PRECONCEITO E APAGAMENTO

Como o sofrimento de pessoas bissexuais se estende da sociedade até a TV

REPRODUÇÃO/NBC

A atriz Stephanie Beatriz caracterizada como a personagem Rosa Diaz na série Brooklin Nine-Nine, da NBC

Rosa Diaz (Stephanie Beatriz) é uma policial assumidamente bissexual em Brooklin Nine-Nine: caso raro

KELLY MIYASHIRO - Publicado em 28/06/2020, às 07h11

Apesar de o aumento da representatividade de gays, lésbicas e trans em séries de TV e do streaming ser considerado uma vitória para a comunidade LGBTQ+, pouco se avançou em relação à bissexualidade. Pessoas que se sentem atraídas romântica e/ou sexualmente por homens e mulheres sofrem preconceito da sociedade heteronormativa, são apagadas dentro do próprio meio e acabam com pouquíssima visibilidade no entretenimento.

No Dia do Orgulho LGBTQ+, lembrado neste domingo, 28 de junho, o Notícias da TV debate como o sofrimento de pessoas bissexuais se estende da sociedade até a ficção, especialmente em séries norte-americanas.

Enquanto vemos grandes produções como Modern Family (2009-2020) e Orange is The New Black com relacionamentos homoafetivos no centro das narrativas, dificilmente temos uma pessoa assumidamente bissexual como protagonista. A falta de tramas que exploram essa sexualidade é o reflexo de uma sociedade incapaz de compreender a possibilidade de se desejar mais do que um gênero.

Um estudo feito pela Glaad (Aliança Contra a Difamação de Gays e Lésbicas, em inglês), uma ONG estadunidense que monitora a maneira como a mídia retrata as pessoas LGBTQ+, mostrou que de 488 personagens LGBTQ+ recorrentes na temporada 2019-2020 de séries, 128 são da categoria bissexual+, que inclui pansexuais, gênero fluido, queer e mais. Isso representa 26% do total.

Além disso, a coleta de dados chegou à conclusão de que boa parte dos personagens bissexuais é mostrada de forma pejorativa, o que prejudica a maneira como a sociedade entende a bissexualidade. Em muitas produções, o bi foi apresentado como promíscuo, inconfiável, autodestrutivo ou apenas como enredo temporário, fácil de ser descartado.

Essa representação equivocada reforça um preconceito que não parte apenas das pessoas heteros. Dentro da comunidade LGBTQ+, o apagamento bissexual é comumente praticado por gays e lésbicas que se recusam a ficar com bis devido à crença de que essas pessoas são mais infiéis, ou apenas curiosas.

O problema é que faltam personagens em séries que consigam dizer que está tudo bem gostar dos dois mundos, assim como fez Rosa Diaz (Stephanie Beatriz) em Brooklyn Nine-Nine, ou Darryl Whitefeather (Pete Gardner), de Crazy Ex-Girlfriend, e até a médica Callie Torres (Sara Ramírez), de Grey's Anatomy.

Protagonista de How to Get Away with Murder, a Annalise Keating de Viola Davis namora mulheres e homens, mas não gosta de se "rotular". Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) deixa claro em vários momentos de The Good Place (2016-2020) que deseja a amiga Tahani (Jameela Jamil), mas nunca assume ser bi. Todas as prisioneiras de Orange is The New Black renegam o B da sigla LGBTQ+.

Ao não se sentir representada na tela, uma pessoa atraída pelos dois sexos pode acreditar que precisa se encaixar em só um dos rótulos, sendo eles o dos héteros ou o dos homossexuais. Como se só existissem essas duas alternativas. 

"Nossa mídia convencional reforça a ideia de que a bissexualidade é ou um ato voluntário e divertido de experimentação ou um mero mito através de duas táticas testadas e aprovadas: deturpar e simplificar personagens bissexuais até que eles se tornem frases de efeito ou fontes de sonhos eróticos, ou simplesmente se recusar a representar personagens bissexuais, antes de tudo", explicou a repórter Amy Zimmerman no site Daily Beast, em 2014. 

O mercado de séries necessita de criadores de conteúdo que consigam explorar mais as histórias sobre a bissexualidade. Tramas que tentem ir além do sexo a três que objetifica os bissexuais; que não os rotulem como confusos por gostarem de experimentar os dois sexos; e que transmitam a mensagem de que está tudo bem estar no meio-termo, assim como está tudo bem gostar de uma coisa só.

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