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COLUNA DE MÍDIA

Globo lucra R$ 1,3 bilhão em três meses, mas Copa pode virar problema

Reprodução/YouTube

Manuel Belmar, diretor-geral de finanças da Globo

Manuel Belmar, diretor-geral de Finanças da Globo: lucro de R$ 1,3 bilhão no primeiro trimestre

Guilherme Ravache

gravache@gmail.com

Publicado em 19/4/2022 - 10h09

Se tudo correr conforme os planos da Globo, este ano marcará uma nova fase nos resultados financeiros da empresa. Após fechar 2021 com um prejuízo de R$ 173 milhões em decorrência de custos com competições esportivas canceladas e outras despesas relacionadas à pandemia, a emissora planeja voltar a operar no azul a partir de 2022.

A Globo fechou os três primeiros meses deste ano com um lucro líquido de R$ 1,3 bilhão. O crescimento de 17% da receita de publicidade e o corte de custos de 20%, em comparação ao mesmo período do ano anterior, ajudam a explicar o aumento do lucro. 

O caixa da empresa ultrapassou R$ 15 bilhões em janeiro, valor quase três vezes maior que a dívida, e o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) deve alcançar R$ 590 milhões no trimestre.

Globoplay segue crescendo

O portfólio digital segue como destaque da companhia. Apenas no mês de fevereiro, a base de assinantes do Globoplay teve um salto de 20% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Em um mundo onde o digital tem destruído valor em empresas tradicionais, e há mais histórias de fracasso do que sucesso em projetos de transformação, a Globo está se tornando uma raridade e tem despertado o interesse de analistas de mídia e até competidores fora do Brasil.

Quando os grandes bancos internacionais querem entender a estratégia do grupo brasileiro de mídia que está conseguindo sobreviver ao Google e ao Facebook na publicidade, e ainda dá trabalho para a Netflix e Disney no streaming, é com Manuel Belmar, diretor-geral de Finanças da Globo, que os analistas querem conversar.

Os resultados do primeiro trimestre foram adiantados ao Notícias da TV por Belmar em uma entrevista na qual o executivo fala das mudanças na Globo, da manutenção da estratégia de otimização de recursos, do risco da Copa do Mundo para os resultados financeiros da empresa, da disciplina para manter o foco na estratégia e de quais os próximos passos para a Globo seguir concorrendo com os gigantes de tecnologia.

Notícias da TV - A julgar pelos números deste trimestre, quem ainda diz que a Globo vai falir ficará bem irritado. O que explica esse resultado?

Manuel Belmar - Tivemos um impacto muito severo em 2020 com a pandemia. Em 2021 começamos a nos preparar para um ano já sem pandemia. O que venho dizendo ao mercado é que, uma comparação melhor do que a Globo era e do que a Globo é, só poderia começar a ser feita a partir de algum momento em 2022, sem a contaminação de 2020 ou 2021, quando os altos custos da pandemia impactaram os resultados.

Por que o resultado melhorou tanto?

Crescemos 12% as receitas, sendo que com aumento de 17% em publicidade. É uma prova da força dos nossos veículos para as marcas e anunciantes. O projeto UmaSóGlobo foi enorme e buscamos sinergias e otimização em todo o grupo. Temos um negócio muito intensivo em custos e capital, principalmente em um momento de virada de negócios como estamos fazendo. 

Qual o tamanho do corte de custos com esse processo?

Alcançamos uma redução de custos de 20%, e isso em um período de aumento da inflação, o que na prática significa que o corte foi ainda maior. Por outro lado, essa base é comparada ao período daqueles R$ 500 milhões de direitos esportivos que pagamos no primeiro trimestre de 2021. Mas a redução de custos também está relacionada a uma maior seletividade na escolha dos direitos esportivos que nos comprometemos a monetizar de uma maneira saudável e de longo prazo.

Com esse resultado, a Globo voltará a investir em grandes competições?

O plano não muda. Nosso objetivo é seguir fechando negócios de maneira rentável para a Globo. Queremos os principais campeonatos e competições esportivas, mas não faremos negócios que percam dinheiro.

O fim dos contratos fixos e demissões geraram polêmica. Agora outras empresas adotaram o modelo. Algo muda nessa área?

Seguimos com esforços dentro das estruturas de custos fixos, com pessoas e talentos. Sempre de maneira transparente e buscando harmonia. Os novos tempos nos empurram para uma necessidade de otimização e busca de novos modelos de relacionamento. À medida que o tempo vai passando, colheremos mais frutos dessas iniciativas. 

A expectativa é fechar todos os trimestres de 2022 com lucro?

Devemos ter um aumento de despesas com futebol no segundo trimestre, mas também crescem as receitas. Nossa grande preocupação é com o último trimestre e a Copa do Mundo de futebol. Quando compramos a Copa, que é um direito muito caro, jamais sonhamos que ela seria no Catar e em novembro. A expectativa era ser em junho.

O último trimestre é um mês que tradicionalmente já existem muita publicidade, então há risco da Copa rivalizar com outras campanhas publicitárias de final de ano. Isso pode reduzir a receita geral. Mas podemos ter uma campanha muito boa da Seleção Brasileira e estamos trabalhando com os anunciantes. Fora isso, a expectativa é de um ano positivo. Existe ainda chance de algum revés desconhecido da guerra na Ucrânia, uma espiral inflacionária, além do quadro político.

Como a disputa presidencial pode impactar a Globo? Há risco com relação à renovação da concessão?

A depender do cenário eleitoral, o mercado pode apontar para um lado ou outro. Ainda é incerto para onde irá. Sobre a concessão, cumprimos todos os requisitos. Não há nenhum obstáculo do ponto de vista de regulação e legislação. Não é algo que frequente nossa agenda de preocupações.

Por que a Globo nos últimos anos criou um caixa tão alto, muito acima da média do setor?

Em janeiro chegamos a R$ 15 bilhões de caixa. Nesse valor já entra a venda da Som Livre, aprovada pelo Cade somente neste ano. Optamos por uma estrutura de capital muito conservadora. Sabíamos que nossas margens de dois dígitos, margens muito altas no passado, ficariam estreitas por conta dos altos investimentos em tecnologia que faríamos. O caixa é uma decisão dos acionistas. Queríamos fazer essa transformação com tranquilidade.

Outro ponto é estarmos atentos para oportunidades que surjam dentro do negócio, mas também para compras e aquisições. Nosso caixa permite uma transição sem sustos.

O dólar caiu, como isso impacta a dívida da Globo?

A queda do dólar reduziu nossa dívida de R$ 6 bilhões para R$ 5 bilhões. Isso dá uma dimensão do impacto. Um dólar na faixa de R$ 4,70 a R$ 5 aumenta a confiança no país, ajuda a reduzir a inflação e, combinado a uma retomada econômica, pode ser muito positivo mais adiante.

Pantanal parece ser uma novela mais cara que a média. Como ela se encaixa nessa estratégia de otimização de custos?

Pantanal tem uma complexidade de produção natural, tem muitas cenas externas. Tem padrão de qualidade extraordinário, mas isso é o que a gente é. Não estamos gastando muito mais em Pantanal do que gastamos em produções recentes ou gastaremos em produções futuras.

Vivemos dois anos de pandemia, com muitas reprises, foi um período atípico. Tivemos a alta dos custos de produção por causa da Covid-19, com rígidos regimes de testes e despesas adicionais. Aos poucos esses custos começam a ser normalizados. Mas acreditamos que alguns de nossos produtos têm de ser superiores e não vamos poupar esforços e investimentos para isso.

Como essa filosofia de qualidade e busca por controle de custos convivem?

A verdade é que estamos aprendendo a fazer mais com menos. Planejamos muito mais, temos mais harmonia entre as áreas, por exemplo. Nos tornamos mais eficientes, mas manteremos nosso compromisso histórico com a qualidade. Sempre digo que qualidade não é sinônimo de dinheiro e nem vice-versa. Qualidade também é ser criativo e conseguir inovar. Investindo um pouco mais ou menos, na média temos conseguido fazer isso e criar grandes produtos.

O que muda com a chegada do Paulo Marinho à presidência da Globo?

Vemos como continuidade. Nosso plano de negócios é robusto e requer um esforço grande de capital e de tempo. O Paulo está comprometido com essa estratégia desde que ela foi delineada e ele tem sido também um articulador dessa visão. Era uma transição esperada e que dá mais dinamismo, mantém a convergência de visões, com disciplina de custo e seletividade em nossas escolhas.

Qual é o futuro da mídia tradicional? Os concorrentes da Globo não apostam tanto no digital e streaming.

Houve muita matéria sobre aceleração digital dizendo que a mídia tradicional ia ficar para trás, mas hoje a Globo é uma plataforma digital também. Não há nem sentido em falar em mídia tradicional e digital no nosso caso. E isso é o que direciona os nossos investimentos.

Temos de estar preparados para entregar as mesmas soluções históricas que oferecemos, mas agora também no ambiente digital. Nossos anúncios já tem dynamic ad insertion, isso significa que cada publicidade, mesmo da TV, pode ser direcionada a um público específico da mesma maneira que acontece no digital.

A Netflix anunciando em Pantanal chamou a atenção…

Muitos de nossos anunciantes são empresas digitais. Investimos muito em tecnologia. A tecnologia nos aproxima dos anunciantes e isso nos dá tranquilidade para sabermos que estamos no caminho certo. É caro, é demorado, mas é o caminho que temos de seguir para estarmos presentes no futuro, seja ele qual for.

No exterior, vemos empresas de mídia começando uma caminhada para evoluir de mediatech, como é a Globo atualmente, para lifestyle ecosystem, tentando estar presentes no dia a dia dos consumidores. É o plano da Globo?

Particularmente gosto do conceito, mas temos de ter o pé no chão. Seria uma derivação natural dessa maior proximidade que estamos buscando com o consumidor. Mas ainda estamos construindo essa relação. Nosso foco ainda está muito no que precisamos fazer para finalizar o processo atual. Estamos construindo as bases da estrutura para estarmos mais presentes na vida dos consumidores no futuro.


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