Memória da TV

Há 22 anos, Globo planejava diminuir drasticamente a duração das novelas

Divulgação/Globo

Os atores Patrícia Pillar e Antonio Fagundes durante gravações de O Rei do Gado (1996) - Divulgação/Globo

Os atores Patrícia Pillar e Antonio Fagundes durante gravações de O Rei do Gado (1996)

THELL DE CASTRO - Publicado em 13/05/2018, às 06h52

Há muito tempo se fala sobre a duração das novelas da Globo, principalmente na era da internet, em que tudo é consumido rapidamente e em maratonas. Em 1996, parecia que os novelões estavam com os dias contados, já que a emissora queria diminuir drasticamente o número de episódios. Mas a ideia não foi para a frente e muitas tramas, até hoje, continuam chegando perto da casa dos 200 capítulos.

Texto de Vera Jardim no Jornal do Brasil de 23 de março de 1996 explicava a ideia. "Explode Coração [1995] está prestes a inaugurar um novo tempo na Globo. A novela, que termina no dia 3 de maio com o confortável índice de audiência de 59%, terá apenas 151 capítulos [na verdade, foram 155], quando a média é de 180. A autora Gloria Perez não foi prejudicada. Pelo contrário, ela esclarece ter sido um acordo prévio escrever uma história menor que as tradicionais", contou.

Originalmente, Explode Coração seria ainda menor, com 141 capítulos, mas o então vice-presidente de operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, pediu um acréscimo.

Por causa disso, surgiram vários rumores de que Gloria Perez estaria de mudança para o SBT, que fazia diversos investimentos em seu núcleo de teledramaturgia naquela época.

"Nunca sequer recebi um telefonema nesse sentido. Além do mais, tenho mais um ano de contrato com a Globo", disse a autora na reportagem. "Eu expliquei que precisava ficar com o meu tempo para livre para o julgamento, em junho, dos assassinos de minha filha", completou a novelista, em referência à morte de Daniella Perez (1970-1992).

De fato, Gloria assinou contrato com o SBT em 1996, assim como Benedito Ruy Barbosa e Walter Negrão. Mas acabou não cumprindo e ficou na Globo, que assumiu o compromisso de pagar uma multa milionária.

Explode Coração foi substituída por O Fim do Mundo (1996), de Dias Gomes (1922-1999), que originalmente seria uma minissérie e teve 35 capítulos. Por conta de um atraso na produção de O Rei do Gado, pela primeira vez a emissora exibiu em seu principal horário uma trama tão curta.

"Com a nova experiência de exibir a mininovela O Fim do Mundo a partir de 6 de maio, no horário das oito, Boni avaliaria o resultado para projetos semelhantes. A tendência é que o veículo seja mais ágil. As intenções da Globo se confirmam com o novo projeto de uma minissérie que está sendo escrita por Gilberto Braga, preparada para as 20h", informou o Jornal do Brasil. Provavelmente, se tratava de Labirinto, exibida em 1998, mas não nesse horário.

divulgação/globo

O ator Paulo Betti interpretava Joãozinho de Dagmar, protagonista de O Fim do Mundo (1996)

Dias Gomes, apesar de aprovar, não acreditava que as novelas teriam seu tempo diminuído. "A minissérie é um produto de luxo. Custa o mesmo que uma novela e não tem muito retorno comercial. Adoraria não precisar mais escrever novela do tamanho tradicional. Mas acredito que não vou escapar disso pelo menos mais uma vez", lamentou o autor.

O argumento da Globo para reduzir a duração das novelas caiu na produção seguinte. O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa, estreou em 17 de junho de 1996. Foi um grande sucesso e teve nada menos do que 209 capítulos. Com muita audiência e faturamento, além da saída de Boni do comando da emissora, as ideias foram engavetadas.

Uma nova tentativa foi feita no início de 2000, no horário das seis, com Esplendor. A novela de Ana Maria Moretzsohn tinha previsão de ficar no ar durante 80 capítulos, mas, com os bons resultados obtidos, teve 125 episódios. Em 2001, Estrela-Guia, da mesma autora, teve 83 capítulos. Dessa vez, o motivo foi o contrato com a cantora Sandy.

Desde então, boa parte das novelas da Globo continuaram chegando perto ou ultrapassando a marca dos 200 capítulos: Kubanacan (2003) e Alma Gêmea (2005) tiveram 277 cada; Amor à Vida (2013) chegou a 221; Passione (2010) foi a 209; Caminho das Índias (2009) teve 203; e A Favorita (2008) terminou com 197.

No ano passado, o atual diretor de teledramaturgia da emissora, Silvio de Abreu, fixou algumas regras. Novelas das seis, sete ou nove, contam com 150 a 173 capítulos, variando de acordo com a história, pedido do autor ou repercussão. Já as novelas das 23h têm de 60 a 80 capítulos, como Onde Nascem os Fortes, atualmente no ar.

Dessa forma, a emissora demonstra que não pretende diminuir drasticamente a duração dos capítulos das novelas, seu principal produto.


THELL DE CASTRO  é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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