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TV NA AMÉRICA LATINA

Novelas mexicanas são machistas, racistas e religiosas, diz especialista

Reprodução/Televisa

Cena da novela mexicana Lo Imperdonable, uma das mais populares no México em 2015 - Reprodução/Televisa

Cena da novela mexicana Lo Imperdonable, uma das mais populares no México em 2015

FERNANDA LOPES

Publicado em 4/9/2016 - 7h07

O ano é 2016, mas as novelas mexicanas seguem o mesmo padrão de 1958, quando a rede Televisa exibiu sua primeira produção: elas são machistas, racistas, classistas e com forte influência religiosa. A constatação é de Guillermo Orozco, professor da Universidad de Guadalajara e coordenador-geral do Obitel (Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva). Ele explica que essas são as características principais das novelas clássicas mexicanas e que o país começou a investir em histórias mais modernas somente nos últimos anos.

"Nas telenovelas clássicas, com um relacionamento entre homem e mulher, há uma relação de gênero muito machista, assim como muito racista e também muito classista. E tudo se resolve dentro de uma cultura religiosa, que chamamos de Mariana por causa da Virgem Maria. Todo o machismo, o racismo e o classismo estão inseridos no contexto religioso, do bem e do mal. Essas continuam sendo características fortes da telenovela clássica mexicana, mas há algumas intenções de fazer outro tipo de telenovela, que vai ao ar sempre à tarde, em horário menos nobre”, ele explicou durante um debate no seminário do Obitel realizado na USP (Universidade de São Paulo) na última quinta (1º).

Mesmo as tentativas de reciclar as novelas clássicas esbarram na tradição cristã do país. Orozco usa o exemplo o caso de La Virgem de Guadalupe, minissérie exibida entre 17h e 18h que ficou entre as cinco produções mais populares no México em 2015.

"[A atração] Fala de problemas familiares de adolescentes, como questões de identidade, violência, gravidez indesejada e bullying na escola. O ponto é que todos os problemas, que são a história do programa, se resolvem por um milagre da Virgem de Guadalupe. Não tem que fazer nada com as instituições, com a polícia, com o governo, com a comunidade, com ninguém para remediar o problema. Só tem que pedir para que a Virgem de Guadalupe resolva, e ela resolve. É preocupante que, com essa mensagem, tenhamos um produto bastante popular", alertou.

Tomaz Pastore/TV Globo

O professor Guillermo Orozco durante o seminário do Obitel na Universidade de São Paulo

Ultimamente, a televisão mexicana tem procurado expandir seus negócios dramatúrgicos para além das novelas. A Televisa tem experimentado a produção de séries, enquanto a TV Azteca tomou uma decisão drástica: anunciou, em junho deste ano, o corte total na produção de telenovelas.

Para Orozco, há dois pontos conflitantes nessas decisões. O primeiro, positivo, é que o investimento das emissoras em outros formatos de ficção, como séries e webséries, que geram audiência também na internet. "Isso quer dizer que elas têm músculo, têm poder, infraestrutura e know-how para fazer séries", afirmou.

Por outro lado, o especialista acredita que o risco de cortar novelas da programação é alto. "A decisão da TV Azteca de não produzir telenovelas é uma sentença de morte. Porque a novela é parte da identidade de uma empresa latino-americana de televisão. O público está muito acostumado com novelas, sobretudo a população mais velha. Fazer uma mudança drástica é muito perigoso", opinou.

Panorama da América Latina

O sucesso das séries norte-americanas serviu de incentivo para que outros vizinhos do Brasil na América Latina também começassem a investir em suas próprias produções nesse formato, ou mesmo a flexibilizar o estilo de suas telenovelas. Mónica Kirchheimer, professora argentina da Universidad de Buenos Aires, afirma que a TV de seu país oferece novelas e produções com durações mais curtas também, como séries e minisséries.

Diferentemente do México, as novelas mais bem-sucedidas na Argentina são as que incluem comédia em suas tramas. Uma das mais populares de 2015 foi Esperanza Mía, em que a personagem principal é uma jovem que se disfarça de noviça para se esconder de criminosos e acaba se apaixonando por um padre.

A trama também fez sucesso no Uruguai. Foi a única produção televisiva argentina entre as cinco mais assistidas no país em 2015, sendo que as outras quatro eram brasileiras: O Rebu (2014), Império (2014), O Canto da Sereia (2013) e Amor à Vida (2013). "O Uruguai é, historicamente, um importador de ficção", explicou a professora Rosario Sánchez, da Universidad Católica del Uruguay, também no seminário do Obitel.

Reprodução/El Trece

A atriz Lali Espósito em cena como a protagonista da novela argentina Esperanza Mía

O drama intenso também não tem muita força na Colômbia. Segundo Borys Bustamante e Fernando Aranguren, professores da Universidad Distrital Francisco José de Aldas, de Bogotá, as tramas colombianas mais bem-sucedidas estão voltadas para o humor ou exploram temas muito presentes no cotidiano e na história do país: o narcotráfico, o conflito armado e a violência urbana.

Mesmo assim, novelas de sucesso no país, como Pablo Escobar: O Senhor do Tráfico, que contava a vida do grande traficante colombiano, e Diomedes, El Cacique de la Junta, sobre a trajetória de um cantor humilde ao estrelato, são mais consumidas pela população adulta e idosa. Os especialistas contaram que os jovens têm debandado da TV tradicional.

No Chile, o que se destaca não é a perda de audiência, mas o fato de a influência da TV brasileira ser cada vez mais fraca. De acordo com dados divulgados pelos professores Pablo Pohlhamer e Francisco Fernández, da Pontificia Universidad Católica de Chile, as novelas brasileiras e mexicanas costumavam compor 35% da audiência da TV chilena. No ano passado, esse percentual ficou entre 15% e 20%, muito por causa da "invasão turca". Novelas da Turquia, como Fatmagül, fazem sucesso no país (e também conquistaram o público uruguaio).

Ainda assim, há no Chile uma tímida intenção de investir mais em outros estilos de produção, como séries, webséries e formatos transmídia. "A inovação tem sido lenta em formato, interação com o público e mistura de gêneros", afirmou Pohlhamer. 


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