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COLUNA DE MÍDIA

Opinião: Facebook acerta ao bloquear notícias, e Google 'paga' para fugir da briga

Reprodução/US Senate

Mark Zuckerberg depõe por chamada de vídeo ao Senado norte-americano

Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, durante depoimento ao Senado dos EUA; nova crise

GUILHERME RAVACHE

gravache@gmail.com

Publicado em 19/2/2021 - 6h45

Na quinta (18), o Facebook anunciou que os editores australianos não podem mais postar ou compartilhar conteúdo na plataforma e que os usuários do país não podem ver ou compartilhar notícias de qualquer lugar. A medida drástica tomada pela empresa de Mark Zuckerberg é um protesto contra uma nova lei australiana que deverá ditar como as empresas de tecnologia pagam aos editores pelo conteúdo de notícias.

O Google também se opõe à lei mas, em um movimento diferente, optou por pagar milhares de dólares aos publishers locais em um acordo sigiloso, se adiantando ao lançamento da nova lei na Austrália.

A implementação das restrições às notícias no Facebook não foi fácil. Várias páginas do governo australiano que oferecem conselhos de saúde pública sobre o coronavírus, instituições de caridade e a própria página do Facebook no país foram acidentalmente restringidas quando a proibição entrou em vigor.

O Facebook, por sua vez declarou à CNBC: "Como a lei não fornece orientações claras sobre a definição do conteúdo das notícias, adotamos uma definição ampla a fim de respeitar a lei conforme redigida. No entanto, reverteremos todas as páginas que foram afetadas inadvertidamente".

Já o governo intensificou os ataques à rede social, dizendo que não será intimidado por uma big tech.

reprodução/mashable

Até página do Facebook na Austrália foi bloqueada

Pode parecer que o Facebook é o vilão da história. Mas não é. A nova lei australiana é ruim, confusa e basicamente beneficia barões da mídia como Rupert Murdoch, que nem precisa de apoio, visto que suas operações lucram milhões de dólares anualmente. 

Principalmente, a lei não é sobre pagar por conteúdo jornalístico, e Google e Facebook não se opõem a desembolsar verbas pelo jornalismo. O Google planeja gastar mais de US$ 1 bilhão com notícias no próximo ano por meio do Google News Showcase, uma guia no Google Notícias que contém conteúdo licenciado de parceiros oficiais e outras iniciativas. O Facebook também repassa milhões de dólares a publishers todos os anos.

O problema da lei australiana é que ela coloca nas mãos do governo a possibilidade de escolher os vencedores na imprensa e mata o jornalismo independente. Além disso, exige pagamento para postar links (mas, se iremos cobrar por links de jornalismo, por que não por qualquer tipo de link?). Basicamente, ela interfere na maneira como o conteúdo é compartilhado livremente nas redes, uma das bases da internet como a conhecemos. 

O jornalista Jeff Jarvis, respeitada voz no setor de mídia e tecnologia, coloca o problema da seguinte maneira: "Primeiro, o Google: o que o pagamento do Google à News Corp. demonstra é que a chantagem na mídia funciona. Mesmo que não seja um pagamento para pagar diretamente pelos links, esse ainda é um precedente terrível para a rede e sua arquitetura e ética. Ninguém, nem o Google, nem você ou eu, deve ser pressionado a pagar por links para conteúdo. Isso, como disse Sir Tim Berners-Lee às autoridades australianas, quebra a web. Eu teria esperado que o Google tivesse defendido os princípios -- isto é, a rede aberta. Por um lado, eles não estão pagando pelos links em si. Mas eles ainda pagaram ao diabo Murdoch. Eles cederam".

Também é interessante notar o papel dos políticos australianos na discussão. Ao criarem uma lei inaceitável, forçaram o Google a pagar para contornar a lei. O problema é que este dinheiro não está indo para os contribuintes australianos ou apoiando o jornalismo independente. O maior beneficiário do acordo é o magnata Rupert Murdoch, que controla 70% da mídia da Austrália e lucrou US$ 263 milhões (R$ 1,4 bilhão) no último ano.

O Facebook, por outro lado, optou pelo caminho difícil e aceitou o dano à imagem. Para Jarvis, existem duas interpretações. "O positivo é que o Facebook se manteve fiel ao princípio, decidiu não ceder à chantagem de Murdoch (ou não, já que Zuckerberg já apresentou um cheque para Robert Thomson, da News Corp. em Nova York, um ano atrás) e defendeu a santidade do link na web. A interpretação cínica é que as notícias são uma dor de cabeça para o Facebook, e este momento permite que eles voltem a um Facebook dedicado a cachorros, festas e sexo".

Notícias representam menos de 4% do tráfego do Facebook. No Google, menos de 2% das buscas. Porém, como as publicações australianas também não poderão postar notícias no Facebook, o resto do mundo não verá nenhuma notícia do país na rede social. Segundo a empresa de mensuração Chartbeat, o tráfego vindo de fora da Austrália já caiu 20% para os publishers; o tráfego interno, mais de 10%. 

Essa discussão é fundamental, porque mais países e políticos têm manifestado interesse em interferir na relação das empresas de tecnologia com a imprensa, mas também com o próprio funcionamento da internet. No Brasil não é diferente. 

Alguns, como Will Oremus, do OneZero, notaram que remover fontes de notícias de alta qualidade do Facebook provavelmente significará um impulso para postagens de blog de baixa qualidade e memes.

Existe ainda uma chance de as pessoas se darem conta do real valor do conteúdo de qualidade e talvez até voltarem a frequentar os sites dos veículos de mídia tradicionais. A probabilidade é baixa, mas nesse caso, a decisão do Facebook terá sido ainda mais acertada. 

Porém, como notou Casey Newton no Platform, "gostaria que a Austrália interpretasse a rejeição do Facebook como um sinal de que deveria repensar totalmente sua abordagem à regulamentação da mídia. Ela poderia apenas tributar as empresas com base em suas receitas, por exemplo. Isso poderia destinar essas receitas ao apoio ao jornalismo --até mesmo à mídia pública sem fins lucrativos, que consistentemente demonstrou ter poderosos benefícios cívicos. Ou poderia seguir um código de negociação que exige que grandes conglomerados de mídia criem e apoiem empregos no jornalismo, em vez de simplesmente aceitar dezenas de milhões de dólares e gastá-los como quiserem --ou simplesmente devolvê-los aos acionistas".

Infelizmente, a decisão do Google de ceder à pressão de políticos e magnatas da mídia sinaliza para o restante do mundo que a fórmula funciona. Aguarde mais movimentos neste sentido. Quem perde é o jornalismo. 


Este texto é argumentativo e não expressa necessariamente a opinião do Notícias da TV. A Coluna de Mídia é publicada toda quinta-feira --excepcionalmente, ela ganha uma edição extra nesta sexta (19).


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