Sob Pressão

Jornalismo da Globo tem onda inédita de crises de estresse, depressão e infarto

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Izabella Camargo no Hora 1 de 14 de agosto, quando a jornalista teve um apagão no ar - Reprodução/GloboNews

Izabella Camargo no Hora 1 de 14 de agosto, quando a jornalista teve um apagão no ar

DANIEL CASTRO - Publicado em 12/11/2018, às 05h54

O afastamento de quase três meses da apresentadora Izabella Camargo, demitida na semana passada, foi apenas o caso mais rumoroso de uma onda inédita de problemas de saúde relacionados ao trabalho que vem acometendo profissionais da Globo em São Paulo. Neste ano, pelo menos cinco jornalistas e três cinegrafistas foram temporariamente afastados por estresse e depressão. Outros quatro funcionários foram internados após sofrerem AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou princípio de infarto.

Um caso parecido com o de Izabella, que chegou a ter taquicardia e apagões no ar, foi o de uma outra repórter. Ela ficou um mês afastada para tratar de síndrome de burnout, mesmo diagnóstico da ex-apresentadora do tempo dos telejornais matinais.

Um veterano jornalista, que aparece quase diariamente no Jornal Nacional, sofreu colapso nervoso às vésperas de sair de férias, na metade do ano. Um repórter se afastou por estresse e teve de trocar de telejornal (e de chefia). Outro profissional conhecido nacionalmente, muito elogiado por William Bonner, com sintomas de depressão.

Na GloboNews, canal de TV por assinatura integrado ao departamento de Jornalismo, as maiores vítimas são os operadores de câmera. Um deles surtou enquanto trabalhava. Teve ataque de pânico e de ansiedade. Um cinegrafista e dois auxiliares de câmera sofreram AVC. Um quarto profissional permaneceu quatro dias internado após enfrentar um princípio de infarto.

Os jornalistas da Globo atribuem os afastamentos e internações à pressão, insegurança e frustração no ambiente de trabalho. Muitos não veem perspectiva de crescimento profissional e têm medo do futuro da empresa e da profissão, que estão mudando muito rapidamente.

Entre os repórteres, há a cobrança por informações exclusivas, a competição por espaço nos telejornais e a falta de estímulo por parte da chefia. Os profissionais mais juniores, que vão para a rua, quase nunca têm direito de escolher a pauta e só falam no ar o texto que os editores mandam. As mulheres sofrem mais do que os homens: não podem engordar nem descuidar dos cabelos.

Diferentemente de Izabella, nenhum dos demais profissionais afastados ou que sofreram colapsos foram demitidos pela Globo. A moça do tempo saiu de licença na metade de agosto e foi dispensada pela diretora de Jornalismo de São Paulo, Cristina Piasentini, ao voltar ao trabalho na segunda-feira (5) passada.

O Notícias da TV apurou que Izabella foi demitida porque teve problemas com a chefia. A emissora não gostou de vê-la escancarar nas redes sociais que estava de licença por causa de uma doença funcional e passou a suspeitar de que a jornalista se afastou mais tempo do que precisava, que já dissera publicamente que estava bem e até participou de evento. Deduziram que Izabella teria usado o afastamento para forçar uma mudança de horário.

A jornalista de 37 anos nega qualquer conflito ou indisposição para o trabalho. Relata que foi diagnosticada com a síndrome de burnout em meados de 2017. Seus médicos associaram a doença ao fato de ter passado a maior parte de seus seis anos de Globo trabalhando durante a madrugada. Izabella chegava na emissora às 3h e fazia três telejornais (Hora 1, GloboNews Em Ponto e Bom Dia Brasil).

"O turno da madrugada vai te dando um déficit celular. Trabalhar em horário especial descompensa os órgãos", disse ao Notícias da TV.

A síndrome de burnout é o desgaste emocional que danifica aspectos físicos e psíquicos da pessoa, reduzindo a naturalidade e a velocidade com que ela realiza suas tarefas.

Os sintomas são fadiga, cansaço constante, distúrbios do sono, dores musculares e de cabeça, irritabilidade, alterações de humor e de memória, dificuldade de concentração, falta de apetite, depressão e perda de iniciativa. Nos casos mais graves, pode levar ao consumo de álcool e drogas e até ao suicídio.

Aconselhada por médicos, Izabella diz que pediu a seus chefes na Globo para que pudesse fazer "trocas intertemporais", ou seja, mudar de turno durante alguns meses, como forma de amenizar os efeitos da síndrome. Mas não foi atendida.

Procurada, a Comunicação da Globo emitiu a seguinte nota sobre o caso Izabella: "A própria Izabella Camargo diz, em vídeo publicado em seu Instagram, que está bem de voz e corpo e que 'está tudo certo'. O motivo pelo qual deixou de trabalhar na TV Globo não guarda nenhuma relação com a licença médica que tirou, mas a emissora não trata em público de suas relações com funcionários ou ex-funcionários. A Globo é reconhecida por todos como uma empresa que zela por seus funcionários, dando todo o apoio possível. Como já dissemos antes, a Globo agradece a Izabella pelos anos de convivência, dedicação e profissionalismo".

Sobre os demais casos de afastamento por estresse e depressão e internações, a emissora disse que "os números citados não estão corretos e a Globo, por uma questão ética, não dá detalhes sobre casos de saúde de seus funcionários. Como já dissemos anteriormente, a Globo é reconhecida por todos como uma empresa que zela por seus funcionários, dando todo o apoio possível."

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