Análise

Coisa Mais Linda, da Netflix, retrata o que é ser mulher numa sociedade machista

Divulgação/Netflix

Adélia (Pathy DeJesus) e Malu (Maria Casadevall) enfrentam vários obstáculos sem ajuda dos homens - Divulgação/Netflix

Adélia (Pathy DeJesus) e Malu (Maria Casadevall) enfrentam vários obstáculos sem ajuda dos homens

FERNANDA LOPES - Publicado em 26/03/2019, às 06h09

A série Coisa Mais Linda, que estreou na Netflix na última sexta (22), se passa em 1959, mas ainda assim parece bastante atual. Isso porque vários dos percalços que as mulheres protagonistas enfrentam na trama ainda estão presentes nas vidas de muitas brasileiras até hoje. Com cenas intensas de preconceito, moralismo, violência doméstica, desigualdade social e salarial, a atração desenha o que é ser mulher numa sociedade machista.

Coisa Mais Linda se passa numa época que ficou conhecida como os "Anos Dourados" no Brasil, em que as classes média e alta viviam fases de prosperidade, e os valores de moral e bons costumes estavam fortíssimos.

Na prática, isso significava que mulheres ainda eram vistas como propriedade dos homens, pessoas restritas ao ambiente doméstico ou simples objetos sexuais. Qualquer desvio dessa rota poderia ser (e constantemente era) condenável.

Cada uma das quatro protagonistas da série sai da linha esperada para mulheres "direitas" da época e provoca seu próprio escândalo. A protagonista é Malu (Maria Casadevall), uma moça de família rica paulistana que pretende se mudar com o marido para o Rio de Janeiro. Mas, ao chegar lá, ela descobre que ele fugiu com uma amante e levou todo o seu dinheiro.

Malu fica deprimida, mas conhece a cena musical do Rio daquela época e se encanta. Ela resolve abrir seu próprio clube de música, mas se depara com vários episódios de homens que não só não ajudam, como também atrapalham.

Ela vai atrás do homem que emprestou dinheiro a seu marido, ele a segue e a ameaça. Ela volta para a casa dos pais, desamparada, e o pai só pensa em lhe arrumar outro marido para que ela deixe de ser uma vergonha para a família. Ela volta ao Rio, abre o clube e chama um astro da música para tocar na abertura --ele vai, mas chega bêbado, arruma briga e dá vexame.

Malu até faz um discurso na inauguração do clube dizendo como deixar as coisas nas mãos dos homens "dá merda", mas nem precisava. A experiência dela e das outras mulheres da trama deixa clara a influência prejudicial do machismo, sem que o roteiro precise insistir num textão muito inflamado.

divulgação/netflix

A personagem de Maria Casadevall sofre com a influência dos homens em Coisa Mais Linda

A personagem de Maria Casadevall é melhor amiga de Lígia, interpretada por Fernanda Vasconcellos, cujo drama infelizmente ainda é bastante familiar à realidade do Brasil atualmente. Lígia apanha do marido, que não aceita que ela tenha uma carreira como cantora. Ele a chama de "puta" por gostar dos aplausos da plateia e não se contentar em ser apenas sua mulher.

Nos anos 1950, Lígia ainda se sente culpada e tenta esconder as marcas que o marido deixa nela, e são as amigas que a fazem enxergar que violência doméstica não é aceitável. Ainda hoje as estatísticas são alarmantes: de acordo com dados levantados pelo Datafolha, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil em 2018. E 42% dos casos aconteceram no ambiente doméstico. 

A situação dentro de casa também é complicada para Adélia (Pathy Dejesus). Ela não sofre violência física, mas leva uma vida muito menos tranquila do que as personagens brancas. Adélia engravidou de um ex-patrão, que a deixou sozinha para cuidar da filha. Ela se submete a trabalhos como faxineira, com patroas que a humilham por ser negra, para poder sustentar a família, que vive no morro.

Sororidade e repressão

Divulgação/Netflix 

Adélia (Pathy Dejesus) vira sócia de Malu no clube

Adélia desconfia da proposta de Malu, que a convida para ser sua sócia no clube, por desacreditar que uma pessoa rica e branca possa querer verdadeiramente ajudá-la. Além de tudo, não sabe ler e escrever. Intelectualidade não era vista como algo para mulheres ambicionarem, muito menos as negras.

Para fechar o quarteto, Thereza (Mel Lisboa) parece a mais libertária, mas lida com dificuldades para se destacar como profissional.

Única mulher na redação de uma revista feminina, ela se esforça para contratar mais uma repórter, mesmo admitindo que a moça ganhará cinco vezes menos do que um homem. Os colegas de trabalho claramente desprezam o potencial das mulheres, e cada texto mais "ousado" é visto como um escândalo.

A primeira temporada da série termina na entrada dos anos 1960, década em que no mundo todo aconteceu uma revolução sexual e comportamental. Muitas mulheres se arriscaram para quebrar padrões e viver mais livremente.

Daí para a frente, a sexualidade ficou menos proibida, a pílula anticoncepcional mudou os relacionamentos, e as mulheres conquistaram mais presença em universidades e no mercado de trabalho.

Mas, se houver novas temporadas, certamente Malu, Adélia, Lígia e Tereza mostrarão que esse caminho não foi fácil, como ainda não é. A relevância de Coisa Mais Linda se dá muito por isso: mostrar por meio da ficção, sem forçar ou apelar demais, que cada pequena demonstração de machismo no cotidiano pode ser um grande empecilho no desenvolvimento feminino.

E também como a sororidade, além de ser a palavra da moda, pode ser o meio de as mulheres transporem os obstáculos e buscarem a equidade.

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