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90 ANOS

Com blackface e estereótipos, Chico Anysio dificilmente teria o mesmo sucesso hoje

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Chico Anysio com rosto pintado de preto e peruca de cabelo branco como Velho Zuza em foto antiga

Chico Anysio interpretando Velho Zuza, um de seus personagens que utilizava a técnica blackface

ANDRÉ CARLOS ZORZI

azorzi@noticiasdatv.com

Publicado em 12/4/2021 - 7h15

Chico Anysio (1931-2012), um dos maiores nomes da história do humor no Brasil, completaria 90 anos nesta segunda-feira (12). O cearense de Maranguape ficou marcado pelos infindáveis personagens que criou --e interpretou-- e teve seu auge entre as décadas de 1960 e 1990. Muitos deles, porém, não teriam a mesma aceitação nos dias de hoje.

Era comum ver o comediante usando estereótipos ou caracterizações que podem ser vistas como ofensivas. Dois de seus papéis mais lembrados faziam uso da técnica blackface: Velho Zuza e Azambuja. Outros tantos abordavam visões preconceituosas de judeus, asiáticos, gays e religiosos.

Velho Zuza, por exemplo, era um pai de santo que usava guias no pescoço, fumava cachimbo e dizia "suncê" em vez de "você". Para interpretá-lo, o humorista se pintava com tinta preta e usava uma peruca de cabelo branco. "É negro, é africano, é mestre, é Zulu. E ele vem todo de branco vem, Véio Zuza!", descreve a música sobre o personagem cantada por Baiano e os Novos Caetanos, trio de paródia musical formado por Chico e seus parceiros Arnaud Rodrigues (1942-2010) e Renato Piau.

Ainda na questão das religiões de matriz africana, havia o personagem Painho, um pai de santo homossexual. Assim como Haroldo, o gay que se passava por hétero, muitas vezes o riso do público era causado mais pelos trejeitos afeminados e clichês sobre a comunidade LGBTQ+ do que pela elaboração das piadas em si.

Azambuja foi criado por Chico Anysio em 1973, para incrementar histórias contadas em seus stand-ups no Fantástico. O sucesso foi tanto que ganhou um programa próprio, Azambuja & Cia., exibido mensalmente na Globo. Malandro, o personagem vivia em busca de aplicar golpes e tirar vantagem dos outros. Novamente, o humorista recorria ao artifício de blackface, pintando seu rosto com tinta marrom.

Outros personagens também teriam "envelhecido mal", como o japonês Fukuda, que brincava sobre a dificuldade de asiáticos em acertar a pronúncia do português, ou o judeu Savi Sevic, que remetia a piadas sobre avareza e o estereótipo de "pão-duro".

Há ainda o Nazista, que teve curta duração. Apesar de ser uma sátira à própria figura de um nazista, mexia em um tema bastante espinhoso. Segundo história relatada por Nizo Neto, filho de Chico Anysio, ao podcast Inteligência Ltda., o humorista decidiu tirá-lo do ar após receber ameaças de nazistas de verdade.

"Aconteceu uma coisa tão bizarra [com] um personagem horrível que ele inventou, morando aqui em São Paulo. Nazista, o nome do personagem. Olha o esquema do quadro: reunião de produção de uma agência de publicidade e os caras fazendo brainstorm de como fariam um comercial. E esse nazista fazia parte da equipe", contou Nizo.

"Num comercial de leite [por exemplo]: 'Vamos fazer o seguinte: então a família vem, sentada numa praia, todos de branco...'. Aí o nazista: 'Tenho uma ideia! Ele vem, crava uma suástica [gesticulando] e...' 'Não, pera aí!' (risos). Foi ao ar duas vezes", continuou o filho de Chico Anysio.

Por fim, concluiu: "Daqui a pouco ele recebe uma carta em casa, timbrada com uma suástica. Os caras mandaram falando: 'Olha, tira esse personagem, porque a gente não está gostando. A gente sabe onde você mora --está recebendo essa carta, né? E seu filho --no caso, eu-- pode sofrer alguns problemas se você não tirar esse personagem do ar. E fizeram bem, né, porque que personagem merda! (risos)".

Todos os personagens, é claro, foram criados em outra época e contexto de sociedade. Chico certamente teria capacidade para adaptar algumas de suas esquetes e até criar novos personagens para o tempo atual, fosse se adequando a ele ou, quem sabe, zombando.

A carreira de Chico Anysio

Chico Anysio começou a trabalhar ainda na década de 1950 e fez humor durante os anos mais pesados da Ditadura Militar (1964-1985). Entre alguns de seus programas, constam clássicos como Chico City (1973-1980), Chico Anysio Show (1982-1990) e a Escolinha do Professor Raimundo (1990-1995).

Além de escrever boa parte das esquetes, o humorista também aparecia em frente às câmeras interpretando personagens como o Professor Raimundo, o funcionário público Nazareno, o aposentado Popó, o caçador caolho Pantaleão, o jogador de futebol Coalhada e Bento Carneiro, o vampiro brasileiro.

Em entrevista ao Roda Viva, em 1993, Anysio relembrou alguns casos envolvendo a censura oficial: "Cortavam coisas... 'Você vai para a Europa? Vê se consegue uns afrescos de Rafael'. Aí cortaram [a palavra] afrescos: 'Diga: rapazes de maus hábitos'. Era uma coisa tão absurda, as pessoas que censuravam".

"Eu acho que mais medo da censura tem o próprio censor. O censor corta muitas coisas que não seriam cortadas se as pessoas que cortassem tivessem uma autoridade maior do que a dele. Ele tem medo de ser chamado a atenção por seu chefe", prosseguiu o comediante, que ressaltou: "Tem uma censura pior do que essa: a censura interna".

Chico Anysio morreu em 23 de março de 2012, após passar seus últimos meses internado em um hospital do Rio de Janeiro, onde deu entrada em 22 de dezembro de 2011.

Nos anos anteriores, fez algumas participações no Zorra Total (1999-2015) e chegou a dublar o protagonista Karl na animação Up - Altas Aventuras (2009). Em 29 de dezembro de 2009, a Globo exibiu o especial Chico e Amigos, permitindo ao humorista homenagear vários de seus personagens.


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