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Análise | Teledramaturgia

Velho Chico traz narrativa moralista e religiosa em embalagem barroca

Divulgação/Globo

Selma Egrei, Rodrigo Santoro e Marina Nery em cena de Velho Chico, nova novela das nove - Divulgação/Globo

Selma Egrei, Rodrigo Santoro e Marina Nery em cena de Velho Chico, nova novela das nove

RAPHAEL SCIRE

Publicado em 21/3/2016 - 5h23

A promessa de Benedito Ruy Barbosa em sua volta ao horário nobre da Globo após 14 anos é a de resgatar o amor e a emoção, que ele considerava em falta nas novelas que ocuparam anteriormente a faixa das nove. Para tanto, o veterano autor não precisou apresentar novidades narrativas em Velho Chico. Na primeira semana da nova novela das nove, teve boi passeando pela tela, briga de "macho" (para usar um termo caro ao autor) e até nudes. Teve ousadia? Teve, só por causa da direção de Luiz Fernando Carvalho.

O estilo empregado pelo diretor pode ser, sim, uma novidade às nove da noite, mas não para as novelas como um todo. O próprio Carvalho já havia apresentado um arrojo estético em Meu Pedacinho de Chão (2014). Em Velho Chico, reciclou muita coisa de outros trabalhos seus na televisão, como A Pedra do Reino (2007) e Hoje É Dia de Maria (2005).

Para o principal produto da Globo, ousar na embalagem pode parecer arriscado, mas é uma aposta válida, o que já tornou possível afirmar logo nessa primeira semana de exibição: visualmente, Velho Chico é o folhetim das nove mais bonito dos últimos tempos. A direção transita entre diversas artes: teatral, operística, audiovisual e musical. Essa mistura ajudou a impor o ritmo sem atropelos da narrativa, apropriada ao texto lento de Benedito Ruy Barbosa.

Há ainda um quê de barroco na direção artística do folhetim: figurino, cenários e até a interpretação dos atores, que não economizaram no exagero _que o diga Selma Egrei (Encarnação), ótima em cena. Outro feito do diretor foi trazer para a televisão novos (e regionais) rostos. Em contrapartida, é de se estranhar a escalação de Julia Dalavia para o papel que caberá a Camila Pitanga na terceira fase da história.

divulgação/globo

Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi) tem seu galpão de algodão incendiado em Velho Chico

O trabalho de preparação a que Carvalho submete seu elenco antes da estreia surtiu efeito no vídeo. O diretor conseguiu extrair um resultado interessante de Carol Castro (Iolanda), uma atriz pouco expressiva em seus trabalhos anteriores. E a trilha sonora foi um alento para os ouvidos de quem já estava farto de escutar as batidas do funk carioca de A Regra do Jogo.

Quanto à história, o rio São Francisco serve de ambientação e também de personagem a ela, tanto que foi a primeira explicação da trama, contada em forma de canção. Às suas margens, surge a disputa familiar dos Rosa e dos Sá Ribeiro. Da guerra entre os clãs, nascerá um amor proibido entre Santo (Domingos Montagner) e Maria Tereza (Camila Pitanga), um Romeu e Julieta à nordestina.

No pano de fundo, uma questão política essencial não só para o Nordeste, mas para o Brasil como um todo: a hídrica. Irretocável, a cena em que Belmiro (Chico Diaz) esburaca o solo seco da caatinga em busca de água enquanto a mulher Piedade (Cyria Coentro) está à beira do parto entrou para a antologia da televisão brasileira.

Velho Chico permeia ainda valores políticos fortemente arraigados na cultura nordestina, como o coronelismo, personificado nas figuras de Jacinto (Tarcísio Meira) e depois em Afrânio (Rodrigo Santoro/Antonio Fagundes). E política, em trama de Ruy Barbosa, vem sempre carregada de fortes embates folhetinescos _quem não se recorda das histórias dos sem terras de O Rei do Gado (1996)?

O texto de Ruy Barbosa, mesmo que agora seja escrito por sua filha e seu neto, tem também um apelo extra, retoma a dimensão do Brasil ao fugir dos grandes centros e tenta deixar claro aquilo que deveria ser óbvio: existe vida para além do eixo Rio-São Paulo.

Sua oralidade é, sem dúvida, ponto central e importantíssimo da novela. Mas há certo ranço ali: religioso, moralista e arcaico: o patrão que assedia a empregada, o embate entre ricos e pobres, o maniqueísmo sem direito a nuances de caráter, o catolicismo pregado. Talvez a intenção seja essa mesmo, retratar e discutir as raízes de um Brasil que supostamente ficou no passado, mas que sabemos existir nos cantos mais escondidos.

A curiosidade em torno da estreia aguçou o público, que foi presenteado com boas cenas nessa primeira semana. Resta torcer para que a emoção que o autor prometeu realmente continue em ritmo crescente. A julgar pelo que mostrou, Benedito não se distanciou de seu universo ficcional, mas voltou com tudo.


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