TENSÃO NOS BASTIDORES

Funcionários da Globo preveem até 2.500 demissões com unificação

João Cotta/TV Globo

Jorge Nóbrega, presidente executivo da Globo, anuncia novo modelo de operação das empresas do grupo

Jorge Nóbrega, presidente executivo da Globo, anuncia novo modelo de operação das empresas do grupo

DANIEL CASTRO - Publicado em 11/11/2019, às 05h26

Aumentou a tensão nos bastidores da Globo com a divulgação, na última sexta-feira (8), de um novo modelo de gestão e produção que entra em vigor em janeiro. Dentro do projeto Uma Só Globo, serão fundidas em uma só empresa, a TV Globo, todos os canais pagos da Globosat, a plataforma Globoplay, a Globo.com e a Som Livre. Funcionários estimam que essa "fusão" irá causar cerca de 2.500 demissões.

O número foi o obtido pelo Notícias da TV junto a fontes que tiveram acesso a informações privilegiadas sobre o processo de reestruturação do maior grupo de mídia eletrônica do país, com um faturamento de R$ 15 bilhões no ano passado, realizado em parceria com a consultoria Accenture.

Segundo um ex-executivo do primeiro escalão da Globo, apesar de parecer exagerado e alarmista, o número faz sentido. Ele seria possível com a redução de postos de trabalho devido à eliminação de estruturas redundantes. Na nova configuração, por exemplo, haverá um só departamento de recursos humanos para todas as empresas integradas. E 2.500 demissões representam "só" 16,7% dos 15 mil funcionários da Globo.

A Comunicação da Globo refuta o corte de 2.500 vagas. Mas admite que haverá demissões. "Todas as grandes empresas modernas passam por processos na busca de eficiência e evolução constante e, nesse contexto, é natural que se façam ajustes. Na Globo não é diferente", diz a emissora em nota.

As demissões já vêm ocorrendo há alguns meses, aumentando o clima de insegurança nos bastidores. Na semana passada, foram cerca de 300 somente nos Estúdios Globo, antigo Projac, no Rio de Janeiro. Novos cortes são esperados nas próximas semanas, de forma pulverizada. Os profissionais mais afetados serão aqueles que desempenham funções de atividade-meio, como administrativas e jurídicas.

Autores e diretores não correm risco de demissão

De acordo com uma alta fonte na emissora, atores, autores e diretores de novelas e séries, além de jornalistas, não correm riscos. A emissora irá manter diretores e autores de novelas que passam anos sem um produto no ar. Portanto, as saídas de Rogério Gomes, o Papinha, e de Denise Saraceni não passam de boatos.

Essa regra já não vale para atores pouco produtivos. No ano passado, a emissora dispensou Malu Mader, após de 35 anos de casa, boa parte deles como estrela do primeiro time. Quem não aceita qualquer trabalho e quer se dedicar ao cinema não tem tido contrato renovado e passa a trabalhar por obra certa, casos recentes de Bianca Bin e Bruno Gagliasso.

No Jornalismo, os cortes têm sido pontuais. O que tem trazido intranquilidade nesse departamento são renegociações de contratos de pessoa jurídica (PJs). Apresentadores contratados como empresas estão sendo registrados como celetistas. Alguns perderam rendimento bruto. Todos perderam a estabilidade que um contrato por tempo determinado trazia.

Com menos funcionários, a Globo ocupará menos espaço. Seu departamento de patrimônio trabalha em um estudo de realocação de pessoal. No Rio de Janeiro, um prédio deverá ser esvaziado. Em São Paulo, o fim do contrato de locação de parte do prédio da TV Gazeta gerou uma economia mensal de R$ 800 mil --e uma séria crise na emissora local.

O objetivo disso tudo é reduzir custos, aumentar a rentabilidade e tornar a Globo mais competitiva em um cenário que inclui gigantes como Google, Facebook, Amazon, Disney e Netflix. Nos últimos dois anos, os custos de produção e gestão da TV Globo foram maiores do que suas receitas líquidas. A emissora só não teve prejuízo por causa de receitas com investimentos financeiros.

Em agosto, na inaguração de um novo complexo de estúdios, Jorge Nóbrega, o presidente dessa Uma Só Globo, disse que o grupo continuará sacrificando resultados para se preparar para o futuro. No ano que vem, investirá R$ 1 bilhão no Globoplay e em tecnologia. Espera que sua plataforma de streaming dobre o número de assinantes.

A Globo aposta todas as suas fichas no Globoplay. Não apenas para competir com a Netflix, mas como uma tecnologia que irá aos poucos substituir a transmissão de TV aberta convencional. Daqui alguns anos, não fará mais diferença se o sinal chega ao telespectador pelo ar ou por fibra ótica.

As pessoas assistirão a Globo por meio do aplicativo, e isso impactará em seu modelo de negócio, porque ela terá muito mais informações sobre o telespectador. Já está em estudo uma tecnologia que permitirá veicular nos intervalos comerciais anúncios diferentes para usuários de perfis diferentes, como já ocorre na web.

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Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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