Baseado em fatos reais

Drama perturbador da Netflix, Olhos Que Condenam escancara injustiça racial

Fotos: Divulgação/Netflix

Blake DeLong com Ethan Herisse em Olhos Que Condenam; detetive branco leva garoto negro à delegacia - Fotos: Divulgação/Netflix

Blake DeLong com Ethan Herisse em Olhos Que Condenam; detetive branco leva garoto negro à delegacia

JOÃO DA PAZ - Publicado em 04/06/2019, às 05h23

Assistir ao drama Olhos Que Condenam na Netflix é perturbador. No conforto de sua casa ou com a praticidade de um celular na mão, o telespectador se depara com uma trama agonizante, na qual policiais brancos forçam cinco adolescentes (quatro negros e um latino) a confessarem um crime que não cometeram. A história incomoda porque é real.

Criada e dirigida por Ava DuVernay, cineasta negra com filme e documentário indicados ao Oscar, a minissérie faz justiça racial ao expor como esses jovens foram condenados erroneamente por um sistema policial e legal embranquecido, rápido ao colocar garotos pobres como culpados de espancar e estuprar uma mulher loira, branca e rica.

Olhos Que Condenam (When They See Us, em inglês) retrata o infame caso da Corredora do Central Park, como a mídia americana da época rotulou o ataque que a investidora bancária Trisha Meili (Alexandra Templer), então com 28 anos, sofreu dentro do parque nova-iorquino, na noite de 19 de abril de 1989.

Naquela data, como em tantas outras, dezenas de jovens negros e latinos se divertiam no parque. Alguns deles começaram a fazer arruaça, e outros frequentadores ligaram para a polícia reclamando da importunação. Ao descobrirem o corpo de Trisha violentado no chão, os policiais precipitadamente ligaram os pontos e foram atrás desses jovens.

Entre 30 menores, cinco foram "escolhidos" pela polícia, que construiu uma narrativa de mentiras para incriminá-los. Quem liderou essa fábrica de acusações foi Linda Fairstein, interpretada com precisão por Felicity Huffman. Ela fez vista grossas a inúmeras evidências que inocentavam os rapazes, incluindo testes de DNA, pois queria que alguém fosse punido pelo ataque contra a corredora.

Ao seu lado estava a procuradora Elizabeth Lederer, vivida pela magnífica Vera Farmiga, que dá show. Elizabeth tentava ser a voz do equilíbrio, sempre pontuando que os argumentos contra os jovens eram inconsistentes. Mas Linda insistia, e as duas acabaram jogando sujo no tribunal.

No final das contas, os cinco rapazes, entre 14 e 16 anos, foram condenados por várias acusações: roubo, estupro, lesão corporal, motim e tentativa de homicídio. Pegaram de 5 a 15 anos de prisão.

Jharrel Jerome ao fundo, com Vera Farmiga desfocada; elenco de Olhos Que Condenam brilha


Outro lado

Olhos Que Condenam joga luz no outro lado do caso da Corredora do Central Park. Enquanto evidencia o racismo do sistema contra os adolescentes, os quatro episódios da minissérie mostram como os garotos vivam antes do caso estourar. A atração se preocupa em deixar claro que todos eram meninos normais, que pensavam no futuro, curtiam as namoradinhas e aproveitavam o dia a dia.

A produção da Netflix também assume o papel de contar para o público como é a vida de um ex-presidiário, ressaltando que isso afeta não só o indivíduo, mas também a todos ao seu redor. A série dá um salto no tempo e mostra como os adolescentes cresceram após deixarem a cadeia e tentam se inserir na sociedade, com a marca de serem visto como culpados pelo estupro de uma mulher.

Profunda, Olhos Que Condenam é uma série necessária, embora seja agonizante ver como poderosos fazem de tudo para justificar uma narrativa inventada de um crime, sem se preocuparem com a vida de quem está no banco dos réus.

A série tem elenco formidável e chegará com força para brigar pelas principais estatuetas do Emmy nas categorias de minissérie. Entre os adultos, além de Vera Farmiga e Felicity Huffman, vale destacar os nomes de Michael K. Williams, pai do garoto Antron McCray; Kylie Bunbury, irmã de Kevin Richardson; e John Leguizamo, pai de Raymond Santana.

O quinteto de atores que interpreta os meninos também é digno de nota. Se destacam Asante Blackk, que vive o Kevin; Jharrel Jerome, o Korey Wisey; e Caleel Harris, o Antron. Especialistas já cravam que Jharrel Jerome, no mínimo, merece uma indicação ao Emmy. Ganhar é outra coisa, porque ele deve concorrer com Mahershala Ali (True Detective).

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