Entrevista | Vida Alves

Pioneira da TV critica beijo lésbico em novela: 'Tiro saiu pela culatra'

Sérgio Seiffert

A atriz Vida Alves em sua casa, no Sumaré, zona oeste de São Paulo, onde também funciona associação Pró-TV - Sérgio Seiffert

A atriz Vida Alves em sua casa, no Sumaré, zona oeste de São Paulo, onde também funciona associação Pró-TV

IGOR VAINERAS - Publicado em 18/07/2014, às 16h47 - Atualizado em 19/07/2014, às 06h56

Famosa por ter dado o primeiro beijo hétero e o primeiro selinho lésbico da TV brasileira, a atriz Vida Alves, 86 anos, diz que a Globo pode ter falhado na intenção de quebrar tabu na novela Em Família, que reproduziu o primeiro casamento entre duas mulheres da TV, com uma série de três beijos entre elas. Para a pioneira da TV, o tiro pode ter saído pela culatra, pois muitos telespectadores não teriam visto com bons olhos o fato de o casal lésbico ter destruído uma família de comercial de margarina.

“Achei o beijo um pouco pesado e exagerado, porque tem o garotinho [Ivan, filho de Clara] no meio e isso pode ter chocado alguns telespectadores”, diz Vida, que na próxima segunda-feira (21) lança o Televisão Brasileira - O Primeiro Beijo e Outras Curiosidades, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, em São Paulo.

A atriz aprova beijo de Félix (Mateus Solano) e Nico (Thiago Fragoso), no capítulo final de Amor à Vida. Acha que foi delicado. Mas ela também critica os beijos entre personagens heterossexuais, muito mais abusados do que no tempo em que ela fazia novela. “Acho que falta um pouco mais de romantismo, um pouco mais de delicadeza. Eu, que estou na posição de telespectadora, acho que às vezes eles aproveitam o momento para beijar mesmo, e não para atuar”, afirma.

Vida Alves entrou para a história da TV duplamente. Em 1952, na novela Sua Vida Me Pertence (Tupi), protagonizou com Wálter Foster (1917-1996) o primeiro beijo da televisão brasileira. E, na década de 1960 (não se sabe ao certo se foi 1963 ou 1964), ela deu um selinho na atriz Geórgia Gomide (1937-2011), no teleteatro A Calúnia. 

E são as suas memórias da fase inicial da televisão e também as de outros pioneiros, como Laura Cardoso, Eva Wilma, Lima Duarte e Rolando Boldrin, que compõem o seu livro. O Primeiro Beijo e Outras Curiosidade inaugura uma coleção de livros Pró-TV (Associação dos Pioneiros e Profissionais da Televisão Brasileira) presidida por Vida. A atriz deu a seguinte entrevista ao Notícias da TV:

Wálter Forster e Vida Alves em cena de Sua Vida Me Pertence, novela de 1951 da Tupi (Divulgação/Pró-TV)

Notícias da TV - Por que a senhora decidiu escrever o seu livro?

Vida Alves - Foi uma obrigação! Eu tive que registrar essa fase, porque não há registro, sequer material guardado. As emissoras eram pequeninas se comparadas às de hoje. Basta dizer que o dono, Assis Chateaubriand, pai da televisão no Brasil, sequer colocou uma página de jornal quando foi inaugurada a TV Tupi, primeira do Brasil e da América do Sul. Saiu no rodapezinho, na baixa do jornal, uma noticiazinha: “Foi inaugurada a televisão no Brasil”. É inacreditável, mas nem Chateaubriand achava que era uma coisa importante ou que ia dar certo. E deu! Foi um começo bem simples, é verdade, mas fomos crescendo aos poucos.

Notícias - A senhora afirma em seu livro que a televisão falha na missão de “divertir e ensinar”. Por quê?

Vida -  É lógico que falha! Porque nós tínhamos essa preocupação firmemente. Nós tínhamos que fazer coisas boas! Por exemplo, o [autor] Júlio Gouveia e a [escritora] Tatiana Belinky foram amigos do Monteiro Lobato e fizeram a primeira adaptação de Sítio do Pica-Pau Amarelo. E o Júlio Gouveia, sempre ao término de cada episódio, estimulava as crianças a lerem, era uma preocupação.

E outra coisa: a televisão, nos primeiros anos, era um aparelho tão caro que tinha o mesmo preço de um automóvel. Com a expansão enorme que a televisão sofreu ao longo das décadas, seu conteúdo acabou sendo influenciado. Alguns programas, não todos, apesar de bem-feitos, chegam a ser superficiais e a abrir mão de um conteúdo mais profundo.

Notícias - Na primeira novela, Sua Vida Me Pertence (de 1951), a senhora deu o primeiro beijo, em Wálter Forster. Foi um grande marco. E agora o beijo é supercomum nas novelas. Como a senhora enxerga isso?

Vida - Eu vou dizer que eu sou exigente! Eu acho que, às vezes, os atores não são antiéticos, mas sim antiestéticos. Uma boca muito aberta, uma vontade de morder o outro... Espera um pouco! Acho que falta um pouco mais de romantismo, um pouco mais de delicadeza. Às vezes chega a ser grosseiro. Eu, que estou na posição de telespectadora, acho que às vezes eles aproveitam o momento para beijar mesmo, e não pra atuar!

Notícias - E a senhora chegou a dar um selinho na atriz Geórgia Gomide no teleteatro A Calúnia, em 1963, o primeiro beijo homossexual da TV brasileira. E agora a novela Em Família mostrou beijos entre duas atrizes. A senhora acha que a novela está ajudando a quebrar o tabu?

Vida - Olha, eu achei que o beijo do Félix e do Nico [de Amor à Vida] foi mais delicado. Não estou falando do beijo em si, mas sim das circunstâncias. Achei o beijo [de Clara e Marina] um pouco pesado e exagerado, porque tem o garotinho [Ivan, filho de Clara] no meio e isso pode ter chocado alguns telespectadores.

Notícias - O tiro, então, saiu pela culatra?

Vida - Sim, o tiro saiu. O povo pode achar exatamente o que eu achei, um pouco pesado por ter no grupo um garotinho. Os beijos que eu dei foram técnicos, hoje não acredito muito nisso. Mas na minha época, foram todos técnicos. Claro que cada um faz o que quer, cada um é dono de si próprio, em tudo, em todas as atividades. Então o ator trabalha da forma como ele quiser, com a criatividade que ele quiser, no sentido de respeitar os seus próprios princípios.

Notícias - Na década de 1990, a senhora decidiu criar, junto a outros pioneiros da TV brasileira, a associação Pró-TV. Existe uma história de que a senhora tomou essa iniciativa depois que recebeu um comunicado do Além no enterro de Cassiano Gabus Mendes. Procede esse relato?

Vida - Eu estava em São Paulo, depois de percorrer o Brasil com a minha filha para promover o Curso Vida Alves de Comunicação, e recebi a notícia [da morte de Mendes]. E, chegando lá, eu fiquei perto do caixão para me despedir e tive a impressão de ouvir a voz do Cassiano falando: “Vida, olha a escalação”. Eu achei muito estranho e pensei que estava tonta ou louca, afinal eu não era contratada de nenhuma emissora.

Naquele dia, não falei com ninguém, mas, dias depois, chamei aqui em casa amigos íntimos, o Blota Júnior, o Wálter Forster, o Luiz Gallon, a Lia de Aguiar, o Walter Ribeiro dos Santos. Falei o que aconteceu e perguntei o que eles achavam. E, é claro, eles ficaram entusiasmados. Religiosamente falando, eles disseram que foi um comunicado do Além. E emendaram e disseram que eu tinha que fazer alguma coisa.

Aí fizemos várias reuniões, pensamos num clube e chegamos finalmente à Associação Pró-TV. Segurei um pouco a ideia, porque eu sabia que ia cair bem no meu ombro por vários motivos. E enfim aceitei o projeto, já que ninguém queria segurar aquele abacaxi! Alguns podem acreditar ou não na história, mas isso aconteceu e me empurrou para esse trabalho, que até hoje presido.


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