INTIMIDADE FUNCIONAL

Atores fazem treinamento íntimo antes de gravar novelas da Globo

Isabella Pinheiro/TV Globo

Camila Queiroz e Mateus Solano foram treinados para criar relação afetiva em Pega Pega - Isabella Pinheiro/TV Globo

Camila Queiroz e Mateus Solano foram treinados para criar relação afetiva em Pega Pega

MÁRCIA PEREIRA - Publicado em 08/06/2017, às 06h01 - Atualizado às 13h43

A intimidade revelada por Mateus Solano e Camila Queiroz logo nas primeiras cenas de Pega Pega não nasceu assim que o diretor da nova novela das sete gritou "ação". Os atores passaram quase dois meses em um treinamento específico para começar a gravar como se já fossem um casal extremamente apaixonado, que já se relacionava havia alguns meses.

Mas os dois não se conheciam até janeiro. "Criamos uma intimidade funcional, que a gente consegue acessar antes da cena. Isso é muito importante. A Globo está dando muito valor nessa preparação dos atores. Antes era: 'Oi, tudo bem? A gente vai fazer par romântico, né? Cena de beijo? Então vamos'. E a gente nem se olhava no olho. A gente só cumpria o papel. Então, tem sido muito bacana participar dessa transição da Rede Globo na forma de cuidar do trabalho dos atores", conta Solano.

Marcia Lins, gerente de desenvolvimento da Globo, afirma que esse tipo de treinamento é recente na emissora. Agora, diz ela, toda preparação de elenco trabalha principalmente as relações afetivas. "A partir de exercícios e jogos teatrais, buscamos afinar atores e personagens para que essas relações sejam verossímeis", diz a executiva.

O sucesso e a torcida por determinados casais, como acontece com Zeca (Marco Pigossi) e Jeiza (Paolla Oliveira) em A Força do Querer, serve de termômetro para o aperfeiçoamentos das técnicas usadas.

No caso de atores que já se conhecem há muito, como Vanessa Giácomo e Thiago Martins, que também farão par romântico em Pega Pega, a intimidade funcional os ajuda a eliminar vícios de expressão dessa convivência em outros trabalhos. 

Um dos profissionais por trás dessa nova política de preparação de atores da Globo é o cineasta argentino Eduardo Milewicz. Ele foi convocado para treinar o elenco de Império, em 2014. De lá para cá, preparou os intérpretes de Verdades Secretas (2015), Além do Tempo (2015), Totalmente Demais (2016) e A Força do Querer, além de Pega Pega. Milewicz deu a seguinte entrevista ao Notícias da TV:

Maurício Fidalgo/TV Globo

Zeca (Marco Pigossi) e Jeiza (Paolla Oliveira) fizeram preparação com Eduardo Milewicz

Quais diferenciais você prioriza em suas técnicas de preparação?
Meu trabalho é bem objetivo. Sempre com uma câmera e uma tela ligadas. Me interessa separar os conceitos: a construção de um personagem e a execução dessa construção. Meu foco está na atuação contemporânea. Com as mudanças significativas que ocorrem no terreno da interpretação audiovisual, desenvolvi um processo que traz algumas ferramentas cognitivas mas, sobretudo, é uma experiência e uma vivência.

Começamos com a imagem do ator. A imagem, no nosso processo, é uma construção de relacionamento. Como nos relacionamos com quem nos está olhando. O foco de uma preparação de elenco está em contagiar toda uma turma com as mesmas qualidades de interpretação. Não acredito no trabalho individual. Acredito em turmas. Atuar é para o outro e com o outro. 

Acredito que uma preparação é um espaço para errar, para sair da zona de conforto, para se esvaziar de tudo o que é velho, para começar zerado, veloz, ágil e leve. Atuar não é dramatizar, nem posar, nem telegrafar, nem vender, nem manipular, nem ilustrar, nem controlar. Atuar para uma câmera é habitar, e a sensibilidade é uma ferramenta poderosa. A construção de um dicionário em comum entre atores e diretores é parte da minha proposta de preparação.

estevam avellar/TV globo

Vanessa Giácomo e Thiago Martins fizeram casal em Império e voltam a ser um par romântico

Como a emoção, a paixão e a intimidade entre um casal são desenvolvidas? 
A atuação tem necessariamente a ver com a nossa condição de humano. Por mais que o audiovisual seja uma indústria, a atuação é sempre artesanal. No começo da preparação, damos muita importância ao subjetivo. Emoção, paixão e química são importantes para cada um dos atores, mas absolutamente irrelevantes num primeiro momento. O que me interessa é poder limpar e esvaziar todos os modos que o ator usa para "se defender" do impacto da câmera ou do ator com quem contracena.

As formas são inevitavelmente "viciadas" de expressão. Isso que o ator mostra no início do processo é uma máscara [um conjunto de hábitos motores automatizados]. Um ator é como um executante de alto rendimento. Tem que aprender a variar e limpar suas máscaras, a ser inesperado, incerto e misterioso. Os personagens vão nascendo de modo orgânico e sem que a gente controle. A intimidade é uma qualidade contemporânea da atuação.

Essa mudança não se dá por uma escolha estética do ator, do autor ou da direção, mas sobretudo por uma mudança no espectador. Quem constrói o personagem é o espectador, quem tem que se emocionar, sentir a química, se comover, odiar, querer, chorar, é o espectador. O ator é uma das ferramentas para alcançar essa ambição de sentido e expressão. 

Esse trabalho é diferenciado quando se tratam de mãe e filho?
Na verdade, o que acontece é que atuar é relação. Os vínculos são chaves em todas as narrativas. Mãe e filho são, entre outras coisas, contágio de gestos, atitudes, respiração, fala e movimentos. Enquanto nos ocupamos desse contágio, que pressupõe um foco cem por cento no outro, essa relação vai nascendo afinada e ao mesmo tempo verossímil na tela.

Raphael dias/tv globo

Eduardo Milewicz e Marcelo Serrado durante trabalho de preparação da novela Pega Pega

Muitos artistas contam que fazem preparação com terapeutas, investigando os perfis dos personagens. Isso contribui? 
Creio que a atuação é um terreno que se pode preencher com todas as disciplinas do humano. Nosso trabalho, hoje, se dá de um modo bastante objetivo. Se algo melhora a atuação, nós veremos isso na tela. E, se funciona na tela, é importante que seja incorporado. Do mesmo modo, o que não funciona, é prudente descartar. 

Tem um tempo de duração para ser realizada a preparação? Tem parte teórica e prática? Os textos dos autores das novelas são ensaiados?
A indústria audiovisual dispõe de duas marchas: rápida ou muito rápida. Preparamos uma novela entre duas a cinco semanas. Trabalhamos teoria e prática a cada dia. Trabalhamos com os roteiros, com as cenas, com referências audiovisuais, incorporamos palestras. Nosso processo é aberto a todos da equipe: figurinista, maquiadores, caracterizadores, cenógrafos e diretores.

Cada novela, cada série, cada filme, nos dá caminhos novos. A diferença do teatro, onde o texto se executa de um modo completo a cada apresentação, é que no audiovisual trabalhamos fragmentos. A cena tem que chegar bastante "virgem" ao momento da gravação. Por isso, o cuidado é não ensaiar de modo teatral, mas explorar, preparar.

A preparação persegue as dificuldades para fazer acontecer os erros durante o nosso trabalho para que eles não aconteçam na hora da gravação. Algumas vezes forçamos esse erro. Uma preparação não tem que fechar o sentido de uma cena, mas deixá-la disponível, incerta, afinada nessa incerteza.

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