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ENTREVISTA EXCLUSIVA

Galvão Bueno adia despedida e desabafa: 'Ninguém é obrigado a gostar de mim'

JOAO COTTA/TV GLOBO

Galvão Bueno na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019

Galvão Bueno na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019; narrador adiou aposentadoria

ELBA KRISS e GABRIEL VAQUER

elba@noticiasdatv.com

Publicado em 22/8/2021 - 7h00

Aos 71 anos de idade e quase 50 de carreira, Galvão Bueno experimenta algo praticamente inédito em sua trajetória: passou a ser uma unanimidade. Não que o principal nome do Esporte da Globo ligue para a aceitação. "Sempre fui criticado. Sempre fui odiado por uma parte e amado por outra. Mas ninguém é obrigado a gostar de mim", diz o narrador em entrevista exclusiva ao Notícias da TV. O principal assunto, sem dúvida, é o seu futuro. Ele esclarece que, agora, não tem mais data para se aposentar. Nunca teve, aliás. 

Na longa conversa, de uma hora e 30 minutos, Bueno se mostra disposto a falar. E fala muito. Ele interrompeu uma folga de alguns dias por causa da cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio para conversar com a reportagem exatamente no dia em que embarcaria para os Estados Unidos --agora está ao lado do filho mais novo, Luca Bueno, 19, que estuda Cinema por lá.

O apresentador revisita por todos os pontos de sua carreira. Sobre o futuro, esclarece que, agora, não tem mais previsão de aposentadoria. Vai viver um dia de cada vez, uma emoção a cada transmissão. Ele espera estar na próxima Olimpíada, em 2024, a ser realizada em Paris, na França. Mas o seu contrato termina ao fim de 2022. Existe Galvão fora da Globo? "A Globo é minha casa e me sinto bem lá", diz. 

Entre as polêmicas, o profissional comenta que não tem mais mágoa de Luiz Felipe Scolari. Desde 2014, o técnico do Grêmio não conversa com o narrador por causa de críticas que Bueno fez após Brasil 1 x 7 Alemanha, pela Copa do Mundo daquele ano. Felipão acusou o comunicador de "apontar o dedo" para ele e só voltou a falar com a Globo neste ano. 

Galvão, de fato, não foge das perguntas. Conta do vídeo vazado em 1994, durante a Copa do Mundo dos EUA, em que aparecia aparentemente criticando Pelé nos bastidores. A gravação é motivo de curiosidade até hoje, e muita gente interpreta que ele e o maior jogador de futebol da história são brigados. "Pelé é um grande meu amigo", esclarece. Ao contar a história toda, ele explica que, na verdade, estava defendendo o parceiro. 

Divulgação

Galvão Bueno no início da carreira como narrador

Galvão passa sua carreira a limpo e projeta um futuro ainda melhor. Fala até de seus piores momentos. Em novembro de 2019, dias antes da final da Libertadores entre Flamengo x River Plate, ele passou mal e teve que realizar um cateterismo em Lima, no Peru, onde iria ocorrer o jogo. Compartilha uma história de impressionar qualquer um sobre o assunto. Acredite: acordou no meio da cirurgia. Segundo ele, nada sério. Teve alta a tempo de conferir a final pela TV do hotel. 

Renovado nas redes sociais, garoto-propaganda requisitado e querido pelos jovens --virou meme por sua emoção à flor da pele nos Jogos Olímpicos de Tóquio--, o narrador espera que o atual momento perdure por muitos anos. "Eu me sinto bem, renovado. Quero ter saúde e continuar fazendo o que amo", diz. 

Confira a entrevista exclusiva com Galvão Bueno:

Notícias da TV - Galvão, você está em período de férias, mas sei que está colocando as coisas em ordem, dando uma entrevista… Descanso e férias não existem para você 100%?
Galvão Bueno - Não chega a ser férias. Normalmente, depois de um trabalho puxado como uma Olimpíada ou Copa do Mundo, tem sempre uns diazinhos de folga para recolocar a cabeça no lugar (risos). Não gosto de ficar parado mesmo estando em época de descanso. Claro, faço uma viagem com a Desirée, minha mulher, para um lugar que gostamos. Tentamos desligar um pouquinho do mundo. Mas tem sempre um detalhe, porque tenho meu trabalho na televisão e nos meus negócios… Estou sempre fazendo alguma coisa. Mas eu gosto. Não gosto de ficar parado.

Notícias da TV - Nesse último ano, você ficou um tempo afastado do trabalho presencial por conta da pandemia. Como foi esse período e a volta?
Galvão Bueno - Eu fiquei longe do trabalho presencial. Mas continuei trabalhando todos os dias. A Globo montou na minha casa em Londrina, no Paraná, um estúdio. De lá, eu participava dos programas. Fiz o Bem, Amigos durante todo esse tempo.

Notícias da TV - Foram 14 meses.
Galvão Bueno - É, 14 meses sem trabalho presencial. Dividi esse tempo entre minha casa em Londrina e a vinícola no Rio Grande do Sul. Fiquei isolado com Desirée, só nós dois basicamente. Porém, trabalhando sempre. Mas [o trabalho presencial] fazia falta. No dia que voltei, era a decisão da Supercopa do Brasil: Flamengo x Palmeiras.

Eu tinha certeza que, quando abrisse a câmera, quando acendesse a luzinha vermelha na câmera que está no ar, alguma coisa iria acontecer. Foi uma emoção muito forte. É completamente diferente. É como voltar para casa depois de 14 meses. O coração bateu mais forte e mais rápido. Afinal de contas, são muitos anos nessa coisa.

Notícias da TV - Na cobertura da Olimpíada, muito se falou da potência de sua voz. O que aconteceu? Você fez fono na pandemia ou só descansou a voz mesmo?
Galvão Bueno - Eu faço um trabalho de fono. Fiz para a Copa do Mundo que foi no Brasil e para a Olimpíada [no Brasil]. A fonoaudióloga da Globo me acompanhou (risos). Na Olimpíada, em 2016, pedi até que ela fosse credenciada para todos os lugares para que pudesse ir comigo. Trabalhávamos todos os dias. Eu não sou mais criança (risos). Estou longe de ser um garoto. A voz muda, realmente. E tive lá alguns probleminhas, há três anos. Então, fiz um trabalho sério.

Nesses últimos dois anos, venho fazendo [acompanhamento] com uma fonoaudióloga de Londrina. Uma coisa moderna. Usamos raio laser, calor, frio, uma série de coisas, e o resultado foi muito bom. Estou satisfeito. É bom poder gritar um gol tão longo e firme no finalzinho de uma prorrogação, depois de praticamente 120 minutos de jogo, como foi a decisão do clássico Brasil x Espanha, que foi o ouro [olímpico].

Divulgação

Galvão e Patrícia Poeta na Copa de 2014

Notícias da TV - E logo após a Olimpíada, você anunciou que estará nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, e na Copa do Catar, em 2022.
Galvão Bueno - A Copa do Catar já estava dentro do projeto atual. Eu tenho um compromisso com a Globo, e a Globo comigo, que vai até dezembro de 2022. Ficamos de conversar depois sobre o que possa vir a acontecer.

Logo no início da Olimpíada, eu estava ao vivo com alguém... Não sei se alguém [algum atleta] tinha perdido ou foi desclassificado, e eu disse: 'Não liga, não. Não se incomode. Paris está logo ali'. E isso passou a ser repetido. E Paris está logo ali. O ciclo é menor, são três anos em vez de quatro. E me dei conta de algumas coisas. Paris será minha décima Olimpíada. Essa Copa do Mundo do Catar vai ser minha 13ª.

Eu amo Olimpíada. O esporte é a grande celebração da vida, e a Olimpíada é a grande celebração do esporte. E casa que, exatamente em 2024 [na Olimpíada de Paris], vou completar 50 anos de profissão. Não consigo me ver fora de Paris. Como eu vou? Não sei. Espero que seja pela Globo, fazendo meu trabalho, como sempre fiz. Mas não sei… Nem que eu tenha que comprar ingresso. Aí já vou começar a comprar ingresso para tudo, vou assistir tudo e me comunicar com meus telespectadores. Só peço a Deus para ter saúde e estar vivo e, assim sendo, lá estarei. Ponto.

Notícias da TV - Estará como espectador ou trabalhando, é isso?
Galvão Bueno - Como espectador não. Trabalhando de alguma forma. Quando digo espectador é o seguinte: se eu tiver que criar alguma coisa para me comunicar. Posso muito bem comprar meus ingressos, estar em todos os lugares, assistir tudo e escrever sobre isso. Falar com algum lugar [veículo]. Não sei. Mas espero que seja como venho fazendo nesses últimos 40 anos: na Globo. Acredito que assim será. Mas que estarei lá [em Paris], estarei.

Notícias da TV - Mas corre o risco de não ser pela Globo?
Galvão Bueno - Não estou falando disso. Estou dizendo que temos datas, contratos e compromissos. Você tem que renová-los para que as coisas possam continuar como estão. Creio que tudo correrá normalmente, mas não posso afirmar uma coisa de um compromisso que, teoricamente, termina em dezembro de 2022.

Notícias da TV - Falando um pouco da sua carreira, Galvão, lá em 2014, naquele fatídico 7 x 1 [Alemanha x Brasil], você foi elogiado pela torcida brasileira porque falou o que deveria ser dito. Mas teve o ônus disso. Por causa disso, o Felipão [Luiz Felipe Scolari] cortou relações. Como está essa situação? Vocês voltaram a se falar? Existe isso ainda ou é uma lenda?
Galvão Bueno - Acho que hoje está mais no campo da lenda. Terminado o jogo, cabia a mim fazer um editorial. Posso dizer que foi feito a oito mãos, mas cabia a mim dar a nossa opinião naquilo que nós entendíamos que tinha acontecido. E o Felipão, claro, estava machucado com tudo o que aconteceu. É evidente.

Um profissional vencedor, um campeão do mundo com o Brasil, com trabalhos internacionais excepcionais. Um grande vitorioso por quem tenho muito respeito. Nunca tive uma amizade de frequentar a casa um do outro. Mas nos dávamos bem, tínhamos conversas boas em alguns jantares. E algumas divergências, claro.

Mas ele disse que apontei o dedo para ele. Que apontei e joguei a torcida brasileira contra ele. Não foi isso que aconteceu. E de lá para cá, na verdade, não voltamos a falar. Mas acho que isso já está superado. A vida traz essas coisas, e depois o tempo acaba ajeitando. Quando as pessoas são razoáveis e inteligentes, como é o caso dele e imagino, modestamente, que seja o meu, as coisas se ajeitam.

Notícias da TV - Você tem um bom nome na Globo, imagino que seja requisitado para campanhas publicitárias. Você tem essa procura publicitária? A Globo tem uma política para isso, mas como é o Galvão garoto-propaganda?
Galvão Bueno - (risos) É uma coisa nova. Uma coisa nova que foi acertada neste contrato que está em vigor. Era uma coisa que não era permitido, mas o enfoque sobre isso mudou. Então, ultimamente, estou liberado para fazer campanhas. Tem algumas no ar, de empresas importantes. Tem um trabalho intenso nas redes sociais. Hoje existe uma movimentação grande nessa área da mídia digital. Fiz muitas coisas, como campanhas de grandes empresas nacionais. Estou curtindo. Tenho trabalhado e gravado bastante (risos). Depois de tantos anos, uma coisa nova.

reprodução/TV Globo

Galvão Bueno nos Jogos Olímpicos de Tóquio

Notícias da TV - Você tem algum critério para escolher uma campanha?
Galvão Bueno - Tenho meus critérios daquilo que entendo que deva ser correto: não tem nenhum viés político, não tem nenhum viés ideológico. Nada disso. Digo: 'Desde que seja respeitoso, dentro da verdade dos fatos, que não seja nenhuma fantasia e que não se esteja inventando nada'.

Notícias da TV - Galvão, sobre o Ayrton Senna [1960-1994], seu amigo. Até hoje você se emociona quando fala dele. Lembro de uma fala sua para a Rede OM, nos anos 1990, em que você falou que ele era um 'moleque', um moleque meio folgado. Várias vezes, você contou que ele pregava peças, era fanfarrão. Você tem uma melhor história com ele nos bastidores e longe das câmeras?
Galvão Bueno - O Ayrton foi um dos profissionais mais sérios e dedicados que conheci na vida. Nunca conheci um piloto mais talentoso. Ele tinha uma cobrança com ele mesmo. Nesse aspecto, sou até um pouco parecido com ele. Mas ele tinha uma cobrança quase desumana com ele mesmo. Ele tinha aquela imagem muito séria. E era. Só que na intimidade da família e dos amigos mais chegados, era divertido. Era um moleque no bom sentido. Nós perturbávamos muito a vida dos outros. Ele perturbava a minha vida, e eu a vida dele.

Uma vez, nós estávamos embarcando em Miami [Estados Unidos], ele pegou um cadeado e colocou [em mim] onde passa o cinto da calça. E quem disse que o americano me deixava embarcar? Eu não conseguia passar naquilo [detector de metais] sem apitar (risos). E ele dizia para o americano: 'Não o deixe embarcar porque é maluco. Ele anda com esse cadeado preso, você não sabe mais o que ele tem'. Era esse tipo de brincadeira. E ele dava risada.

divulgação

Ayrton Senna e Galvão Bueno

Ele tinha uma superstição: uma luva que achava que dava sorte. Aquilo ia gastando, mas ele pedia para remendar e costurar. Teve o Grande Prêmio de Mônaco, eu estava na casa dele e falei: 'Vou dar um susto nele'. Peguei um fio de náilon e amarrei nas luvas. Ele morava no sétimo ou nono andar, não sei. Sei que fui na varanda, amarrei aquilo [na luva] e joguei lá embaixo. Ele ficou desesperado: 'Cadê a luva?'. Deixei ele ficar bem angustiado e falei: 'Vou pescar sua luva'. Puxei de volta e devolvi. Ele foi embora com a luva meio rasgadinha e ganhou a corrida.

O Ayrton era como se fosse um irmão mais novo. Mas o corredor de automóvel amadurece muito cedo. O Ayrton era dez anos mais novo do que eu, mas, em muitos momentos, parecia o irmão mais velho. Exatamente por essa característica que o corredor de automóvel tem de amadurecer mais cedo. O Ayrton me faz muita falta, claro. Digo que, de vez em quando, bato um papo com ele na dimensão que ele esteja. Em alguma dimensão diferente ele está. Mas prefiro lembrar sempre das grandes conquistas, dos momentos de vitória e dos momentos divertidos que passamos juntos.

Notícias da TV - Você acha que hoje ele faria diferença nesse período que estamos vivendo? Neste período da pandemia, ele seria um líder a seguir?
Galvão Bueno -
Ayrton teria sido, se vivo estivesse, alguém com muito destaque no Brasil. Não sei se como empresário, como um político importante ou como um grande líder. Um lugar estava reservado para ele. Ele sempre teve um amor grande pelo Brasil. Sempre teve uma noção exata das coisas que precisavam ser feitas. Ele fazia muita coisa sem que ninguém soubesse. O Instituto Ayrton Senna está aí como prova disso. Ele fez coisas que ninguém sabia que ele fazia. De comprar e renovar todos os equipamentos de hospitais infantis, de hospitais do câncer... Se vivo estivesse hoje, aos 61 anos de idade, ele seria uma pessoa importante no Brasil.

Notícias da TV - Citei a Rede OM lá atrás. Eu lembro que você falou em alguns momentos sobre essa sua passagem fora da Globo, essa aventura que você fez. Você já deu declarações sobre uma dívida que ficou, alguns cheques sem fundos. Como que ficou essa situação, Galvão?
Galvão Bueno - Não (risos). Eu sempre fui inquieto. Isso foi em 1992. O José Carlos Martinez [1948-2003], o presidente da Rede OM, era um cara encantador. Era difícil dizer 'não' para ele. Acabou sendo criado um projeto e embarquei nele. Avisei a Globo que iria sair. E foram dez meses apenas. Nós tivemos resultados de audiência espetaculares. Nesse aspecto foi muito bom.

Mas ela [a emissora] acabava por envolver um lado político que eu, com o passar do tempo, achei que não estivesse correto. E tivemos uns problemas. Acabou sendo acertado. Demorou um pouquinho, mas recebi o que tinha que receber e sem nenhum problema. Não ficou nenhuma mágoa nesse sentido. As pessoas exageram nas coisas. Foram dez meses apenas [fora da Globo], mas foi uma parte importante nessa minha carreira de quase 50 anos.

Veja só o que aconteceu: eu estava há 11 anos na Globo, saí, fiquei dez meses fora e voltei para a Globo. Nesses 40 anos de Globo, foram dez meses que fiquei fora, ou seja, sem nenhum trauma ou problema. É importante que eu diga: estou na Globo, a Globo é minha casa. O que conquistei na vida, conquistei lá dentro nesses 40 anos. Tenho um ótimo relacionamento com a família Marinho. Eu me sinto em casa, me sinto bem, e adoro trabalhar lá.

Notícias da TV - Galvão, em algum momento na sua trajetória você se arrependeu de alguma fala sua no ar? Algum comentário?
Galvão Bueno - Imagina o seguinte: eu vivo de falar. Vivo de juntar palavras para emitir opiniões e conceitos. Imagina quanta bobagem já falei nesse tempo todo? É absolutamente inevitável. Não me pergunte qual foi a maior, porque, talvez, eu não saiba te dizer.

Notícias da TV - Teve aquela história com o Pelé, daquele vídeo que vazou em 1994. Uma questãozinha?
Galvão Bueno - Mas aí não foi uma bobagem que falei. Eu estava mais defendendo meu amigo Pelé. As pessoas, às vezes, não entendem. Aquilo vazou numa parabólica para alguém que mandou para uma revista, que publicou da forma que entendeu. Eles [os diretores] estavam reclamando e eu estava dizendo: 'Peraí, vocês querem que ele não fale? Vocês querem o quê? Que eu feche o microfone dele? Que eu quebre o microfone dele? Não. Ele está aqui para falar. Ele é o Pelé. Edson Arantes do Nascimento, o rei Pelé, primeiro e único'.

Ali foi muito mais um mal-entendido da forma como as pessoas viram a história. Não dá para colocar isso no hall das bobagens que falei. Falei muita bobagem, mas essa não dá para colocar. Continuamos amigos. Amo o Pelé, um grande ídolo esportivo deste país, sem dúvida. Ele mora aqui no meu coração.

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Galvão Bueno e Pelé

Notícias da TV - Você falou que seu ofício é falar, opinar e fazer comentários. Em 2010, teve aquela hashtag que repercutiu nas redes sociais, o #CalaBocaGalvao na Copa da África. Hoje a história mudou. O que pensa disso? Dessas reviravoltas: antes criticado, agora desejado.
Galvão Bueno - Sou um jornalista, radialista, comunicador, narrador e apresentador. Mas, acima de tudo, costumo me autodenominar como um vendedor de emoções. Trabalho com essa coisa meio explosiva chamada emoção. Preciso que as coisas me emocionem para que eu tenha um bom produto, para poder vender essas emoções. Isso mexe com a paixão do torcedor.

Sempre fui criticado. Sempre fui odiado por uma parte e amado por outra. Ainda bem que a parte do amor é muito maior do que a parte do ódio. Mas ninguém é obrigado a gostar de mim. Ninguém é obrigado a gostar do meu trabalho. Mas as coisas, realmente, mudam. As redes sociais mexeram com esse tipo de coisa.

O #CalaBocaGalvao surgiu nas redes sociais. Ele veio numa transmissão de abertura da Copa do Mundo, na África do Sul, que dividi com minha amiga Fátima Bernardes. E alguém na rede social, talvez, achando que eu estivesse falando demais --e eu falo mesmo (risos)--, alguém [escreveu]: #CalaBocaGalvao. No dia seguinte de manhã: 'Meu Deus do céu, o que é isso? Onde é que isso vai parar?'. E o que resolvemos fazer? O meu pessoal junto com a direção da Globo: 'Vamos levar na boa'. E foi assim.

Fazendo uma interação com Tiago Leifert, ele falou: 'Cala a boca, Galvão'. Falei: 'Cala a boca você'. Esse programa começou a sair no mundo inteiro, e as pessoas queriam saber o que queria dizer isso. Aí apareceu alguém... Tem que ter uma cabeça muito louca para fazer isso: 'O Galvão Bueno era um pássaro em extinção' (risos). De repente, estava no The New York Times [jornal dos Estados Unidos], no El País, da Espanha... E do mesmo jeito que chegou com impacto violento, acabou sendo uma coisa que foi levada na boa. Tanto é que o livro que escrevi é Fala, Galvão. Do #CalaBocaGalvao surgiu o #FalaGalvao. E, quer saber? Foi legal.

Notícias da TV - Você já declarou que é torcedor do Flamengo. Mas lá em 2019, infelizmente, por questão de saúde [uma cirurgia no coração], ficou de fora da Libertadores, quando o Flamengo conquistou o bicampeonato no Peru. Isso dói para você como torcedor?
Galvão Bueno - Não como torcedor. Mas como profissional, claro que sim. Eu estava em Lima, e cheguei com Desirée, minha mulher, um dia antes da equipe [da Globo]. Tenho um encanto com a gastronomia peruana. Cheguei na quarta-feira, o jogo ia ser sábado. Fiz uma programação de onde ir na quarta, na quinta e na sexta. Depois, iria para Machu Picchu. Então, estava com uma programação muito bem feita. E logo na primeira noite, me senti mal.

Ao amanhecer, fui ao hospital. Fiz um cateterismo e uma angioplastia. Foi muito louco porque isso é uma coisa que demora meia hora ou 40 minutos. E sei que acordei [da sedação] e senti que estavam mexendo dentro do meu coração, em alguma artéria ou alguma coisa e falei: 'Doutor, acordei. Está doendo'. E ele: 'Já que você acordou me ajuda, respira fundo e prende a respiração'. Aí me veio na cabeça: 'Que horas são?'. Ele disse: '11h30'. Eu disse: 'Isso quer dizer que estou aqui há três horas. O que está acontecendo?'.

Os médicos peruanos tiveram muita competência. Ele [o médico] dizia: 'É uma artéria tão pequenininha, tão fininha que não consigo passar'. Eu falei: 'Se não passa, pare, por favor' (risos). Ele estava tentando colocar um stent [pequeno tubo], o stent não entrava. Acabou não sendo tão grave, mas me tirou do jogo.

Notícias da TV - E como está seu coração depois de tudo isso? Você faz o check-up anualmente?
Galvão Bueno - Faço toda hora. Quer saber? Dei uma mudadinha na minha vida mesmo. Passei a me cuidar um pouco mais e emagreci bastante. Isso me ajuda a estar como estou hoje. Tenho uma família linda. Graças a Deus estou com saúde. Trabalho no que gosto e amo o que faço. Estou de bem com a vida.

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Galvão Bueno e a equipe da Globo na Copa de 2014

Notícias da TV - Galvão, vamos falar das suas outras vertentes fora da televisão. Você tem negócios na agropecuária. É certo dizer que fora da TV você é o verdadeiro rei do gado?
Galvão Bueno - Não, longe disso (risos). Trabalhei muitos anos com desenvolvimento de genética, com gado de raça e participando das exposições. Posso dizer que sou realizado. Ganhei todos os prêmios que podia ganhar em todas as principais exposições do Brasil.

Sou apaixonado por cavalos. Criei quarto de milha no interior do Paraná, e crio cavalos crioulos no Rio Grande do Sul. Sou apaixonado e monto até hoje. Tenho meus troféus das minhas montarias. Esse braço [esquerdo], eu quase perdi. Aqui tem fratura total, exposta, não sei quantas placas de titânio, 18 parafusos e quatro cirurgias. Mas a paixão pelos cavalos continua. Monto até hoje.

E tem o vinho, que vem de uma grande paixão também. Tudo que faço na vida, se não tiver paixão, não faço. Amo meu trabalho na televisão. Amo meu trabalho no agronegócio, meu trabalho no campo. E minha paixão pelos vinhos é grande, intensa e foi só crescendo. Ela é bem antiga. Tem muito a ver com a Fórmula 1.

Notícias da TV - Com a Fórmula 1?
Galvão Bueno - É, porque quando comecei a viajar fazendo todas as corridas de Fórmula 1, eu viajava com meu bom parceiro, o Reginaldo Leme. E as coisas [corridas] eram mais concentradas na Europa. Então, em Portugal, na Espanha, na França, na Itália, na Inglaterra... Onde a gente estivesse. No jantar? Um vinho. Toda mesa tinha uma garrafa de vinho. Eu dizia: 'Reginaldo, os caras estão certos. Errados estamos nós'.

E comecei a conhecer, me apaixonei e botei na cabeça: 'Um dia vou fazer um vinho'. E acabou virando um investimento sério, um grande trabalho no Brasil e na Itália. O resultado é muito bom. Comercialmente vai muitíssimo bem, ou seja, estou cada dia mais mergulhado dentro de uma garrafa de vinho (risos).

dIVULGAÇÃO

Galvão com sua criação de gado

Notícias da TV - Galvão, soube que você tem uma novidade para compartilhar. Seria algo relacionado com sua aposentadoria?
Galvão Bueno - Adiei a aposentadoria. Pronto.

Notícias da TV - Por tempo indeterminado?
Galvão Bueno - Absolutamente indeterminado. Aliás, nunca existiu com tempo determinado. Essa Olimpíada me fez muito bem. Eu me senti solto, à vontade e feliz. Talvez, até um pouco exagerado demais (risos). Me dei bem desde o primeiro dia, na cerimônia de abertura, quando conversei com a Rayssa Leal, a Fadinha, e eu disse: 'Zerei a vida'. E isso virou notícia. Gostei demais desse contato mais direto através das redes sociais. Algumas postagens passando de 2 milhões ou 3 milhões de visualizações.

Então, se sinto que ainda estou fazendo o meu trabalho bem. Se sinto que as pessoas ainda estão gostando do que eu faço. Se sinto que a voz está boa, que estou bem e feliz. Parar por quê? Por que marcar alguma data para parar? Talvez a novidade seja essa. Vai parar quando? Não sei e não tenho a menor ideia. Está bom demais.

Notícias da TV - Galvão, alguma mensagem final?
Galvão Bueno - Uma mensagem final. Essa Olimpíada foi da superação e da inclusão. Ela foi importante, mas foi realizada num momento difícil que nós estamos vivendo. A Olimpíada teve um lado extremamente positivo. Nos fez lembrar que a batalha contra a Covid-19, esse horror que assombra o mundo, continua. E cabe a cada um de nós ter consciência disso. Vacina, sim. É o único caminho. Máscara e higiene.

É, claro, que as pessoas precisam trabalhar. As pessoas precisam produzir. Mas é preciso que aqueles que são privilegiados --como eu sou e como tantas pessoas são-- tenham a noção exata do que precisa ser feito. De como podemos colaborar e ajudar, porque o momento é sério e difícil ainda. Tenho esperança, fé em Deus e na ciência, de que dias melhores possam estar chegando.

Confira os destaques da entrevista de Galvão Bueno ao Notícias da TV:


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