Memória da TV

Antes de Bolsonaro ameaçar Globo, emissoras perderam concessões na ditadura

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Parte externa da TV Excelsior em São Paulo, no fim dos anos 1960

Parte externa da TV Excelsior em São Paulo, no fim dos anos 1960; emissora saiu do ar em 1970

THELL DE CASTRO - Publicado em 10/05/2020, às 06h41

Mais de uma vez, o presidente Jair Bolsonaro disse que, se depender dele, a Rede Globo perderá suas concessões e sairá do ar. Essa decisão não depende somente dele, mas, caso tivesse êxito, não seria o primeiro caso de uma emissora tirada do ar pelo governo. Durante a Ditadura Militar (1964-1985), isso ocorreu com redes importantes no país.

A primeira emissora que perdeu sua concessão foi a TV Excelsior, em 1970. Inaugurada em 1960 pela família Simonsen, revolucionou a televisão na época, implantando diversos conceitos que estão em uso até os dias de hoje, como as grades horizontal e vertical, o uso de jingles e vinhetas, entre outros artifícios para segurar a audiência.

A partir de 1964, com a implantação do regime militar, a Excelsior começou a ter diversos problemas, já que o novo governo interveio nas empresas do Grupo Simonsen, como a Panair do Brasil, que acabavam bancando a rede.

A emissora foi vendida para os proprietários da Folha de S.Paulo, Otávio Frias de Oliveira (1912-2007) e Carlos Caldeira Filho (1913-1993). Posteriormente, o controle foi retomado pelos Simonsen, mas já não havia mais o que ser feito.

Completamente falido, o canal teve sua concessão cassada pelo presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) em 28 de setembro de 1970, saindo do ar dois dias depois, durante a exibição do humorístico Adélia e suas Trapalhadas, após um breve anúncio do jornalista Ferreira Neto (1938-2002) acerca do que estava acontecendo.

Dois anos depois, o mesmo Médici cassou a TV Continental. A emissora do Rio de Janeiro, que teve alguns momentos de destaque nos anos 1960, com grandes artistas em seu elenco, ficou numa situação caótica a partir de 1970, quando foi despejada de sua sede e passou a transmitir enlatados direto de um velho caminhão de externas.

Em 21 de fevereiro de 1972, Médici assinou a cassação da concessão da TV Continental, que foi tirada do ar pelos técnicos do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações) no dia seguinte.

O último caso ocorreu em 18 de julho de 1980, quando a Rede Tupi, pioneira da televisão brasileira, foi tirada do ar após sua situação financeira ficar insustentável.

Além das emissoras de São Paulo (SP) e do Rio de Janeiro (RJ), outros canais saíram do ar, como a TV Itacolomi, de Belo Horizonte (MG), a TV Marajoara, de Belém (PA), a TV Piratini, de Porto Alegre (RS), a TV Ceará, de Fortaleza (CE), e a TV Rádio Clube, de Recife (PE).

O governo, na época comandando pelo presidente João Figueiredo (1918-1999), escolheu os empresários Silvio Santos e Adolpho Bloch (1908-1995) para assumirem os canais da Tupi e outros que estavam vagos, surgindo, assim, respectivamente, o SBT, em 1981, e a Rede Manchete, em 1983 – esta, saiu no ar em 1999, dando lugar à RedeTV!.

A concessão da Globo vence somente em 5 de outubro de 2022. Caso decidisse não renovar, Bolsonaro ainda dependeria da aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional, em votação nominal. Antes desse prazo, uma eventual cassação teria que ser julgado na Justiça Federal, com possibilidade de recursos até o Supremo Tribunal Federal (STF).


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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