Maria Clara Spinelli

Para atriz transexual, A Força do Querer teria evitado seu próprio sofrimento

Estevam Avellar/TV Globo

Maria Clara Spinelli interpreta Mira, a falsa secretária cúmplice de Irene em A Força do Querer - Estevam Avellar/TV Globo

Maria Clara Spinelli interpreta Mira, a falsa secretária cúmplice de Irene em A Força do Querer

ODARA GALLO - Publicado em 24/09/2017, às 07h18

O drama de Ivana/Ivan (Carol Duarte) em A Força do Querer tocou particularmente uma atriz da trama: Maria Clara Spinelli. A intérprete de Mira é uma mulher trans e se emociona ao falar sobre a importância de abordar o tema em rede nacional. "Será que se minha mãe tivesse visto uma obra dessa eu teria passado por todo o sofrimento que eu passei?", questiona, com a voz embargada.

A atriz que dá vida à cúmplice de Irene (Débora Falabella) repete na trama das nove a parceria com a autora Gloria Perez, com quem trabalhou em 2013, como a Anita, de Salve Jorge. A personagem era uma transexual, assim como Janette, da série Supermax (2016), e Kelly, de Carcereiros (2017). Pela primeira vez, ela vive uma mulher cisgênero _quando a pessoa se reconhece no gênero atribuído no nascimento_ na teledramaturgia.

"Me senti realizada como atriz. Não porque eu ache que uma personagem tenha menos importância do que outra por ser trans ou cis, mas estou tendo a chance de mostrar que posso fazer qualquer personagem, fugindo de qualquer estereótipo que eu possa me enquadrar", comemora em entrevista ao Notícias da TV.

reprodução/tv globo

Em Salve Jorge, a atriz viveu Anita, do núcleo de mulheres traficadas criado por Gloria Perez

E é exatamente para fugir do rótulo que Maria Clara Spinelli procura preservar sua experiência como mulher que nasceu trans. No entanto, ela conta que dividiu com Carol Duarte algumas de suas experiências no início do trabalho e se emociona ao falar sobre o dilema que ela mesma viveu.

"É um marco na dramaturgia e, da maneira tão séria e bonita como está sendo feita, essa obra vai reverberar por muitos e muitos anos. Fico pensando: será que se minha mãe tivesse visto uma obra dessa, eu teria passado por todo o sofrimento que eu passei?", reflete.

Em 2016, Maria Clara Spinelli interpretou Janette, no thriller Supermax (Foto: Estevam Avellar/TV Globo)

"Fico emocionada em dizer isso, mas é verdade. A trama ajuda no momento em que traz luz a essa comunidade, dignidade a essa causa, a esse drama que é a transexualidade, e no momento em que traz esperança para essas famílias", completa.

"Me identifico muito com a história. É tudo muito bonito no texto, muito real. Fico muito feliz pela maneira como eu vejo Gloria retratando esse tema. Não só artisticamente, poeticamente, mas pela seriedade de pesquisa que ela fez para escrever a história da Ivana/Ivan", elogia.

Para a Mira da novela das nove, mostrar a transição do personagem de Carol Duarte não é a única conquista que as pessoas trans tiveram na novela. Ser chamada para interpretar uma mulher cis, sem chamar a atenção para o feito, também é uma vitória.

"Não só para mim pessoalmente, mas acho que para todas as artistas que vêm junto comigo. Independentemente de termos nascido cisgênero ou transexuais, nós somos artistas e podemos interpretar a vida humana, que é vasta e cheia de cores e diversidades. Eu fico muito feliz por ter a chance de mostrar a minha diversidade como atriz através das minhas personagens", afirma.

Fábio Rocha/tv globo

Débora Falabella (Irene) e Maria Clara Spinelli (Mira) nos bastidores de A Força do Querer

Com Irene até o fim
Mira é confidente e cúmplice de uma das vilãs da trama, serve mais para ouvir e dar conselhos para Irene, o que é um desafio para a atriz compor e dar personalidade à personagem.

"Fazer uma parceria com um grande personagem é algo muito desafiador que te puxa pra cima. Irene desperta amor e ódio pela fragilidade e ao mesmo tempo pela força e pela crueldade. Estar ao lado dela para uma personagem é um desafio para não ser esmagada", reconhece Spinelli.

"A Mira é o ponto de humanidade, é o que transforma a Irene em uma pessoa que consigue ainda olhar o outro. A Mira é muito importante nessa sobrevivência da Irene. Ninguém consegue mentir pra todo mundo o tempo inteiro", analisa a atriz.

O laço entre as personagens é tão forte que a intérprete da falsa secretária torce para que as amigas terminem a história juntas, na alegria ou na tristeza. "A Irene se abre para a Mira e gosta dela. Assim como a Mira também gosta da Irene e tenta trazê-la para a realidade. Seja qual for o fim das duas ou de uma, desejo que continuem juntas até o final", torce.


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