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Mestre do terror

Nos 80 anos de Mojica, canal mostra o pesadelo que fez nascer Zé do Caixão

Fotos: Divulgação

José Mojica Marins em As Fábulas Negras, filme que traz seu último trabalho: hoje no Space - Fotos: Divulgação

José Mojica Marins em As Fábulas Negras, filme que traz seu último trabalho: hoje no Space

DANIEL CASTRO

Publicado em 13/3/2016 - 5h15

Uma das gratas surpresas da TV paga brasileira em 2015, a minissérie Zé do Caixão será reapresentada na íntegra neste domingo (13), a partir das 19h, em uma minimaratona no canal Space. A exibição, comemorativa dos 80 anos do cineasta José Mojica Marins (que nasceu numa sexta-feira, 13), é uma boa oportunidade para o telespectador conferir de uma só vez uma das melhores produções nacionais do ano passado. O ápice da obra é a dramatização do pesadelo que fez surgir Zé do Caixão, personagem que assombrou milhares de brasileiros durante décadas e que até hoje é cultuado por fãs do terror.

A obra reconstitui de forma criativa o auge e a decadência do marginalizado Mojica, mestre criador do terror nacional. Mojica é interpretado impecavelmente por um inspirado Matheus Nachtergaele. Após Zé do Caixão, o Space mostrará o filme As Fábulas Negras, que traz o último trabalho do cineasta, o episódio intitulado O Saci (2014).

Dirigida por Vitor Mafra (do longa Lascados, de 2014), a minissérie é baseada no livro Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins (1998), dos jornalistas Ivan Finotti e André Barcinski. Inicialmente, foi pensada para ser um filme. Depois, virou uma série de 13 episódios. Acabou vingando no formato de minissérie, com seis capítulos de aproximadamente 45 minutos cada um.

Matheus Nachtergaele como Mojica no primeiro episódio da minissérie Zé do Caixão

Zé do Caixão é cronológica. Cada episódio se dedica a um filme significativo na carreira de Mojica. Cenas dos longas do cineasta são refeitas com fidelidade ao original e fundidas aos bastidores das filmagens, revelando um Mojica tão genial quanto craque em driblar as adversidades.

O primeiro episódio registra a produção de A Sina do Aventureiro, em 1958, o primeiro filme finalizado de Mojica e também o primeiro faroeste brasileiro. Mojica ainda era muito jovem (tinha apenas 20 anos, embora falasse que era mais velho), mas, autodidata formado na plateia do cinema gerenciado pelo pai, já mostrava autoridade atrás das câmeras _e muita criatividade: para financiar o filme, ele cobrava dos aspirantes a atores para quem dava aulas de interpretação; para realizar uma cena de perseguição com apenas dois cavalos, usou tinta para "multiplicar" os equinos.

Uma tragédia marca o episódio: a protagonista toma um tiro (mas não morre). Na história, a fogosa atriz desperta o ciúme da mulher do delegado de uma pequena cidade. A mulher, então, troca o festim do revólver usado na filmagem por bala de verdade.

A cena, na verdade, nunca aconteceu _não dessa forma. Ela compila vários acidentes ocorridos nas primeiras filmagens de Mojica. Quem levou um tiro em A Sina do Aventureiro foi o mocinho _e o tiro foi de festim mesmo, sem grandes consequências. Morte aconteceu três anos antes. "Nas filmagens de Sentença de Deus, em 1955, a atriz principal morreu afogada numa piscina dos estúdios da Vera Cruz, numa festa. A substituta dela foi atropelada por um acidente de trem e perdeu uma perna. Os acidentes fizeram com que Mojica nunca terminasse o filme", lembra o biógrafo e roteirista André Barcinski.

O segundo episódio registra um momento importantíssimo para o cinema brasileiro: o nascimento de Zé do Caixão. O personagem surgiu em um vívido pesadelo. Depois de tomar duas garrafas de cachaça, Mojica dormiu no sofá e sonhou que era arrastado para um túmulo. Ao acordar, chamou Dirce (Maria Helena Chira), personagem que sintetiza sua secretária e mãe de seus filhos, e começou a ditar o roteiro de À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964). Nascia o temível Zé do Caixão.

"Acho que Zé do Caixão habita nossos pesadelos mais profundos, representa nossos medos, as lendas urbanas. É o coveiro, brasileiro, ateu, niilista, que acredita que a única coisa que faz sentido em sua vida é a perpetuação de seu sangue", define Matheus Nachtergaele.

A saga de Zé do Caixão continua no terceiro episódio, que mostra os bastidores de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1964), outro clássico do cinema nacional. Mojica estava no auge. E usava métodos de direção de atores dignos de um Stanley Kubrick: batia de verdade no rosto das atrizes e as envolvia bichos peçonhentos, como cobras e aranhas, nas filmagens.

Nachtergaele, já como Zé do Caixão: personagem nasceu em um pesadelo após bebedeira

Tudo começa a mudar no quarto capítulo da série. Considerado por Nachtergaele (e por muitos críticos e cineastas respeitados) uma obra-prima do cinema, O Ritual dos Sádicos, também conhecido por O Despertar da Besta, de 1970, foi censurado pela Ditadura Militar, levando Mojica à ruína financeira.

O longa, que permaneceu inédito até o lançamento nas videolocadoras, é sobre a obsessão de um psiquiatra em provar que o uso de drogas como LSD leva à perversão sexual. Com narrativa e estética extremamente arrojadas (e incompreensíveis) para a época, O Despertar da Besta mistura delírio com realidade, imagens coloridas com prete-e-branco, Zé do Caixão com o próprio Mojica. Era a crítica de Mojica à sombria ditadura que dominava o país.

Sem dinheiro, Mojica teve que aderir ao cinema em voga nos anos 1970, produzindo pornochanchadas, sempre com "dinheiro bom", desprezado que era pelos gestores dos recursos da Embrafilme, a estatal que financiava o cinema nacional.

No sexto e último episódio da minissérie, o cineasta vai ao fundo do poço. Por dinheiro, corta suas longas unhas em um programa de TV. Também por dinheiro, adere ao cinema pornográfico e realiza 24 Horas de Sexo (1985), com a primeira cena de zoofilia do país. Com Mojica, a transgressão tinha de ser levada ao limite.

A minissérie é imperdível para os fãs de cinema e de um bom entretenimento. Além da interpretação de Nachtergaele, que impressionou até os filhos de Mojica pela fidelidade, chama a atenção a caracterização do ator. A produção percorre 30 anos da vida do cineasta, e Nachtergaele "envelhece" com apliques de barba e raspagens de cabelos. Na época das filmagens de Zé do Caixão, um ano atrás, Mojica parecia estar nas últimas, fazendo hemodiálise dia sim, dia não, se locomovendo em cadeira de rodas. Hoje, ele está bem melhor. A minissérie parece lhe ter feito muito bem.


80 ANOS DE JOSÉ MOJICA MARINS, HOJE (13) NO SPACE

► 19h15 - Zé do Caixão (episódios 1 a 6)

► 0h - As Fábulas Negras


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