ANÁLISE

Preguiçosa, morte do Vídeo Show mostra descaso da Globo com sua história

Fotos: Reprodução/TV Globo

Miguel Falabella, apresentador mais duradouro do Vídeo Show, no programa de quarta-feira (9) - Fotos: Reprodução/TV Globo

Miguel Falabella, apresentador mais duradouro do Vídeo Show, no programa de quarta-feira (9)

LUCIANO GUARALDO - Publicado em 11/01/2019, às 15h11

Um dos dez programas mais antigos da Globo, há quase 36 anos no ar, o Vídeo Show merecia um fim mais digno do que a despedida preguiçosa que recebeu nesta sexta-feira (11). Com quadros que nada remeteram à força da atração, o episódio derradeiro pouco fez para honrar a sua trajetória. Transformou o vespertino em um mero rodapé na história da emissora. Não há baixa audiência ou vice-liderança que justifique tamanho descaso.

Além do clipe de dois minutos que encerrou a atração, com os melhores momentos do programa, o mais perto de uma homenagem foi a retomada da música-tema, uma versão instrumental de Don't Stop 'Til You Get Enough, de Michael Jackson, e a leitura de postagens que ex-apresentadores e atores (como Nathalia Dill e Rainer Cadete) fizeram nas redes sociais. Um erro: a emissora usou imagens do Instagram para recuperar um conteúdo que seu próprio acervo teria disponível.

No conteúdo, nada fora do normal. A primeira matéria mostrou uma invasão da repórter Mônica Salgado à casa de André Marques, que apresentou o Vídeo Show entre 2002 e 2013. Foi a deixa para reexibirem um quadro de 2013 em que o eterno Mocotó e Angélica refizeram a abertura de Brega & Chique (1987). 

O programa também promoveu um reencontro entre Klara Castanho e o argentino Mario José Paz, que formaram uma dobradinha de sucesso em Viver a Vida (2009) na pele de Rafaela e Maradona. Já de Caminho das Índias (2009) foram resgatados os ex-atores mirins Karina Ferrari, Laura Barreto e Cadu Paschoal. Houve ainda uma reportagem com Caetano Veloso e seus filhos músicos.

Matheus Massafera recebeu em seu quadro de intimidades a atriz Regiane Alves, no ar em O Tempo Não Para. E Felipe Titto cozinhou com David Júnior, da mesma novela. E Márvio Lúcio, o Carioca, recebeu Micael Borges, também da trama das sete, no Vídeo Fake. Coisas bem triviais, um programa igual a todos os outros.

Deu a impressão de que a equipe apenas aproveitou material de gaveta, que já estava finalizado e pronto para ir ao ar, para preencher a última edição da atração. Um desrespeito aos seus telespectadores ao longo dos anos.

Para o público offline, que não acompanhou o anúncio sobre o cancelamento do programa na terça (8), a notícia já havia sido dada de maneira peculiar no dia seguinte. "Ó pessoal, vocês já sabem que o programa vai terminar agora sexta-feira, mas hoje a gente tem um programa muito bacana, amanhã e sexta também", soltou o apresentador Joaquim Lopes ao abrir a edição de quarta (9). 

Joaquim Lopes e Sophia Abrahão dançaram música de Michael Jackson que marcou atração

Em um mundo ideal, o Vídeo Show deveria ficar no ar até o fim do Big Brother Brasil. Afinal, o vespertino crescia na audiência no início do ano, quando repercutia os últimos acontecimentos do reality e recebia os participantes eliminados. Quem vai fazer isso agora? Em uma provocação do diretor J.B. de Oliveira, o Boninho, a tarefa ficará a cargo do Fantástico --ele, obviamente, não estava falando sério.

Além disso, como a atração tinha como ponto alto justamente o fato de recuperar vídeos de arquivo da Globo, o Vídeo Show sair do ar sem uma retrospectiva de seus melhores momentos é quase uma heresia.

Se tivesse mais tempo para preparar o adeus, sua equipe poderia fazer uma seleção dos erros mais divertidos do Falha Nossa, ou buscar depoimentos dos vários apresentadores que passaram por sua bancada.

Nada disso aconteceu. O programa saiu do ar sem nenhuma festa, sem homenagens a nomes como Miguel Falabella ou Cissa Guimarães, sem um Túnel do Tempo focado nas lembranças do próprio Vídeo Show.

É um desfecho bem diferente do recebido por outros programas que fizeram história na Globo. A Grande Família (2001-2014), por exemplo, teve sua última temporada anunciada um ano antes --dessa forma, os roteiristas tiveram tempo de preparar algo especial para cada episódio da família Silva. No capítulo derradeiro, atores famosos surgiram para interpretar cada personagem em uma série dentro da série.

Lançado em 2009, o Amor & Sexo também ganhou uma retrospectiva no último episódio de 2017. Fernanda Lima reviu seus momentos mais marcantes e apresentou vídeos de todos os integrantes da bancada, e se despediu do público em alta. E esse acabou nem sendo o fim da atração, renovada para a temporada 2018.

É duro de engolir que um programa que completaria 36 anos em março saia do ar sem uma celebração de sua história, ou que seja menos ovacionado do que uma atração recente (embora importante) como o Amor & Sexo.

O Vídeo Show, afinal, é uma grife da Globo. Está mais próximo de marcas históricas como Jornal Nacional e Fantástico do que de fracassos que a emissora prefere esquecer, como Divertics (2013-2014) e Tomara que Caia (2015).

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