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COLUNA DE MÍDIA

Interferência de governos no Google e Facebook é má notícia para o jornalismo

REPRODUÇÃO/FACEBOOK

CEO do Facebook, Mark Zuckenberg em evento de 2017: de camiseta cinza, o homem olha para a plateia de sua palestra

CEO do Facebook, Mark Zuckenberg em evento de 2017: rede social se posicionou sobre jornalismo

GUILHERME RAVACHE

gravache@gmail.com

Publicado em 28/1/2021 - 6h45

Na semana passada, o Google ameaçou sair da Austrália e interromper suas operações no país. Uma proposta de lei dos legisladores australianos, caso aprovada, exigirá que a ferramenta de buscas e o Facebook paguem para exibir notícias nos resultados das procuras.

E aqui o ponto de discórdia não parece ser pagar pelas notícias. O Google há anos gasta milhões em parcerias com veículos de mídia e subsidia ferramentas para publishers, como e-mail e armazenamento de imagens. E, recentemente, também aceitou pagar por conteúdo na França e afirmou que toparia abrir a carteira pelas notícias na Austrália.

O problema no país dos cangurus é outro. A lei de mídia proposta forçaria as empresas de tecnologia a negociarem com as empresas de mídia pagamentos para visualização e links para seu conteúdo.

Caso Google e publishers não cheguem a um acordo, um regulador do governo intervirá para definir as taxas. Ou seja, o Google quer ter o poder de negociar diretamente com os publishers, sem interferências do governo.

"Esse acordo é insustentável", disse Mel Silva, chefe do Google na Austrália e na Nova Zelândia, em depoimento preparado antes de uma audiência na sexta-feira (22). "O princípio da vinculação irrestrita entre sites é fundamental para a web. Isso não nos daria nenhuma escolha a não ser parar de disponibilizar a pesquisa do Google na Austrália", continuou. O Google também publicou um texto (em inglês) defendendo sua posição.

Durante a audiência, os representantes do Facebook também reiteraram uma ameaça anterior de que eles poderiam bloquear os usuários no país de postarem links de notícias se a lei continuasse inalterada.

O governo australiano argumenta que o poder do Google, do Facebook e de outros gigantes da tecnologia está fora de controle e que eles construíram uma boa parte de sua riqueza com práticas monopolistas e o trabalho da mídia de notícias que exploram sem compensação justa.

Alega ainda que o Google não apenas fornece links, mas também os monetiza anunciando neles e ao redor deles, ganhando dinheiro colhendo dados valiosos sobre as pessoas que os usam. Assim, a mídia de notícias do outro lado do link deve ser parte interessada em como os espólios são divididos.

A ofensiva total contra as big techs pode ser justificada --pelo menos até certo ponto--, mas dependendo da maneira como os governos agirem, o resultado poderá ser pior do que o problema. 

REPRODUÇÃO/YOUTUBE 

Mel Silva encabeçou vídeo sobre o tema 

Mitos da mídia, Google e Facebook

O Google e o Facebook não estão presentes na China, de onde saíram há alguns anos para não ceder às exigências do governo (e em certa parte pela concorrência local ser extremamente efetiva). Mas a Austrália é um caso bastante diferente, já que o Google tem 94% das buscas no país, e o Facebook é a rede mais usada.

À primeira vista, pode parecer justo o pedido da combalida mídia que sofre com o digital. Mas algumas questões colocam em dúvida essa narrativa das big techs como vilãs do jornalismo. 

Primeiramente, uma pergunta prática. Se o governo passar a decidir quanto cada grupo de mídia deve receber, como assegurar que ele não irá beneficiar os mais favoráveis ao governo e prejudicar os opositores?

Segundo, por que se limitar à indústria de mídia e não intervir em outras indústrias? Se os hotéis são prejudicados pelo Airbnb, então pode-se criar uma taxa do Airbnb e repassar para os hotéis, não?

Mas, se o mesmo princípio se estender a outros setores, a livre iniciativa será destruída, e o maior prejudicado será o consumidor, que terá de pagar mais por um serviço e subsidiar os ineficientes.

Terceiro, o argumento de que muitos veículos de mídia fecharam por causa do digital é fato. Mas milhares de empresas fecham todos os anos à medida que novos empreendimentos mais eficientes tomam seu lugar. É a Destruição Criadora de Schumpeter (1883-1950). Tentar evitar o ciclo de inovação é terrível em médio e longo prazo e destrói a competitividade nos setores.

Quarto, dizer que a mídia impressa entrou em declínio por causa do Google e Facebook é uma falácia. Jornais vinham perdendo share de publicidade desde 1950, como mostra Benedict Evans. E como escreve Frederic Filloux, os grandes grupos de mídia passaram décadas em negação e não modernizaram seus negócios diante do crescimento do digital. 

Quinto, hoje é clara a "vantagem" que grandes grupos de mídia têm ao acesso das verbas de apoio ao jornalismo. Também levam vantagem na corrida pelos assinantes, já que a prática demanda grandes investimentos e expertise.

À medida que o Google e o Facebook se vejam forçados a seguirem os desígnios governamentais, dificilmente pequenos grupos de mídia ou o jornalismo local seriam beneficiados. E hoje os pequenos são os mais prejudicados.

Finalmente, é discutível dizer que, quando um grande grupo de mídia fecha, a sociedade ou o jornalismo sai perdendo. A sociedade fica pior quando o jornalismo piora, é fato. Porém, hoje há um grande número de jornalistas independentes e jovens grupos de mídia fazendo um trabalho brilhante. A saída de grupos de mídia ineficientes do mercado o torna mais saudável ao liberar verba e leitores para iniciativas mais eficientes.

Por sinal, é interessante notar como a discussão em torno da defesa do jornalismo não raro é sequestrada e se torna um debate sobre como subsidiar grandes grupos de mídia de legado. Não surpreende, visto que a mídia historicamente é próxima dos governos e políticos, não raro dividindo interesses.

Consequências não intencionais

Não surpreende que a postura da Austrália seja festejada por muitos jornalistas, particularmente a velha-guarda dos tradicionais grupos de mídia. Mas este grupo parece esquecer da Lei das Consequências Não Intencionais (Unintended Consequences Law). 

Ela diz respeito a como a interferência governamental ou de grupos específicos pode ter efeitos inesperados. Normalmente, se refere a uma lei econômica que distorce o comportamento do consumidor ou do produtor de uma forma não imaginada.

Por exemplo, uma lei pode ser implementada com as melhores intenções de se resolver um problema. Mas, se houver consequências não intencionais, a mudanca pode causar problemas ainda maiores. 

Por exemplo, a proibição nos Estados Unidos da década de 1920, promulgada para suprimir o comércio de álcool, tirou do mercado pequenos fornecedores e consolidou o domínio do crime organizado em grande escala sobre a indústria ilegal. Como o álcool ainda era popular, as associações criminosas que o produziam eram bem financiadas e, portanto, também aumentaram suas outras atividades. 

Outro exemplo são governos estabelecendo subsídios para produtores rurais. A CAP (Política Agrícola Comum) da União Europeia é um sistema de subsídios que introduziu um preço mínimo para os agricultores. O objetivo era aumentar a renda dos agricultores.

No entanto, os legisladores não perceberam que um preço mínimo garantido criaria um incentivo para o aumento de produção, causando também o aumento de excedente. Esse, por sua vez, forçou a queda dos preços. Ou seja, os produtores no final passaram a receber menos do que ganhavam, porque em um dado momento a conta se tornou inviável até para o governo.

A CAP também exigia tarifas de importação, e isso gerava disputas comerciais com economias em desenvolvimento. Hoje, os problemas da agricultura europeia são notórios, particularmente por sua baixa produtividade em algumas regiões que não se modernizaram e são incapazes de competir com regiões mais produtivas.

Existe ainda a questão moral da prática de subsídios ao prejudicar as economias de países mais pobres e dependentes da agricultura. E esse é o risco para uma mídia subsidiada, ela se tornará cada vez mais dependente de terceiros.

Para piorar, pela proposta da Austrália, esse terceiro seria o governo. Imagine algo semelhante em países com instituições governamentais menos sólidas. 

Não existe uma resposta fácil para a manutenção do jornalismo de qualidade em tempos digitais, mas a solução está em mecanismos que criem uma mídia menos dependente de subsídios e da influência governamental, não o contrário. Grupos de mídia devem depender dos próprios usuários, não do Google, do Facebook ou de qualquer organização com interesses diversos. 


Este texto é argumentativo e não expressa necessariamente a opinião do Notícias da TV. A Coluna de Mídia é publicada toda quinta-feira.


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