MEMÓRIA

Etty Fraser reclamou do desemprego e esperava convite para voltar a atuar

REPRODUÇÃO/TV CULTURA

Etty Fraser em entrevista ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, exibido em 2015 - REPRODUÇÃO/TV CULTURA

Etty Fraser em entrevista ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, exibido em 2015

GABRIEL PERLINE - Publicado em 02/01/2019, às 10h10

Antes de partir em decorrência de uma trombose, a atriz Etty Fraser (1931-2018) vivia reclusa em seu apartamento no bairro de Santa Cecília, zona oeste de São Paulo, enquanto aguardava uma oportunidade de trabalho. Ela já havia desistido de voltar a atuar na TV por conta de sua saúde debilitada, que a impedia de viajar de avião e passar horas no estúdio, mas sonhava em retornar aos palcos.

"Não dá mais para trabalhar na TV. Tive embolia pulmonar e a minha médica me proibiu de viajar de avião. Desisti de fazer novelas porque não quero e não posso ir ao Rio de Janeiro e é lá que tudo acontece. Tenho saudades de fazer teatro", desabafou a veterana em entrevista ao Notícias da TV.

A reportagem teve a oportunidade de passar uma tarde na casa da atriz, em fevereiro de 2016, e acompanhou sua rotina. Etty estava sempre sorridente, dava gargalhadas fáceis e falava em alto tom. Nenhum assunto quebrava seu bom humor, nem mesmo quando citou o descaso do meio artístico com profissionais de sua faixa etária.

"A gente fica esperando uma oportunidade boa e demora muito para aparecer. Tem muito ator bom da minha geração que está sem trabalhar", desabafou.

O último trabalho de Etty Fraser na TV foi a novela Uma Rosa com Amor (2010), do SBT. E nos palcos, ela esteve por dois anos no espetáculo A Última Sessão (2014-2015). Aparecia em cena de cadeira de rodas, fator que a permitia atuar durante os 90 minutos de espetáculo.

Nos anos 1980, ela fez sucesso apresentando o programa À Moda da Casa, primeiro na Band e depois na Record. Detalhe: ela não entendia muito o que ensinava para suas telespectadoras. "Eu não sabia cozinhar. Consegui enganar bem o público. Meu tipo físico era bom pra isso. Sempre fui gordinha, tinha um perfil de dona de casa e isso era bom pra esse tipo de programa", confessou.

Etty caiu de paraquedas no ramo. Sempre foi atriz de teatro. Ao lado de José Celso Martinez, fundou uma das principais companhias paulistanas, o Teatro Oficina, em 1959. Mas ficou famosa na TV Tupi, atuando em novelas de sucesso como Beto Rockfeller (1968) e Nino, o Italianinho (1969).

Cinco meses antes da falência da emissora, em junho de 1980, estreou o programa Boca do Forno. "Quando fui convidada, eu disse que não sabia fazer nada além do trivial. Mesmo assim, insistiram. Aceitei somente com a condição de poder entrevistar artistas em meu programa", contou.

Com a Tupi fora do ar, o programa e Etty foram para a Band (então Bandeirantes). O patrocinador mudou o nome para À Moda da Casa. Em agosto de 1982, a atração foi transferida para a Record e por lá permaneceu até o fim, em 1988.

O sucesso de Etty como apresentadora foi instantâneo, e a culinarista acidental teve até coluna na extinta revista Amiga. "Foi um período muito bom, porque eu conseguia conciliar com o teatro, que sempre foi a minha grande paixão. Em um só dia, eu gravava cinco programas e tinha o resto da semana para me dedicar aos palcos. Aprendi a cozinhar, mas hoje já esqueci todas as receitas", admitiu.

Sem sair de casa --exceto aos sábados, quando ia ao cabeleireiro--, Etty Fraser preenchia seus dias com três atividades das quais não abria mão: ver TV, fazer palavras-cruzadas e livros de colorir.

Tomava café da manhã em sua sala de TV, assistindo ao Mais Você, programa de Ana Maria Braga na Globo. O espaço é um pequeno museu particular, com paredes tomadas por grandes retratos de seus trabalhos no teatro e no cinema, além de troféus e muitos álbuns com fotografias e recortes de jornais com reportagens que exaltavam sua carreira.

Em seguida, ia para a sala de leitura conferir as notícias do dia. "Não consigo usar essas coisas eletrônicas. Pra mim tem que ser o jornal de papel", comentou.

No mesmo ambiente, após o almoço, dedicava de três a quatro horas preenchendo livros de colorir. "O primeiro eu ganhei da Walderez de Barros e já pintei 12 livros", valorizou. Latas cheias de lápis de cor e sete apontadores tomavam um criado-mudo localizado ao lado de sua poltrona.

Por volta das 17h, ela voltava à sala de TV e assistia às novelas da Globo, mas se recusava a dar audiência a tramas muitos pesadas, que exageravam nas cenas de violência. "Não gosto de coisas brutas, a vida real já está cheia disso. Pessoas da minha idade gostam de ver coisas mais puras, sem tanta violência. Nessa hora, eu desligo a TV e faço meus jogos de palavras-cruzadas."

Sua ajudante, que se encarregava do preparo das refeições e da limpeza, ia embora logo após o almoço, e Etty ficava sozinha em seu apartamento até a manhã do dia seguinte. "Sou muito feliz desse jeito. Eu adoro a minha companhia e me dou muito bem comigo mesma", afirmou.

Etty Fraser morreu aos 87 anos no dia 31 de dezembro, em decorrência de uma trombose. Ela havia sido internada por algumas vezes nas últimas semanas por apresentar problemas cardíacos e pulmonares. Seu corpo será cremado nesta quarta-feira (2), no cemitério da Vila Alpina.

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