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A CAMINHO DA LUA

Netflix copia Disney, mas esquece 'lição de casa' do próprio catálogo

REPRODUÇÃO/NETFLIX

Frame da animação A Caminho da Lua em que a protagonista Fei Fei segura um ramo com três flores rosas e olha em direção ao espectador

Fei Fei durante um dos números musicais de A Caminho da Disney; fórmula baseada na Disney

DANIEL FARAD

vilela@noticiasdatv.com

Publicado em 31/10/2020 - 6h45

O sonho de abocanhar mais um Oscar levou a Netflix a estudar o passo a passo dos filmes da Disney para entrar com tudo na disputa pela estatueta de melhor animação. A Caminho da Lua aposta alto na fórmula consagrada pela concorrente, mas esquece que a originalidade pode ser um dos pontos de desempate na briga pelo prêmio --a exemplo de A Viagem de Chihiro (2001), que arrebatou a crítica com o estilo único de Hayao Miyazaki.

O serviço de streaming parece já ter encontrado um estilo próprio quando se fala em séries originais, mas a história de Fei Fei mostra como a área de animação ainda precisa avançar em passos largos. A jornada da menina para a lua deixa o telespectador com uma sensação de déjà vu.

Em luto pela morte da mãe, e revoltada com a chegada de uma madrasta, a garota parte para o satélite natural a fim de provar ao pai que a história de amor eterno de Chang'e é verdadeira. A deusa lunar, que realmente existe na mitologia chinesa, mostraria que o voto feito pelo patriarca durante o seu casamento anterior é irrevogável até a sua morte.

A história parece "diferentona", mas a fórmula é bem parecida com o processo de amadurecimento dos protagonistas de Divertida Mente (2015) e Viva: A Vida É uma Festa (2018). Uma sensação que é ressaltada pela direção de Glen Keane, que participou de clássicos como A Bela e a Fera (1991).

A estrutura Disney fica ainda mais óbvia com a presença de uma canção chiclete. Só que Vou Voar, na voz de Priscilla Alcântara, não chega a empolgar como Livre Estou de Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) ou Saber Quem Sou de Moana: Um Mar de Aventuras (2017).

Exame de DNA

O coelho branco de A Caminho da Lua também resgata a figura do ajudante que, apesar de não ter sido criada por Walt Disney (1901-1966), resultou em alguns dos mascotes mais populares da companhia, como o Mushu de Mulan (1998) e a Dory de Procurando Nemo (2003)  --esses seres meio atrapalhados são inspirados nos gehilfen da literatura judaica.

Em suma, o longa da Netflix vai ter que ser mais Disney do que a própria concorrente para ganhar os jurados em uma eventual competição. A seu favor, a produção é bem-feita e tem seus méritos. Apesar das semelhanças, passa bem longe de ser uma cópia tão descarada e tosca quanto Ratatoing (2007) e Os Carrinhos (2006), da brasileira Vídeo Brinquedos.

Nem por isso, o caminho à estatueta deixa de ser complicado, principalmente por ignorar uma lição que está escondida no catálogo da própria Netflix: os 21 filmes do Studio Ghibli, incluindo o único longa-metragem em língua estrangeira a levar o Oscar de Melhor Animação.

A Viagem de Chihiro apresentou a um novo público o trabalho de Miyazaki e seus colegas de estúdio, que têm obras como Porco Rosso (1992), O Serviço de Entregas da Kiki (1989) e Nausicaä do Vale do Vento (1984) na plataforma. Além de Hollywood, a produção passou por festivais prestigiados como Cannes, Veneza e Berlim.

Muitas de suas histórias podem parecer estranhas ao gosto ocidental, caso de Meu Amigo Totoro (1988), em que muitas vezes a ação dá lugar a momentos de pura contemplação, inspiradas no zen de Yasujiro Ozu (1903-1963) --como as irmãs Mei e Satsuki esperando o pai debaixo de um temporal ao lado do ser mágico que dá nome à produção.

O estranhamento logo dá lugar ao encanto por figuras como Sem Face, um espírito errante que acompanha Chihiro em sua jornada, cuja personalidade é influenciada pelo comportamento das pessoas ao seu redor. O resultado é um conjunto único, que faz seus filmes se tornarem clássicos da animação tão fortes quando A Branca de Neve (1937).

Confira o trailer de A Caminho da Lua:


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