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E-mail revela: Globo montou 'sala de guerra' para cobrir escândalo no país

Reprodução/TV Globo

Marcelo Odebrecht, ex-presidente Odebrecht, durante delação na Lava Jato, alvo de 'guerra' na Globo - Reprodução/TV Globo

Marcelo Odebrecht, ex-presidente Odebrecht, durante delação na Lava Jato, alvo de 'guerra' na Globo

DANIEL CASTRO - Publicado em 29/05/2019, às 05h42

E-mail distribuído na Globo por Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo, revela que a emissora montou verdadeiras operações de guerra para cobrir a Lava Jato, maior investigação contra a corrupção já ocorrida no país, que culminou com a prisão do ex-presidente Lula no ano passado. Uma dessas operações, chamada por Kamel de "sala de guerra", foi montada em 2017 para destrinchar todas delações feitas por executivos da construtora Odebrecht à Procuradoria-Geral da República.

A "sala de guerra" da Globo chama a atenção pelo gigantismo: foram mobilizados 22 profissionais, que trabalharam em três turnos. As "delações da Odebrecht" foram resultado de um acordo de leniência que envolveu 78 executivos do grupo e gerou 83 inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os investigados, estavam oito ministros e três governadores.

Não há nada de errado em uma "sala de guerra". Elas não são tão raras nas grandes empresas de comunicação. Mas sua existência era um sigilo bem preservado dentro da Globo, porque isso poderia causar maior animosidade entre petistas e profisisonais da emissora.

Kamel entregou a informação de bandeja em um e-mail que anunciou mudanças na cúpula do Jornalismo da emissora. Ao relatar a trajetória profissional de Fátima Baptista, que assumiu cargo de chefia na GloboNews, ele escreveu:

"Desde 2017, ela [Fátima] vem trabalhando com afinco no processo de radicalização da integração das nossas plataformas, inicialmente para a cobertura da Operação Lava Jato e depois para todos os assuntos. Foi o mesmo ano em que coordenou, ao lado de Evane Bertoldi, a sala de guerra montada em Brasília para receber, transcrever e municiar toda a nossa rede com o conteúdo das delações da Odebrecht. Eram 22 profissionais, em três turnos, totalmente dedicados ao material. O resultado do trabalho dessa equipe, liderada por Ricardo Villela quando diretor de Brasília, foi magistral: sabíamos de tudo sobre todos. E assim a TV Globo deu furo atrás de furo naquela cobertura histórica."

O trabalho foi homérico. Segundo o portal de internet do Grupo Globo, que fazia parte da "sala de guerra", foram analisados mais de mil vídeos das delações da Odebrecht com quase 272 horas de depoimentos. Se uma pessoa fosse ver tudo sozinha, sem parar, levaria 11 dias.

Com a "sala de guerra", a direção da Globo conseguiu organizar a cobertura da Lava Jato, controlando informações, distribuindo as pautas entre seus repórteres e domando egos da equipe. Na época, havia muita disputa entre jornalistas de Brasília, São Paulo e Curitiba, e eles atropelavam uns aos outros. A força-tarefa de Ali Kamel amenizou esse problema.

Segundo um profissional que participou da "sala de guerra", também havia a preocupação de que a Globo fosse citada em algum depoimento dos diretores da Odebrecht.

Daniel Castro
DANIEL CASTRO transformou a coluna de Televisão da Folha de S.Paulo na mais relevante do país durante sua passagem pelo jornal, entre 1991 e 2009. Trabalhou no Notícias Populares (1995-96) e R7 (2009-13). E-mail: dcastro@noticiasdatv.com

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