pouco comum que os trans também sejam homossexuais _ou seja, que após a redesignação genital, se descubram apaixonados por uma pessoa do mesmo sexo. Seria o caso de Ivana caso ela mantenha seu relacionamento com Cláudio (Gabriel Stauffer).

"Na verdade, eu acho que não podemos falar que ela está apaixonada pelo rapaz. Acredito que ela enxergue nele tudo o que gostaria de ser. O Cláudio joga vôlei como ela, é divertido como ela, mas é homem. Então, acho que seria uma admiração, não paixão", aposta Melcina, explicando que o mais comum seria o caso de Thammy Miranda, que passou para o gênero masculino mas se relaciona com mulheres. É a situação vivida pelo próprio Tarso Brant.

A especialista ressalta, no entanto, que identidade de gênero e desejo são coisas diferentes. Assim, mesmo que incomum, Ivana poderia ser um transgênero homossexual: "Ela nasceu no corpo errado, isso não influencia na orientação sexual".

Apesar das opiniões divergentes, os psicólogos concordam que A Força do Querer tem exercido um papel importante ao trazer à tona um tema que era tabu. "Como não é um assunto muito falado, eu vejo muitas pessoas que não entendem o que se passa com elas e têm muita angústia, muita ansiedade", diz Debski.

"Era um tema do qual todo mundo tinha medo, que ficava escondido sob o véu da 'pouca vergonha'. Agora, a questão trans está vindo mais à tona. Vejo muita gente idosa que está se reconhecendo como trans, isso é muito positivo", valoriza Melcina.


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