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DEPOIMENTO

'Gilberto Braga me deu a pior entrevista da vida. E foi inesquecível'

JOÃO MIGUEL JÚNIOR/TV GLOBO

Gilberto Braga em coletiva de imprensa de Babilônia

Gilberto Braga (1945-2021) em coletiva de imprensa de Babilônia (2015)

Raphael Scire

raphascire@gmail.com

Publicado em 27/10/2021 - 12h39

Dono dos melhores e mais irônicos diálogos entre todos os novelistas brasileiros, Gilberto Braga morreu ontem (26) no Rio de Janeiro, cidade natal que o inspirou em toda sua obra, e deixou um legado enorme para a televisão. Autor de traços inigualáveis, Braga transitou por sucessos e fracassos, como Vale Tudo (1988) e Babilônia (2015), criou personagens memoráveis, cenas antológicas e, uma de suas principais marcas, vilãs e vilões deliciosamente cativantes.

Em uma cena de Vale Tudo, certamente sua melhor novela, a vilã Odete Roitman --interpretada por Beatriz Segall (1926-2018)--, em uma discussão à mesa de jantar, dispara uma série de preconceitos sobre o povo brasileiro, deixando transparecer sua aversão ao país, pontuando que o "Brasil é um país sempre em crise". O texto, escrito em 1988, continua atual 33 anos depois, uma mostra latente de que Braga era um autor à frente de seu tempo.

Suas histórias ficaram marcadas pelo retrato da elite carioca, pecha que ele particularmente odiava. Mas mais do que isso, Gilberto Braga foi um crítico mordaz da hipocrisia presente na sociedade brasileira, em todas as suas camadas, trazendo sempre discussões sobre ética, honestidade e caráter na boca de seus personagens. Muito aclamado por sua ironia, Braga também sofreu críticas e amargou fracassos justamente por não ter sua melhor qualidade compreendida.

Para além das novelas, escreveu também minisséries que retrataram a história recente do Brasil. Sua obra prima, como ele mesmo reconheceu, Anos Dourados (1986), mostrou ainda o cuidado que o autor tinha na escolha da trilha sonora que embalaria suas obras, provando que a música é complemento essencial às histórias que contava. Com Anos Rebeldes (1992), provocou uma catarse que casaria perfeitamente com o momento político nacional, culminando no movimento dos jovens Caras Pintadas e no posterior impeachment do então presidente Fernando Collor.

Odete Roitman, Raquel (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Gloria Pires), de Vale Tudo, Maria Clara (Malu Mader) e Laura (Cláudia Abreu), de Celebridade (2003), e Bebel (Camila Pitanga), de Paraíso Tropical (2007) são só alguns nomes que figuram da lista de fortes papéis femininos criados pelo autor. Malu Mader, Gloria Pires, Camila Pitanga e Claudia Abreu, musas de Gilberto, aliás, ganharam de presente do autor papéis que marcaram suas vidas e carreiras.

Os homens, porém, não ficam de fora do rol de bons personagens braguianos: Cacá, Ivan e Felipe Barreto, todos vividos por Antonio Fagundes em Dancin' Days (1977), Vale Tudo e O Dono do Mundo (1992), respectivamente, Renato Mendes (Fabio Assunção) em Celebridade, e Olavo (Wagner Moura) em Paraíso Tropical.

Gilberto Braga foi, sobretudo, um verdadeiro carpinteiro da dramaturgia, característica bem perceptível em sua obra. Apesar da rejeição que a novela teve, o primeiro capítulo de Babilônia, por exemplo, é um primor em termos de roteiro. Vale Tudo é, de cabo a rabo, uma aula de novela. E mesmo O Dono do Mundo, cujo roteiro teve de sofrer alterações por conta da crise de audiência pela qual passou, mostrou a capacidade de Braga de entregar o que o público queria ver sem ter de trair sua ideia inicial.

De uma honestidade única em suas entrevistas, Braga declarou, entre o bom humor e, de novo, a ironia, que só escrevia novelas para pagar o condomínio de seus apartamentos em Paris e Nova York. Ele também valorizava o trabalho em equipe e inaugurou a parceria entre autores na Globo, com Manoel Carlos, com quem dividiu a autoria de Água Viva (1980).

Por falar em entrevista, vivi um episódio com Gilberto que me marcou pra sempre. Quando escrevia Crimes no Horário Nobre, biografia sobre Silvio de Abreu, um dos melhores amigos de Braga, o procurei para que ele desse um depoimento. Na época, ele já estava envolvido na escrita de Insensato Coração (2011) e concordou em falar desde que fosse por e-mail. Eu não sabia, mas aquela seria a pior entrevista da minha vida.

Inexperiente, mandei as perguntas e uma delas era enorme, quase uma monografia, pois gostaria de saber se Gilberto concordava com a linha de raciocínio que eu havia desenvolvido sobre a obra do amigo. Lacônico, ele apenas respondeu "sim", me deixando sem as aspas que eu precisava e me ensinando duas lições importantíssimas: jamais fazer entrevistas por e-mail e ser o mais objetivo possível nas perguntas.

Com cara de pau, agradeci pela breve entrevista e disse que adoraria que ele escrevesse o prefácio do livro quando fosse publicado. Rapidamente Gilberto me respondeu que seria uma honra e gentilmente dividiu comigo suas belas palavras.

Sua morte deixa um vazio na televisão. O glamour de suas novelas, a acidez de suas críticas sociais, a genialidade ora aclamada, ora incompreendida. Gilberto Braga nos esfregou na cara o Brasil que a gente fingia não ver. Diferentemente de suas entrevistas, na grande maioria muito breves, suas novelas falaram muito, principalmente sobre o povo que somos.

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