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MEMÓRIA DA TV

Das novelas para a cadeia: Atriz de O Bem-Amado chocou o Brasil ao matar o marido

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

A atriz Dorinha Duval caracterizada como sua personagem em O Bem-Amado (1973), sorri para foto em preto e branco

A atriz Dorinha Duval em O Bem-Amado (1973); ela deixou a TV após cometer um assassinato

THELL DE CASTRO

Publicado em 28/2/2021 - 6h56

Em 1980, uma famosa atriz da Globo comoveu o Brasil ao matar o marido, acabando com anos de brigas e humilhações sofridas. Dorinha Duval, que interpretou uma das principais personagens de O Bem-Amado (1973), acertou as contas com a Justiça e refez sua vida longe da televisão.

Nascida em 21 de janeiro de 1929, em São Paulo, Dorinha foi uma famosa vedete do teatro de revista nos anos 1950, eleita três vezes consecutivas uma das Certinhas do Lalau, lista do jornalista Stanislaw Ponte Preta (1923-1968).

Depois de atuar no cinema, entrou para a televisão no final dos anos 1960, na novela Verão Vermelho (1969), da Globo. Depois, participou de Irmãos Coragem (1970), Minha Doce Namorada (1971) e Selva de Pedra (1972) antes de interpretar Dulcinéia em O Bem-Amado (1973).

Na trama de Dias Gomes (1922-1999), ela viveu uma das três irmãs da família Cajazeira, solteironas moralistas na cidade, que tinham casos secretos com o prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Grávida do político, a personagem se casou com o secretário da prefeitura, o distraído Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), que pensava ser dele a criança.

Depois de O Bem-Amado, ainda esteve em O Espigão (1974), Cuca Legal (1975), O Feijão e o Sonho (1976), Maria Maria (1978) e Sinal de Alerta (1979), além de humorísticos e séries. Outro papel de destaque foi o de Cuca na versão clássica do Sítio do Picapau Amarelo, entre 1977 e 1980.

Com muitos problemas na vida pessoal, Dorinha contou, no livro Em Busca da Luz - Memórias de Dorinha Duval Narradas a Luiz Carlos Maciel e Maria Luiza Ocampo, lançado em 2002, que foi violentada aos 15 anos, sofreu um aborto e chegou a se prostituir.

Ela foi casada com o diretor e ator Daniel Filho, com quem teve uma filha, a também atriz Carla Daniel. Após uma conturbada separação, acabou sofrendo por conta do alcoolismo e tentou o suicídio.

O crime

Dorinha chocou o Brasil no dia 5 de outubro de 1980. Após uma grave discussão, acabou disparando diversas vezes contra o então marido, Paulo Sérgio Garcia de Alcântara, que havia lhe agredido verbal e fisicamente.

De acordo com reportagem da revista Manchete da época, as brigas entre eles eram constantes e, muitas vezes, violentas. Alcântara era viciado no jogo e estava prejudicando financeiramente a atriz, que pagava suas dívidas.

Ela também tinha constantes crises de ciúmes por conta do assédio de jovens modelos que o marido sofria na agência de publicidade de Carlos Manga (1928-2015), em emprego que ela mesma lhe conseguiu.

Na noite do crime, Dorinha teria sido rejeitada pelo marido, que teria a humilhado. "Você está velha, feia, gorda. Você já era. Porque eu não quero nada com uma velha como você. Vê se olha no espelho! Você acha que eu vou querer alguma coisa contigo?", ele teria dito, segundo relato da atriz.

"O Paulo me deu vários tapas e pontapés, eu ameacei me matar, e ele disse que seria uma ótima ideia e que a arma estava na gaveta. Após ser atingida por um tapa na região da cabeça, fugi dele, peguei a arma e disparei. Daí tudo ficou escuro na minha frente. Só me lembro de ver o Paulo caído, ensanguentado", contou Dorinha em seu livro.

Ela ligou para amigos que ajudaram a levar o corpo de Paulo até o Hospital Miguel Couto, mas não havia mais o que ser feito.

A atriz respondeu o processo em liberdade. O primeiro julgamento ocorreu em 17 de novembro de 1983 e, por cinco votos a dois, ficou decidido que a ré havia agido em legítima defesa. No entanto, Dorinha acabou condenada a um ano e seis meses de prisão por pelo excesso culposo, ou seja, por se ter excedido nos meios empregados na sua legítima defesa.

Contudo, desembargadores acabaram anulando esse julgamento, alegando que houve suspeição dos jurados e deficiência nas perguntas feitas na sala secreta.

Novo julgamento foi realizado apenas em 11 de março de 1989, com Dorinha sendo condenada em definitivo a seis anos de prisão por homicídio sem agravantes. A atriz cumpriu pena em Niterói (RJ), inicialmente em regime semiaberto; nove meses depois, conseguiu permanecer no regime aberto.

Depois de acertar as contas com a Justiça, Dorinha iniciou uma carreira de artista plástica, dedicando-se a temas místicos e esotéricos. Ela, inclusive, chegou a ser reconhecida por seu trabalho.

Em entrevista à Folha de S.Paulo de 28 de fevereiro de 2001, a atriz declarou que ainda era contratada da Globo, mesmo anos após o ocorrido –seu último trabalho foi na série Plantão de Polícia, pouco antes do assassinato. "Sou muito grata à Globo pelo salário e plano de assistência médica, que inclui até a cremação de meu corpo", informou.

"Vou vivendo até quando Deus permitir", disse Dorinha, que tinha 72 anos na época. Recentemente, ela completou 92 anos e continua vivendo no Rio de Janeiro, tendo feito raras aparições públicas até a chegada da pandemia de Covid-19.

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