MEMÓRIA DA TV

Com SBT, Brasil poderia ter guerra dos canais de notícias já nos anos 1990

Divulgação/SBT

Leila Cordeiro e Eliakim Araújo estão sorridentes na bancada do CBS Telenotícias

O casal Leila Cordeiro e Eliakim Araújo na bancada do CBS Telenotícias, jornal exibido pelo SBT

THELL DE CASTRO - Publicado em 28/06/2020, às 08h14

Desde março, o Brasil acompanha uma guerra dos canais de notícias da TV paga, envolvendo a veterana e líder GloboNews, a recém-inaugurada CNN Brasil e a BandNews, que recentemente ganhou investimentos do Grupo Bandeirantes para acompanhar as rivais. No entanto, isso já poderia ter acontecido no país há quase três décadas, quando Silvio Santos queria montar seu canal jornalístico, antes mesmo da criação da emissora da Globo.

Em 4 de setembro de 1995, o jornal Meio & Mensagem informou que o SBT negociava com a TVA, do Grupo Abril, a criação de um canal de notícias 24 horas por dia --inicialmente, seriam 12 horas no ar, seguindo o já consagrado modelo apresentado pela CNN na época.

"A minuta do contrato está sendo discutida há um mês e acredito que deveremos concluir o negócio ainda em setembro", revelou Guilherme Stoliar, então vice-presidente da emissora.

De acordo com as fontes da época, ainda estavam sendo definidas as formas de comercialização do espaço publicitário e divisão de lucros, entre outros fatores que podem ter contribuído para o fracasso do acordo.

Seria a primeira investida de Silvio Santos em TV por assinatura, segmento em que a Globo, através da Globosat, já era veterana na época, com atividades desde o início daquela década.

A reportagem informou também que o Grupo Abril já teria iniciado a compra de equipamentos e efetuado a contratação de profissionais que reforçariam a equipe de 260 pessoas atreladas à produção dos canais da TVA, como a ESPN Brasil.

O novo veículo se chamaria Canal de Notícias, oferecendo conteúdo local, nacional e internacional. A cobertura no exterior seria feita por meio da contratação de várias agências e canais de notícias, enquanto a cobertura brasileira seria feita pelo SBT e por suas então 84 afiliadas.

Dois meses depois, em 3 de dezembro, o jornal O Estado de S. Paulo anunciou que o acordo havia avançado, e o Canal de Notícias estrearia em maio de 1996.

"Se dependesse do volume de produção do SBT, Canal de Notícias já estaria funcionando a todo vapor. Segundo Marcos Wilson, diretor de jornalismo da emissora, o SBT e suas afiliadas produzem cerca de 36 horas diárias de reportagens que não vão ao ar, como TJ Brasil, Aqui Agora e, agora, o novo SBT Notícias", informou a reportagem.

Apesar de parecer tudo em ordem, a iniciativa, como se sabe, não deu certo. O SBT desistiu de montar esse canal e fechou uma parceria com a CBS Telenotícias a partir de 1998 --a estratégia da estrangeira era aproveitar a visibilidade para conseguir distribuição nas maiores operadoras de TV por assinatura.

Mesmo com a desistência do SBT, a TVA não se deu por vencida. Em agosto de 1996, o Meio & Mensagem informou que a operadora ainda tentava acordos com diversas empresas jornalísticas, como Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil, para colocar no ar o CNA entre setembro e outubro daquele ano.

Após muito tentar, a operadora desistiu da iniciativa um ano depois disso, em agosto de 1997, quando a equipe contratada, que incluía nomes como Matinas Suzuki e Lilian Fernandes, já estava preparando a programação do canal.

O cancelamento do projeto provocou um prejuízo de R$ 4,5 milhões em cenários, equipamentos e salários e contribuiu para o agravamento da crise financeira da operadora, vendida em 2007 para a Telefônica.

Em outubro de 1996, entrou no ar a GloboNews, canal da Globo dedicado 24 horas por dia ao jornalismo, que reinou sozinha durante alguns anos até a chegada das atuais concorrentes.


THELL DE CASTRO é jornalista, editor do site TV História e autor do livro Dicionário da Televisão Brasileira. Siga no Twitter: @thelldecastro

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