Maratona na quarentena

Na Netflix, The Good Place ajuda a manter a saúde mental em tempos de coronavírus

Imagens: Divulgação/NBC

Kristen Bell segura uma pasta preta e faz cara de confusa ao lado de Ted Danson, que veste um terno cinza, em The Good Place

Kristen Bell e Ted Danson em The Good Place, comédia para matar o tédio e cuidar da saúde mental na quarentena

JOÃO DA PAZ - Publicado em 27/03/2020, às 05h35

"Está com tédio, né minha filha?". Parafraseando o meme com o médico Drauzio Varella, o aborrecimento acomete boa parte das pessoas que estão dentro de casa, obedecendo recomendação das autoridades de não ir às ruas e impedir a propagação do novo coronavírus (Covid-19). Uma arma para espantar esse enfado e manter a saúde mental é The Good Place (2016-2020), comédia disponível na Netflix feita para arejar a cabeça.

Produção que disputou o Globo de Ouro e o Emmy de melhor comédia, The Good Place narra uma história centrada em quatro indivíduos que morreram e foram para um paraíso, chamado de Lugar Bom. O desenvolvimento da trama coloca os protagonistas em vários dilemas que, aliado a um humor refinado, servem como um ótimo passatempo e ocupam a mente com indagações aplicáveis no cotidiano.

Para entender The Good Place, é preciso ter em mente o seguinte: quem é verdadeiramente bom ou mau? Pois o quarteto que acabou de entrar no tal paraíso não chegou lá com um currículo limpo, cheio de ações divinas feitas na Terra. Eles merecem mesmo estar no Céu?

Jameela Jamil, Kristen Bell, Manny Jacinto e William Jackson Harper em The Good Place

O telespectador começa a observar as posturas caricatas dos personagens e se identifica com eles. Eleanor (Kristen Bell) tem muita dificuldade em ser sincera. O certinho Chidi (William Jackson Harper) é incapaz de tomar uma decisão sem hesitar (leia-se: demorar horas enquanto escolhe uma comida). A esnobe Tahani (Jameela Jamil) esconde algo atrás da faceta de ricaça e poderosa. E o inocente Jason (Manny Jacinto) dispara baboseiras a cada minuto.

Assisto, logo existo

Por que essas pessoas vão passar a eternidade felizes da vida e tomando os sabores mais absurdos de iogurte já criados? Alguém vai falar para elas que talvez elas estejam no Lugar Ruim (que seria o Inferno)? Ou cada uma vai cair em si e confessar não ser merecedora de tantas benesses?

Propositadamente, The Good Place trata de filosofia para resolver as questões propostas. Porém, tudo é apresentado de uma maneira simples, diferentemente do que o arquiteto Michael (Ted Danson) acha --"como se aqueles velhos pudessem ajudar a viver melhor", disse certa vez, zombando dos pensadores barbudos.

A série joga na lenha na fogueira no conceito que diz que "uma pessoa boa merece receber coisas boas". Eleanor embarca nesse trem, pratica uma série de ações em prol dos outros, mas fica no vácuo. Até ela perceber que o mais importante não é isso, e sim como se nutre um relacionamento com o outro. Mais fundamental do que uma ação qualquer é criar um vínculo sadio.

A humanidade atravessa uma fase inédita, com seus contratempos. Ficar dentro de casa durante tempo inderteminado, atitude altruísta em dias em que pessoas egoístas brotam aos montes, pode causar estresse mental. Mas, no fim das contas, há um resultado positivo. E The Good Place mostra que fazer algum tipo de sacrifício pensando no próximo é frutífero, mesmo com gente ao redor que pouco se importa.

O preço da ociosidade é deixar a mente ser levada pelos pensamentos negativos, que culminam em refletir sobre como sobreviver em uma época caótica, o que foi feito no passado e o que fazer no presente para alterar o futuro.

Entra o conceito do existencialismo, capaz de colocar um demônio para pensar sobre a sua natureza (no caso, essencialmente má). Afinal, uma pessoa escolhe realmente o que quer fazer ou faz apenas porque é de sua natureza? The Good Place ensina que até um capeta tem capacidade de refletir sobre o poder da escolha.

Para o telespectador não repetir Eleanor e perguntar "não tem um Lugar Médio, não?", a comédia abusa do humor e de grandes sacadas para tornar digeríveis temas importantes da vida. E o público pode ficar tranquilo com a cota de diversão, pois os personagens chutam o balde e piram o cabeção. Chegam a se comportar exatamente ao contrário de sua personalidade, só para ver o que acontece.

No fim, uma das grandes lições de Good Place é que, embora cada ser humano seja único, não é possível crescer na vida ou resolver problemas sem a ajuda do outro. O isolamento social vigente escancara o quanto o convívio é essencial para qualquer pessoa. Fica a importância da amizade, que hoje com as redes sociais até pode ser mantida à distância (mas como faz falta um abraço, né?).

Só em sociedade é que se encontra a saída para adversidades, individuais ou de um grupo. Cada dia (episódio) é um aprendizado. E como diz Janet (D'Arcy Carden), a moça --que não é um robô-- de Good Place que sabe de tudo e pode realizar maravilhas como em um passe de mágica, "o prazer está no mistério".

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