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TRAMA X REALIDADE

Nos Tempos do Imperador: Pedro 2º era mesmo o 'anti-Bolsonaro' visto na novela?

REPRODUÇÃO/ONU E TV GLOBO

Montagem do presidente Jair Bolsonaro e de Selton Mello em cena de Nos Tempos do Imperador

Jair Bolsonaro é alvo de alfinetada de dom Pedro 2º em Nos Tempos do Imperador

GUILHERME MACHADO

guilherme@noticiasdatv.com

Publicado em 4/10/2021 - 6h35

Desde as primeiras cenas de Nos Tempos do Imperador, está claro que os autores Thereza Falcão e Alessandro Marson querem mandar um recado para os políticos da atualidade. Na novela das seis da Globo, dom Pedro 2º (Selton Mello) é apresentado como um líder justo e sábio, que faz de tudo para proteger seu povo, além de soltar frases que são claras alfinetadas ao atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Entretanto, a trama idealiza a imagem histórica do monarca e ignora algumas de suas maiores falhas.

Autor de diversos livros sobre a História do país, ex-apresentador do quadro É Muita História, do Fantástico, e dono do canal Buenas Ideias, o jornalista Eduardo Bueno ressalta que gostaria de ver alguns contrapontos na trama. 

"É óbvio que a novela é uma idealização. Mas acho que ela deveria, pelo menos, dar umas pitadas das ambiguidades de dom Pedro. Tem um lado ali meio santificado dele", destaca o escritor.

O problema, descreve Bueno, é que apesar de suas qualidades, dom Pedro 2º é uma figura que falava muito, mas pouco agia em causas que supostamente defendia. "O que tem que ficar claro é que ele era contra a escravidão, mas nunca aboliu a escravidão", enfatiza.

Este ponto também é abordado por Pedro Luís Puntoni, professor do departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) e doutor em História Social. O acadêmico diz, por exemplo, desconhecer qualquer discurso público que dom Pedro 2º tenha feito para pedir o fim da escravidão no país, e que é era muito cômodo para o imperador falar algo de forma privada a intelectuais.

"O dom Pedro vai lá, toma um chá com o Victor Hugo [escritor francês] e diz: 'Ai que coisa horrível a escravidão, odeio a escravidão'. Então por que não acabou com a escravidão? Por que não tinha força política? A visão que pintam dele, quem defende essa ideia de dom Pedro como um homem liberal, é que ele era amado pela população. Então por que ele não acabou com a escravidão? Quem acabou foi a filha dele [princesa Isabel] quando ele estava fora do Brasil", frisa Puntoni.

De acordo com o professor, existe um discurso de que o imperador não conseguia tomar diversas atitudes devido ao que chama de "centrão da época", em referência ao grupo parlamentar dominante na política brasileira atual. Porém, esta seria uma justificativa pouco plausível.

O Arthur Lira pode ser contra a ditadura e não coloca o impeachment para ser votado. Eu nunca vi o Sarney falar que é a favor da miséria, nem o Bolsonaro falar que ele quer que as pessoas morram com Covid, mas é isso que ele está fazendo. O dom Pedro 2º podia até falar que era a favor do fim da escravidão, mas as roupinhas que ele vestia, os jantares de que ele participava, o palácio onde cresceu, eram todos pagos com dinheiro da escravidão. Era o centrão da época que impedia a abolição? Ele não conseguia fazer nada para evitar? É uma conversa fiada.

Puntoni vai além e afirma que dom Pedro 2º também virou os olhos para outras questões graves que ocorreram durante o Segundo Reinado (1840-1889), como o extermínio de povos indígenas no território nacional. 

"O imperador patrocinava os autores indianistas, que escreviam poemas denunciando a violência praticada contra os indígenas no período colonial. Mas e a violência que os indígenas viviam no século 19, nas barbas do imperador? Os indígenas estavam sendo trucidados no Brasil inteiro. Mas quando ele fosse conversar com o Victor Hugo, ele falaria: 'Que coisa horrível, os indígenas sendo mortos. Sou um homem liberal'. Acho paradoxal", argumenta.

Bolsonaro X Pedro 2º

Apesar de dom Pedro ter muitas falhas, tanto Bueno quanto Puntoni concordam que existe um abismo entre o imperador e o atual presidente.

Bueno reconhece que os dois têm pontos em comum, como uma dependência de uma bancada ruralista de deputados. Porém, ele cita divergências entre os dois, como o fato de que o monarca era avesso a armas, algo que é mostrado na novela das seis da Globo.

"De fato ele amava ciência, não gostava de armas, era um homem ponderado. Ele era uma pessoa totalmente ligada à ciência e ao que ela poderia trazer de melhor para o Brasil e o mundo", explica.

Curiosamente, ele detalha um episódio em que o imperador também precisou lidar com um surto de uma doença contagiosa, como ocorre hoje.

"Dom Pedro 2º teve que enfrentar um surto de febre amarela terrível em 1850, no qual o órgão responsável pela saúde pública brasileira agiu com imensa ineficiência. Com o desastre que foi a doença, e as consequências econômicas, o imperador fez uma grande reforma na saúde pública brasileira, que daria origem ao Ministério da Saúde anos depois", detalha.

Puntoni segue a mesma linha: "Coitado do dom Pedro, um homem culto, educado, que patrocinou a ciência, criou escolas. Me desculpe o palavrão, mas Bolsonaro é um energúmeno, uma pessoa desclassificada. Alguém comprometido com o que há de pior. Acho que não tem nem comparação".

Neste sentido, Bueno defende que a novela seja mesmo usada para enfrentar o atual líder brasileiro. "Que bom, dou força! Qualquer coisa contra o Bolsonaro é válida. É o mais desqualificado presidente do Brasil", afirma.

joão miguel júnior/tv globo

Selton Mello como dom Pedro 2º

Figura idealizada

Para além de Nos Tempos do Imperador, existe uma vertente histórica que glorifica a figura de dom Pedro 2º, de forma a colocá-lo como um dos últimos grandes governantes do Brasil. Eduardo Bueno esclarece que isso se deve, em parte, ao fato de o monarca ter sido responsável por contar a própria história.

"Ele é a pessoa que fabricou a história do Brasil. Até a posse dela, a história do país era contada pela ótica de Portugal. Ele contratou historiadores e pintores para 'refabular' a história do Brasil. Dom Pedro 2º praticamente fabricou a própria imagem", esclarece.

O jornalista também diz que os problemas enfrentados após a instauração da República, em 1889, contribuíram para isso, além de uma manipulação dos livros de História realizada durante o período da Ditadura Militar (1964-1985). 

A República em seus primeiros anos é desastrosa. É uma ditadura com o Deodoro da Fonseca, um dos piores presidentes do Brasil. Aí vinha uma nostalgia do dom Pedro. Isso vai se introjetando do Brasil de uma forma incrível. Quando veio o golpe militar de 1964, com a manipulação dos livros escolares, o dom Pedro é cooptado pelos militares.

Pedro Luís Puntoni também explica que os anos turbulentos da implementação da República contribuíram para que se criasse uma imagem nostálgica dos tempos do Império.

“Existe um movimento, uma força da direita e da extrema-direita em torno dessas figuras. Há uma retomada dessa dimensão, de um poder centralizado, de um Brasil unificado e pacificado, que é a imagem que se tem do período monárquico", declara ele.

"A República de fato é vertiginosa: muitas crises, muitos golpes e conflitos. Ela é, apesar de tudo, o momento da emergência da cidadania. O surgimento na arena política das populações pobres torna a história da nossa República muito conturbada e violenta. Não que o Império não fosse, mas alguns saudosistas olham para o passado e observam nos 50 e poucos anos do reinado de dom Pedro 2º um momento de grande estabilidade. Mas isso é uma falsa imagem", destaca o acadêmico.

Única novela inédita da Globo no ar, Nos Tempos do Imperador se passa cerca de 40 anos depois dos acontecimentos de Novo Mundo (2017). Além dos spoilers, o Notícias da TV também diariamente publica os resumos da novela das seis.


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