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ANÁLISE

Série nacional da Netflix, Spectros americaniza São Paulo com narrativa pobre

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Drop Dashi, Mariana Sena, Enzo Barone, Danilo Mesquita e Claudia Okuno em imagem promocional da série Spectros

Drop Dashi, Mariana Sena, Enzo Barone, Danilo Mesquita e Claudia Okuno, da série Spectros

HENRIQUE HADDEFINIR - Publicado em 27/02/2020, às 04h57

Descrita como "uma nova produção de terror da Netflix gravada no Brasil", Spectros consegue com essa única frase sua maior justificativa para existir. O uso do bairro da Liberdade, em São Paulo, é uma leve desculpa para a condução de uma história ruim, escrita por um americano, sobre jovens envolvidos com o sobrenatural.

O nome principal nos créditos é Douglas Petrie, que tem no currículo passagens por séries como Os Defensores (2017), Demolidor (2015-2018) e até CSI (2000-2015). Seu principal trabalho, contudo, foi na atração adolescente Buffy, A Caça-Vampiros (1997-2003), que lá na década de 1990 também mostrava adolescentes em idade escolar correndo por aí atrás de monstros.

Essa referência é importante, já que tudo sobre Spectros quer colocá-la em um lugar de reconhecimento do público. Ela deseja atrair quem curte cultura japonesa, fãs de adolescentes que lidam com sobrenatural, quem gosta de histórias de horror... E tudo, absolutamente tudo, está envolto em uma identidade americanizada.

O protagonista é Pardal, vivido por um Danilo Mesquita que leva a sério a proposta, mesmo que ela não tenha nenhuma seriedade. Ele vive muito mal com o irmão mais novo em uma ruela e, metido em pequenos crimes, vai parar no meio de uma história fantástica que envolve o passado mais remoto e sombrio do bairro.

Ao lado dele estão Mila (Cláudia Okuno), Carla (Mariana Sena) e Zeca (Drop Dashi), que circulam pelo bairro atrás das explicações para o que está acontecendo. O desperdício de talento chega ao limite quando temos Kelzy Ecard, Miwa Yanagizawa e Carlos Takeshi escalados para personagens que não estão à altura de suas carreiras no cinema e na televisão.

É difícil para atores, de qualquer geração, trabalhar com as imensas limitações textuais de Spectros. O texto é raso, frio, como se tivesse sido traduzido do inglês para o português sem um pingo de contextualização ou de verdade. Não há direção de interpretação, e tudo parece ensaiado, mecânico, dublado.

O cenário é a Liberdade, mas a sedutora ideia de ver a cidade ser escalada de verdade para a narrativa fica pelo caminho. A série tem planos fechados, não explora seus ambientes e inventa uma mitologia sobre necromancia (setor da bruxaria que ressuscita mortos) para justificar pessoas andando como zumbis pelas ruas.

A edição tenta estilizar ao máximo o produto final, com um filtro de imagem específico e caracteres japoneses se sobrepondo em todas as legendas e créditos, mas o roteiro é tão óbvio e cheio de frases feitas que a vibe Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986) se transforma numa paródia ruim, com efeitos especiais medianos e a narração infantiloide de uma fantasma japonês que flutua na tela.

Ao passo em que a narrativa avança, a sensação de constrangimento aumenta. O didatismo com o qual o enredo se desenvolve esvazia qualquer motivação emocional. Não é possível se importar com nenhum relacionamento entre os personagens nem com os poucos sacrifícios que são feitos nas viradas finais.

Há um pequeno potencial escondido na conceitualização da série. É claro que seria divertido ver a Liberdade ser palco de uma mitologia que misturasse os folclores do Brasil e do Japão. Mas como acontece com muitas das produções originais nacionais da Netflix (e até da Globoplay), há um amadorismo textual que chega a ser chocante. Efeitos especiais ruins podem ser perdoados. Texto pobre, não.

Spectros soa como um equívoco em todas as frentes. É uma das piores coisas que a Netflix já produziu, e isso é péssimo para a fluidez do mercado, que precisa sempre ter incentivo nacional, manter tudo aquecido, vivo. A tirar por esse título no catálogo, o futuro das produções locais originais não é dos mais promissores.

A primeira temporada de Spectros foi lançada pela Netflix no último dia 20.


Este texto não reflete necessariamente a opinião do Notícias da TV.

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