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COLUNA DE MÍDIA

Caos toma conta da Disney após polêmica, e CEO pode perder o emprego

Divulgação/Disney

Cena do filme Lightyear

Don't Say Gay, filme Lightyear teve polêmica, e caos toma conta da Disney por causa de beijo gay

Guilherme Ravache

gravache@gmail.com

Publicado em 29/3/2022 - 6h40

As coisas já não são as mesmas na mais conhecida empresa de mídia do mundo. A Disney, uma referência criativa e de entretenimento, vive uma das maiores crises de imagem de sua história. Por trás da confusão, a aposta de Bob Chapek, CEO da Disney, de transformar a empresa em uma potência do streaming por meio do corte de custos e posicionando a companhia mais ao centro no debate político, distante de polêmicas.

Mas os acontecimentos recentes dão uma ideia da dimensão do caos que se criou na empresa e como o plano de fugir da política foi um tiro que saiu pela culatra.

Semana passada, por exemplo, vimos funcionários da própria Disney protestando em frente à empresa, e até o ex-CEO da companhia, o lendário Bob Iger, que ficou 15 anos no comando da Disney, cortou relações com seu sucessor.

Don't Say Gay e a Disney

No início do ano, Chapek decidiu que a Disney se afastaria da política e tentaria ficar mais ao centro para fugir de polêmicas. Foi um erro gigante, e o estopim foi o projeto de lei de Direitos dos Pais no sistema de Educação da Flórida, conhecido por seus oponentes como Don't Say Gay (Não diga gay).

A lei impede a discussão de gênero em sala de aula e torna mais difícil a vida da comunidade LGBTQIA+. No passado, a Disney se opunha publicamente a medidas como essa e era bastante efetiva em barrar esse tipo de legislação, mas dessa vez preferiu ficar em silêncio. O resultado foi exacerbar o ressentimento de funcionários, políticos e fãs em relação à empresa e, principalmente, ao seu CEO.

Marvel Studios, Pixar Animation e Lucasfilm, os três estúdios mais importantes da Disney, divulgaram declarações de apoio à comunidade LGBTQIA+ e condenaram publicamente a legislação em discussão em outros estados.

Nesta segunda-feira (28), a lei Don't Say Gay foi assinada pelo governador Ron DeSantis e passou a valer na Flórida. No mesmo dia, a Disney anunciou em um comunicado que mudou sua posição e passará a combater ativamente a nova legislação para tentar revogá-la.

"A Lei HB 1557 da Flórida, também conhecida como o projeto de lei 'Don't Say Gay', nunca deveria ter sido aprovado e nunca deveria ter sido assinado em lei", diz o comunicado da Disney.

"Nosso objetivo como empresa é que essa lei seja revogada pelo legislativo ou derrubada nos tribunais, e continuamos comprometidos em apoiar as organizações nacionais e estaduais que trabalham para isso. Estamos dedicados a defender os direitos e a segurança dos membros LGBTQIA+ da família Disney, bem como da comunidade LGBTQIA+ na Flórida e em todo o país".

A Louisiana em breve deve votar legislação semelhante. Lideranças da Disney pediram desculpas às suas equipes pelo comportamento da empresa, funcionários fizeram greves e alguns fãs estão falando de boicotes nas redes sociais.

Foco no corte de custos

Chapek se desculpou publicamente por não atuar para barrar a lei na Flórida, mas não explicou a razão para tentar levar a Disney ao centro do espectro político. Apesar de os filmes da Disney terem viés "conservador", a empresa era bastante atuante politicamente.

Para muitos Chapek busca apenas reduzir custos e aumentar os lucros da empresa. Ficar longe das questões políticas seria uma maneira de cortar custos indiretamente e evitar controvérsias entre funcionários. O problema é que isso foi feito de maneira desastrada, como mostram as polêmicas e até mesmo a queda de valor da empresa na bolsa. Nos últimos 12 meses as ações da Disney já caíram quase 25%. 

Ironicamente, desde a entrada de Chapek e suas medidas para "enxugar" a empresa, a receita da Disney subiu 34% no último ano em relação a 2020, e o lucro disparou, indo do prejuízo no ano anterior para um lucro de R$ 5,28 bilhões, mais de 6.000% de aumento.

Se o dinheiro não para de entrar, por que as ações não param de cair? Porque investidores precificam as ações em valor presente da empresa e suas propriedades mais o que a companhia entregará de lucros no futuro. O recado do mercado é que com Chapek a empresa valerá menos no futuro.

O contrato de Chapek vence em fevereiro do próximo ano. O natural seria que fosse renovado. Mas crescem os comentários de que estão aumentando as chances do CEO perder o emprego. Para o executivo é necessário que a campanha para restaurar sua imagem dê certo.

Momento difícil

Chapek assumiu o comando da Disney no início da pandemia, em 2020. Esperar que acertasse tudo em um período tão conturbado é injusto. Mas a maneira que executa a nova estratégia e como responderá à crise será um fator determinante.

Porém, o executivo tem um comportamento pouco conciliatório de maneira geral. De certo modo, entrou para fazer o "trabalho sujo". Cortar pessoas, reduzir custos e levar a empresa rumo a um futuro digital investindo no Disney+. Demitiu lideranças, estimulou a criação de feudos e alienou líderes respeitados da casa.

A briga pública que comprou com Scarlett Johansson é um exemplo. A atriz queria receber mais alguns milhões de dólares já que seu filme Viúva Negra estreou diretamente no cinema, e isso diminuiu os ganhos de bilheteria que ela teria. No passado esse problema seria resolvido de maneira discreta e entre advogados, mas Chapek optou por atacar publicamente Scarlett.

Para analistas, a decisão foi uma mensagem de Chapek para o mercado. Se ele estava disposto a brigar publicamente até com Scarlett, uma das queridinhas de Hollywood, a era de grandes salários como o dela na Disney tinha acabado.

Depois, Chapek anunciou que aumentaria o preço dos ingressos dos parques e atrações da Disney. Mais que isso, lançaria preços variáveis. A exemplo dos aviões, quanto mais disputado um dia ou atração, maiores os valores que variam conforme a demanda. Os fãs odiaram a ideia.

Cortes de custos e parques quebrados

Alguns funcionários também não escondem o descontentamento. Em uma medida para reduzir custos, Chapek determinou a mudança de mais de 2 mil funcionários da Califórnia para Orlando, na Flórida, onde a empresa paga menos impostos por conta de benefícios fiscais do Estado.

Os preços dos imóveis em Orlando dispararam durante a pandemia, o que dificulta a mudança de muitos empregados. Os funcionários, muitos deles da comunidade LGBTQIA+, também estão preocupados em levar as famílias para um Estado conservador e que aprova leis como a Don’t Say Gay.

Segundo o WSJ, em uma reunião no ano passado com um grupo de elite de engenheiros e designers dos parques, em uma pesquisa para determinar como poderiam resolver alguns dos problemas que eles estavam enfrentando com a realocação para a Flórida, uma das respostas exibidas na tela como resultado foi "Demitir Bob Chapek".

Enquanto isso, alguns visitantes do parque temático postam vídeos no TikTok e no Instagram chamando as atrações quebradas da Disney de "Chapek’d".

Um nova realidade

Os recentes confrontos de Chapek e funcionários da Disney mostram duas grandes mudanças sociais. Primeiramente, uma força de trabalho cada vez mais participativa e demandando um posicionamento político de seus empregadores, não raro com crescentes conflitos internos.

Além disso, as decisões de Chapek mostram a crescente necessidade de as gigantes de mídia se adaptarem a um cenário cada vez mais competitivo e dominado pelas empresas digitais. Geralmente isso implica drásticos cortes de custo.

Mas se Chapek seguirá ou não na Disney a partir de fevereiro de 2023 dependerá menos de sua popularidade e mais da capacidade de mostrar que as duras medidas que está impondo vão criar uma empresa mais forte no futuro.


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